Direitos Humanos

No alto das ladeiras do Cruzeiro, nasceu esperança

Por Fernanda Vitória, Roberta Lima e Afonso Ribas

14 de julho, 2026

Organizações da sociedade civil e iniciativas comunitárias vêm ampliando oportunidades e transformando trajetórias de crianças e adolescentes no bairro. O território, na zona norte de Vitória da Conquista, é historicamente marcado pelo estigma da violência e da pobreza.

Em uma casa com 11 irmãos, onde nem sempre havia comida para todos, a oportunidade de ter acesso gratuito a um espaço educativo que oferecia segurança e alimentação no contraturno escolar foi um grande marco na vida da pedagoga Fabrícia de Oliveira Silva Santos. Aos 9 anos, quando passou a ser assistida pela Associação de Amigos da Pastoral do Menor, no bairro Cruzeiro, em Vitória da Conquista, sua mãe encontrou ali, perto de casa, um lugar seguro onde podia deixar a filha enquanto cumpria sua jornada diária de trabalho. 

“A Pastoral era um lugar onde as famílias sabiam que a gente teria, no mínimo, o básico. Então, quando eu vim pra cá, eu vim pra isso: para que a minha mãe tivesse esse suporte de sair pra trabalhar e ficar tranquila”, conta. Na instituição, Fabrícia frequentou aulas de música, dança e capoeira, mas foi no judô que encontrou uma verdadeira paixão. “Sabe como eu deixei de ser agressiva? Porque, para praticar o judô, eu não podia brigar, não podia bater. Então, comecei a me policiar com relação a isso”, lembra.

Além do diploma de Pedagogia, conquistou a faixa preta na modalidade. Hoje, não apenas reconhece como o esporte provocou mudanças positivas em seu comportamento durante a infância, como também dá aula nos mesmos tatames onde um dia foi aluna. Desde que ingressou na Pastoral, nunca mais perdeu o vínculo com a instituição. Foi aluna, funcionária e também presidente da associação, que, em 2014, passou a se chamar Instituto Social Padre Benedito Soares (ISPBS), em homenagem ao pároco fundador do projeto. 

“Eu costumo dizer que o instituto foi o que me deu uma janela pra vida, que me conduziu para chegar onde cheguei. Foi a partir daqui que construí a minha formação. Chegou um momento em que passei a ajudar na sala de aula. Então, eu me formei em Pedagogia porque eu já trabalhava com educação aqui. Também me tornei faixa preta de judô porque foi algo que eu já praticava”, relata.

Atualmente, além de ministrar aulas de judô, Fabrícia é servidora pública de Vitória da Conquista e integra a diretoria da entidade. “Nós damos oportunidades para as crianças e adolescentes atendidas na instituição. Só nas Pedrinhas [que integra o Cruzeiro] temos dois faixas-pretas de judô e vários graduados que trabalham com isso. Judô não é um esporte popular em bairros periféricos. Você não acha academia de judô em todo canto, mas aqui temos judô gratuito. Nosso principal papel é facilitar o acesso da comunidade a direitos que, infelizmente, nem todo mundo consegue usufruir”, destaca.

Crianças e jovens treinam artes marciais sobre um tatame verde e rosa. À esquerda, um instrutor adulto careca, com quimono branco e faixa preta, observa a turma. As crianças usam quimonos brancos e azuis com faixas de cores variadas.
O tatame onde acontecem as aulas de judô do ISPBS é montado no pátio da instituição. Foto: Roberta Lima.

Ao norte, esperança

No alto da ladeira central que atravessa o Cruzeiro em direção à Serra do Periperi, ao norte da cidade, o Instituto Social Padre Benedito Soares (ISPBS) é um exemplo de como o trabalho desenvolvido pela sociedade civil organizada pode reinventar futuros e transformar a realidade de territórios marcados pelo estigma da violência e da pobreza. Ao lado de outras organizações e projetos sociais do bairro, como a Kilombeco e a Pastoral do Menor da Paróquia Nossa Senhora das Graças, o instituto integra e fortalece a rede socioassistencial do município, atendendo diariamente a mais de 250 crianças e adolescentes.

Entre os serviços oferecidos gratuitamente estão o reforço escolar e as oficinas de artes marciais, música e futsal. Além do acompanhamento direto da equipe do ISPBS no contraturno escolar, o público atendido pelo projeto tem direito à alimentação integral enquanto permanece na instituição, incluindo café da manhã, almoço e lanche. Quem estuda à tarde almoça pouco antes de ir para a escola, enquanto aqueles que estudam pela manhã fazem a refeição assim que chegam ao instituto. 

Os impactos gerados por essa rede de atenção e cuidado à infância e à adolescência se refletem nas diversas histórias de moradores do bairro que, assim como Fabrícia, foram acolhidos ao longo de quase 40 anos. “Temos ex-alunos que hoje são contadores, professores, psicólogos, pessoas que, se não fosse a instituição, talvez não tivessem chegado onde estão. Por isso, lutamos para manter as atividades, para que vejam que existem outros caminhos”, afirma a diretora, com orgulho.

