Editorial | Estudantes universitários ainda precisam ocupar as ruas pelo direito à alimentação
Por Da Redação - 24 de maio de 2026 - Educação
O recente caso de intoxicação alimentar que afetou cerca de 90 alunos da Ufba, no campus de Vitória da Conquista, demonstra fraturas nas políticas de permanência estudantil.
Cristian Walter
O ingresso na universidade é, frequentemente, celebrado como uma grande vitória pessoal e social, um passo para a redução de desigualdades. No entanto, a realidade em Vitória da Conquista tem nos lembrado que garantir a vaga é apenas o primeiro obstáculo. Permanecer na universidade exige condições materiais mínimas que, diante do subfinanciamento do ensino superior público, encontram-se negligenciadas.
O recente caso de intoxicação alimentar que afetou cerca de 90 estudantes do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia (IMS/Ufba) demonstra fraturas nas políticas de permanência estudantil e descaso com a saúde de alunos do ensino superior.
A interdição da cozinha terceirizada que abastece o Restaurante Universitário (RU) da Ufba por falta de alvará e condições sanitárias inadequadas não pode ser tratada como um mero contratempo administrativo. É o sintoma de um sistema onde a precarização e a falta de fiscalização rigorosa colocam em risco o direito à saúde e o futuro dos jovens. Para alunos que passam até 12 horas por dia no campus, o RU fornece a principal refeição completa do dia.
A atitude da universidade de conceder um auxílio financeiro emergencial de R$ 480,00 para os estudantes cadastrados é uma medida de contenção de danos necessária, mas atua apenas como um paliativo. O dinheiro mitiga a urgência, mas não substitui a estrutura de um restaurante físico que garanta comida segura, balanceada e acessível a todos.
Infelizmente, o descaso com quem tem fome nos campi não é uma novidade. É impossível não traçar um paralelo com as denúncias de estudantes da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Lá, o acesso à refeição também foi cerceado, mas por outras vias. O alto preço do quilo cobrado pela empresa e a burocracia para acessar os auxílios empurraram discentes para a insegurança alimentar.
Seja pela comida que adoece na Ufba ou pela comida que não chega ao prato na Uesb, o problema é sistêmico. A insegurança alimentar tem sido tratada pelo Poder Público e pelas gestões como uma externalidade, quando, na verdade, é uma das causas da evasão universitária.
A permanência estudantil não se sustenta apenas com acesso a laboratórios, Wi-Fi ou acervo na biblioteca. Como exigir excelência em pesquisa, ensino e extensão de um estudante, sobrecarregado com aluguel e transporte, quando ele não sabe quando fará sua próxima refeição ou teme que a comida oferecida o leve ao posto de saúde com uma infecção intestinal?
O protesto dos estudantes da Ufba, marchando pela Avenida Olívia Flores com panelas e colheres vazias, reverbera uma dor que não é apenas física, mas social. Não se trata apenas de exigir comida limpa, mas de cobrar o direito de estudar com dignidade e de não ser expulso da universidade pela via da precarização.
É urgente que as gestões universitárias e os governos (estadual e federal) repensem a fundo o modelo de financiamento e fiscalização dos Restaurantes Universitários. A alimentação de qualidade e subsidiada não é um favor prestado, é a base da democratização do ensino superior.
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