Vídeo | Aldinei Moreira: “a gente paga o IPTU, mas infelizmente não fazem nada pra gente”
Por Victória Lôbo
01 de dezembro, 2025
O ambulante perdeu tudo pela quarta vez quando veio a enchente no bairro Jurema, em novembro. Diante da ausência do Poder Público, é a solidariedade dos vizinhos que sustenta os moradores.
O ambulante Aldinei Moreira Silva, de 43 anos, vive no Jurema desde que nasceu. Em novembro de 2025, perdeu tudo pela quarta vez quando veio a enchente. Ele questiona para onde vai o “IPTU caro” que paga, enquanto vê o sistema de drenagem do bairro colapsar a cada chuva.
Aldinei não é aposentado. Para sobreviver e mobiliar sua casa, ele trabalha como vendedor, mesmo carregando a sequela de um fêmur quebrado na perna esquerda que o obriga a andar com o auxílio de muletas. “O dinheiro que ganhei na rua vendendo as coisas… eu comprei mais coisas para botar aqui na minha casinha. Infelizmente, perdi tudo de novo”, lamenta.
A lista do prejuízo é a de sempre: cama, armário, roupas. O ciclo de construir e perder se repete, desafiando a resiliência dos moradores do bairro. Para Aldinei, a enchente trouxe um pensamento aterrorizante: a própria casa poderia ter se tornado uma armadilha mortal. Ele não estava no local quando a água subiu rapidamente, estava na praça. “Ainda bem que eu não estava. Porque se eu estivesse, acho que ia ser pior, porque eu não tenho [agilidade], eu ando com a muleta”, reflete.
A vulnerabilidade dele expõe a falha completa dos planos de contingência. Como uma pessoa com mobilidade reduzida escapa de uma enchente súbita em um bairro onde “estoura esgoto, estoura tudo”? “A casa só não caiu porque a licença foi de Deus. Eu moro sozinho”, diz.
Ele aponta que as “bocas de lobo” (bueiros) são poucas e os buracos são pequenos demais para a vazão necessária. Apesar de conhecer o problema técnico, ele não entende a lógica financeira da Prefeitura. “Quando é para cobrar o IPTU, eles cobram. A gente paga, mas infelizmente não fazem nada pra gente. É muito caro”, critica. A sensação é de um contrato quebrado. O cidadão paga, mas o serviço não existe.
Sem o Estado, resta a comunidade. Aldinei conta que, nas vezes anteriores, conseguiu reconstruir a casa com doações de sofás e camas usados. Desta vez, “pega na mão de Deus”. Ele relata a situação da vizinha, que perdeu a “feirinha do mês” (as compras de supermercado) para a lama, uma tragédia silenciosa. A ajuda mútua é o que mantém o bairro de pé. “Um dá um pouco de açúcar, outro ajuda de um lado. É assim. Não é fácil, não.”
Confira abaixo mais detalhes dessa história na videorreportagem da série Histórias à Margem.
O vídeo faz parte da série ‘Histórias à Margem: Baixada do Jurema’, que conta as histórias de moradores do bairro Jurema, em Vitória da Conquista, onde há décadas as fortes chuvas causam alagamentos e, consequentemente, prejuízos para a população, principalmente pela falta de sistema de drenagem eficaz. Para saber mais sobre a situação, acesse a reportagem aqui.