Um grupo de cerca de vinte e cinco pessoas, a maioria crianças e adolescentes, posa sorrindo em um ambiente interno. No centro, duas mulheres adultas abraçam os jovens ao seu redor. Uma delas tem cabelos grisalhos curtos e usa óculos; a outra tem cabelos pretos cacheados e curtos. À direita, uma terceira mulher adulta de cabelos longos e pretos sorri de pé. As crianças usam roupas variadas e coloridas, incluindo camisetas de times de futebol.
Parte do público atendido pelo Padre Benedito no turno da tarde, ao lado de membros da diretoria da entidade. Foto: Roberta Lima.

O instituto foi fundado em 1987, em resposta à Campanha da Fraternidade promovida pela Igreja Católica naquele ano, com o lema “Quem Acolhe o Menor, a Mim Acolhe”. Como Associação de Amigos da Pastoral do Menor, a entidade era mantida com recursos próprios, doados ou captados pelos próprios sócios-fundadores. 

Com o passar do tempo e o falecimento dos primeiros membros da diretoria, foi preciso formar novas lideranças e buscar outras fontes de financiamento para manter o funcionamento da instituição. A atual equipe gestora é composta, majoritariamente, por pessoas que já foram acolhidas pelo ISPBS. “Era um desejo muito grande dos nossos fundadores que a instituição fosse conduzida por pessoas que entendessem a importância dela”, revela Fabrícia. 

A presidente do instituto, Flávia de Oliveira Silva, é mãe de uma das crianças atendidas pela entidade. Segundo ela, um dos principais sonhos da diretoria é ampliar a capacidade de atendimento da iniciativa. “Nós gostaríamos de atender mais pessoas, porque sabemos da importância disso na vida dos meninos, mas infelizmente a gente ainda não tem condições”, pontua. 

Hoje, a principal mantenedora do Padre Benedito é a Prefeitura de Vitória da Conquista, que possui convênio com a instituição por meio da Secretaria Municipal de Educação (SMED). Com isso, o instituto assume a responsabilidade de atender, no contraturno, os alunos da Escola Municipal Mãe Vitória de Petu, localizada a menos de 200 metros de distância, viabilizando, assim, a oferta de educação integral para crianças do Ensino Fundamental I. 

Além de assegurar os recursos necessários para custear despesas como alimentação, contas de água e energia, a parceria com o município também garante a cessão de servidores que atuam na entidade em cargos como educadores sociais, monitores e auxiliares de serviços gerais. “A gente ensina e aprende com as crianças todos os dias. Chegamos em casa cansados, mas deitamos a cabeça no travesseiro, sabendo que estamos tentando mudar a realidade”, destaca Nilton Nascimento, ex-presidente e funcionário do ISPBS desde 1997.

Três pessoas estão em pé, lado a lado, em uma sala com paredes salmão e azulejos brancos. À esquerda, um homem negro de óculos veste camisa polo vermelha com listras horizontais escuras e calça azul. No centro, uma mulher negra com cabelo crespo curto veste um vestido longo azul. À direita, uma mulher de pele morena e cabelos pretos lisos veste blusa regata preta e calça azul. Atrás deles, há um banco de madeira escura encostado na parede. Na parte superior da parede salmão, estão pendurados um quadro com uma pintura de paisagem rural e três retratos emoldurados com fotos de rostos de pessoas mais velhas.
Nilton (à esquerda), Fabrícia (ao centro) e Flávia (à direita) integram a diretoria da entidade. Ao fundo, sobre a parede, estão quadros dos fundadores da organização. Foto: Roberta Lima.

Parceiras estratégicas do Estado

Desde a sua fundação, o objetivo central do Instituto Social Padre Benedito Soares sempre foi acolher crianças em situação de vulnerabilidade e inseri-las em um ambiente educacional de qualidade, prevenindo a violação de direitos ou a exposição a situações de risco, como o trabalho infantil, a violência urbana e a cooptação pelo tráfico. É isso, essencialmente, que leva a instituição a atuar na Proteção Social Básica, vinculando-se ao Sistema Único de Assistência Social (SUAS).

A vinculação ao SUAS é o que possibilita às Organizações da Sociedade Civil (OSCs), como o ISPBS, estabelecer parcerias com o poder público e acessar recursos por meio de editais da política de assistência social. Para integrar oficialmente a rede socioassistencial de um município, porém, a OSC precisa estar devidamente inscrita no Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS) e seguir as diretrizes e normas do sistema. Aquelas que atuam especificamente com o público infantojuvenil devem ainda se cadastrar no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (COMDICA).

Ao todo, em Vitória da Conquista, 26 OSCs estão inscritas no CMAS e 20 no COMDICA, órgãos responsáveis por acompanhar e fiscalizar as entidades que atuam na rede de proteção da cidade. “São organizações que prestam serviços relevantes para a sociedade e, numa perspectiva em que o Estado necessita complementar ou ampliar sua rede de atendimento ou oferta de serviços públicos, ele firma parcerias com essas organizações”, explica a psicóloga Irlane Gomes, que atua no SUAS desde 2019.

