Editorial | Do quilombo aos centros urbanos, a falta de estrutura em escolas afeta crianças atípicas

Por - 20 de julho de 2026 - Educação

A repercussão da recente reportagem do Conquista Repórter sobre a falta de atendimento especializado nas escolas municipais de Vitória da Conquista expôs as falhas nas políticas educacionais do município.

Uma mesa redonda branca com brinquedos coloridos ocupa o centro de uma sala de atendimento para crianças atípicas. Ao redor da mesa, há quatro cadeiras. o fundo e nas laterais, erguem-se armários e estantes brancas repletos de livros infantis, jogos em caixas coloridas, brinquedos e um globo terrestre.  Secom/PMVC

A repercussão da recente reportagem do Conquista Repórter sobre a falta de atendimento especializado nas escolas municipais de Vitória da Conquista expôs as falhas nas políticas educacionais do município. Os relatos de familiares e educadores em nossas redes sociais evidenciam o distanciamento entre a propaganda de “inclusão total” e a realidade do cotidiano escolar de crianças atípicas.

Este não é um problema inédito. Em 2023, noticiamos em vídeo o caso de uma mãe que denunciou a ausência de cuidadores para crianças com deficiência em uma escola quilombola do município. O déficit de assistência que já limitava o acesso à educação básica na zona rural também se mostra presente, com a mesma gravidade, nas escolas da zona urbana.

O modelo adotado pela Prefeitura Municipal, pautado na terceirização do serviço de Assistentes de Vida Escolar (AVEs), tem gerado consequências no cotidiano escolar. A denúncia de uma de nossas leitoras aponta a questão central da insatisfação: “a prefeitura ainda terceirizou o serviço, e não encaminhou as pessoas que já trabalhavam com crianças atípicas e tinha experiência”. A mudança contratual resultou em um rodízio de assistentes. Na prática, a falta de continuidade compromete a rotina e o vínculo necessários para o desenvolvimento de estudantes neurodivergentes.

A garantia de uma vaga física na sala de aula não encerra o processo de inclusão. Educadores que atuam na rede municipal atestam que, “sem formação adequada, os alunos atípicos ficam na sala só por ficarem”. A ausência de auxiliares qualificados é avaliada pela comunidade não apenas como uma questão de contingenciamento orçamentário, mas como uma contradição “em pleno 2026”, indicando que a universalização do ensino não tem sido acompanhada da infraestrutura devida.

As falhas na gestão escolar sobrecarregam diretamente as famílias. O relato de uma mãe, cujo filho “ficou três meses sem cuidador” e que, embora matriculado em regime integral, consegue frequentar as aulas em apenas um turno, ilustra a interrupção prática do direito à educação. É o contraste com esse cenário que leva a população a constatar que “o pior é que a educação faz uma grande propaganda de inclusão total na rede.”

A mobilização nos comentários da nossa reportagem, que cobrou a intervenção do Ministério Público da Bahia (”Cadê o Ministério Público?”), reflete a busca por instâncias de fiscalização. O questionamento da população aponta para uma falha estrutural: Vitória da Conquista “já deveria há muito tempo ter um centro especializado no atendimento às crianças autistas”, com estrutura multidisciplinar. O diagnóstico feito pelos munícipes aponta que a “cidade grande não tem investimento e nem estrutura nenhuma para crianças com TEA.”

O histórico comprova que, das comunidades quilombolas aos centros urbanos, a falta de suporte à educação especial é uma questão sistêmica na rede municipal. A inclusão efetiva requer orçamento adequado, fim da precarização dos vínculos de trabalho e capacitação contínua dos profissionais. Cabe ao Poder Executivo estruturar a rede para que a escola pública atue como um espaço de garantia de direitos para todos os estudantes, e não apenas de estatísticas de matrícula.


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