Rosânia: uma vida de solidariedade interrompida pela tragédia anunciada

Por - 6 de maio de 2026 - Histórias à Margem

No dia 9 de maio, a morte da dona de casa completa dois meses. Ela era moradora do bairro Vila América e, aos 47 anos, foi vítima de um dos episódios de alagamento na Avenida Caracas.

Mulher negra sorridente segura um canudo de formatura preto com extremidades douradas. Ela tem cabelos castanhos lisos na altura dos ombros, usa unhas vermelhas, um colar e blusa azul-marinho.

Antes de ter o nome associado à negligência do poder público em Vitória da Conquista, Rosânia Borges se dividia entre a rotina de dona de casa e os cuidados com a mãe idosa, a irmã e os três filhos atípicos. Ela ainda era rede de apoio para a filha mais velha, Beatriz Silva dos Anjos, cuidando das três netas, também crianças atípicas. “Minha mãe era uma mulher batalhadora”, lembra a primogênita.

Rosânia é um retrato das mulheres que assumem o cuidado com os outros ao seu redor. Desde sempre, ela se preocupou com os familiares, vizinhos e amigos. Não à toa, a notícia do seu desaparecimento em meio à enxurrada na Avenida Caracas, no bairro Jurema, mobilizou muitas pessoas.

Na noite do dia 9 de março, quando as buscas por Rosânia foram suspensas pelo Corpo de Bombeiros, voluntários se uniram com a esperança de encontrá-la viva. A mobilização, liderada principalmente por motoboys e membros da Associação de Moradores do Vila América, bairro onde morava, foi um reflexo do seu envolvimento e cuidado com a comunidade que a cercava.

“Ela fazia de tudo para ajudar as pessoas, cuidava até de vizinhos ou desconhecidos”, lembra Beatriz. Com a morte da mãe, a filha assumiu as tarefas de cuidado. “Eu reconheço a força que ela tinha, porque o que faço, ela fazia em dobro. Tem dias que eu deito cansada e com sono pensando: como é que ela conseguia?”

Grupo de pessoas reunidas em uma área aberta e arborizada realiza um protesto. No centro, duas mulheres seguram um cartaz branco com o texto "MÃE e AVÓ" acima de um desenho de coração em formato de quebra-cabeça colorido. Ao fundo, há cartazes manuscritos, sendo um azul com a frase: "Justiça não é vingança é o direito de quem não pode mais lutar por si mesmo".
No dia 24 de março, Beatriz e outros familiares de Rosânia protestaram no local onde ela foi arrastada pela enxurrada, seguindo em caminhada até a Prefeitura Municipal. Foto: Mariana Lacerda.

Além de lidar com as novas responsabilidades que se impõem, Beatriz tem estado à frente da luta por justiça, para que o descaso não resulte em outra “tragédia anunciada”, como define o que aconteceu com sua mãe. Quatro meses antes da enchente que vitimou Rosânia, outras duas ocorrências semelhantes aconteceram no mesmo canal da Avenida Caracas, sem que houvesse nenhuma intervenção do governo municipal.

Mais do que isso, o histórico de alagamentos no bairro Jurema já possui mais de 60 anos. Em novembro de 2025, o Conquista Repórter conversou com moradores após as fortes chuvas e o registro do primeiro acidente no canal. “Eu não quero que outras pessoas sofram o que a gente está sofrendo”, afirmou Beatriz em protesto realizado no dia 24 de março.

Um homem e uma mulher posam sorridentes ao centro de uma festa de aniversário com três crianças. O homem veste camiseta branca e a mulher usa blusa preta, segurando uma criança pequena no colo. À esquerda, um menino usa camiseta do Corinthians e outro veste camiseta vermelha do Homem-Aranha. À frente deles, há mesas com um bolo branco decorado com estrelas, docinhos e flores.
Segundo a família, Rosânia era uma mãe e avó presente, além de muito envolvida com a comunidade. Foto: Acervo Pessoal.

Do Jurema para o Vila América

Rosânia Borges nasceu e passou a maior parte da vida no bairro Jurema. Mas, no ano de 2007, se mudou com a família para o Vila América, onde fincou raízes e sempre participou de forma ativa da comunidade.

“Ela era uma pessoa querida, amiga, que também fazia parte das atividades da Associação de Moradores, onde recentemente tinha feito até um curso profissionalizante de cuidadora da pessoa idosa”, lembra o presidente da associação, Welton Mancha.

Para todos que a conheciam, a marca registrada de Rosânia era a solidariedade, a disposição para ouvir e ajudar quem precisasse. “O que pudesse fazer por você, ela faria. É uma pessoa que não tenho nem palavras”, destaca a prima Aldaci Queiroz. “Foi ela quem conseguiu a vaga para o meu menino mais velho na escola.”

A família a descreve como uma pessoa otimista, que buscava incentivar filhos, primas, sobrinhas, tias e vizinhas. “Ela sempre falava assim: ‘Alda, faz isso que vai dar certo!’”, recorda Aldaci. “É uma pessoa muito boa, que não dá para esquecer”, finaliza.

Grupo de pessoas negras de diversas idades posa para uma foto em uma cozinha. No centro, uma mulher segura uma criança pequena no colo, cercada por homens, mulheres e outras crianças sorridentes. À frente deles, sobre uma mesa de granito escuro, há travessas com comida.
Nascida em Conquista, Rosânia se mudou do Jurema para o Vila América em 2007. Foto: Acervo Pessoal.

Matriarca presente

Mãe zelosa, Rosânia compreendia a importância da educação na vida dos filhos. No dia da tragédia, voltava para casa após ter ido até a escola de um dos mais novos para tratar da matrícula. Como avó, não era diferente. Fazia questão de estar presente em todos os momentos.

“No dia antes de acontecer tudo, não sei se foi uma despedida, mas ela implorou tanto para ver as netas”, comenta Beatriz. Segundo ela, a mãe insistiu pela visita, garantindo tomar conta das crianças. “Eu tenho minhas meninas, que também são autistas, e não quis ir pensando que elas iriam dar muito trabalho, mas minha mãe falou: ‘vamos que eu ajudo’, e assim ela fez”, finaliza.

Depois da sua morte, a solidariedade que praticava em vida se refletiu naqueles que permaneceram. A comunidade do Vila América reuniu doações para auxiliar a família no momento de luto. Nas ruas, moradores da cidade se uniram aos familiares em uma mobilização por justiça no dia 24 de março.

Um dia depois, 25, a Prefeitura de Vitória da Conquista lançou o edital de licitação para a obra de drenagem na Avenida Caracas, intervenção necessária para evitar novas enxurradas no canal. Em meio à dor, Beatriz e a família fizeram suas vozes serem ouvidas, seguindo os passos de Rosânia, que sempre buscou tornar melhor as vidas das pessoas ao seu redor.

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