Como servidora pública, ela já trabalhou em diferentes equipamentos e setores da assistência social do município, incluindo a Coordenação de Proteção Social Básica e a Vigilância Socioassistencial. Atualmente, integra a Diretoria de Assistência Social e também foi presidente e vice-presidente do CMAS, compondo o conselho por quatro anos.

Segundo a psicóloga, a relação de complementaridade entre as organizações sociais e o poder público passou por uma transição histórica no Brasil. Se antes da Constituição de 1988 as entidades civis assumiam sozinhas funções que deveriam ser estatais, a Carta Magna mudou esse cenário ao definir a saúde, a educação e a assistência social como deveres primários do Estado. Dessa forma, as OSCs foram reposicionadas como parceiras estratégicas, atuando de forma complementar para alcançar a população onde a oferta pública universal ainda não consegue chegar de maneira integral.

Uma mulher sorridente com pele parda, óculos de grau redondos e cabelos longos e ondulados castanhos está no centro. Ela veste uma camisa gola polo de cor vinho e um colar. Ao fundo, o cenário é de um ambiente interno com paredes beges claras, uma mesa cinza com cadeiras de plástico brancas e um pequeno enfeite natalino sobre a mesa.
Irlane Gomes é psicóloga por formação e atual diretora de Assistência Social de Vitória da Conquista. Foto: Secom / PMVC.

“Quando você tem saúde, educação, esporte, cultura, lazer e assistência social nos territórios, as famílias acessam esses direitos de forma mais facilitada e conseguem ter uma melhor qualidade de vida. E a assistência social vê isso de uma forma mais clara porque ela cuida das relações interpessoais e do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. Quando ela chega no território, ela tem por obrigação trabalhar a comunidade. E quando você consegue movimentar a comunidade, ela se reconhece enquanto pertencente àquele lugar e se torna mais autônoma”, destaca Irlane.

De acordo com a diretora de Assistência Social, há territórios em Vitória da Conquista que não possuem uma rede estruturada de projetos e organizações da sociedade civil. Essa escassez institucional, contudo, contrasta com a realidade do Cruzeiro, onde lideranças comunitárias e religiosas, famílias e moradores passaram a construir coletivamente seus próprios espaços de acolhimento, proteção e pertencimento, especialmente para as crianças e adolescentes. E é na infância que a transformação social do território começa.

O território que aprende a se reconhecer

Historicamente considerado um dos bairros de maior vulnerabilidade social do município, o Cruzeiro ocupa uma área de 1,3 km² entre o Alto Maron, Centro, Guarani e Lagoa das Flores. Seu território abrange três localidades que, frequentemente, são tratadas como bairros independentes entre si: o Petrópolis, localizado logo acima do Centro, na parte mais baixa da cidade; o Pedrinhas e o Peru, situados na parte mais alta, nas ladeiras que levam à Serra do Periperi e ao monumento conhecido como Cristo de Mário Cravo. 

À medida que o bairro se afasta da região central da cidade, se intensificam as vulnerabilidades sociais e as dificuldades de acesso a direitos, infraestrutura e serviços públicos. Mas, segundo a líder comunitária Laiz Souza, esse cenário começou a mudar nos últimos anos com a atuação das entidades socioassistenciais e com a implantação de equipamentos públicos como o CRAS 3 (Centro de Referência em Assistência Social) e a Escola Municipal Antônia Cavalcanti e Silva, que atende estudantes do Ensino Fundamental e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Fachada do prédio do CRAS III Pedrinhas. Na frente do edifício, um grupo de pessoas desce uma rampa de acessibilidade com corrimão verde. Uma mulher de blusa preta e calça jeans destaca-se em pé no primeiro plano, à frente da rampa. O chão é de concreto cinza, há um gramado verde à esquerda e o céu ao fundo tem nuvens brancas.
Com investimento de R$ 1,7 milhão do tesouro municipal, o CRAS 3 ou CRAS Pedrinhas foi inaugurado em julho de 2024 pela Prefeitura de Vitória da Conquista. Foto: Secom / PMVC.

Quase 76% da população do Cruzeiro se autodeclara preto ou pardo, segundo o Censo 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Com cerca de 9 mil habitantes, o bairro também é berço do primeiro quilombo urbano oficialmente reconhecido pela Fundação Cultural Palmares em Vitória da Conquista: a Comunidade de Vó Dôla. É nela que outra organização social atuante no território vem transformando trajetórias de crianças, adolescentes e jovens por meio da educação: a Biblioteca Comunitária Kilombeco.

Localizada na região das Pedrinhas, a iniciativa, idealizada por Laiz, surgiu em 2020, durante a pandemia da covid-19, a partir da necessidade de auxiliar crianças da comunidade que enfrentavam dificuldades com o ensino remoto. Neta de Vó Dôla e coordenadora da biblioteca, a articuladora social e cultural do quilombo conta que o projeto rapidamente passou a funcionar como espaço de acolhimento e fortalecimento da identidade negra e quilombola do território, tornando-se referência de pertencimento, proteção e oportunidade para moradores da comunidade.

“Hoje a gente vê adolescentes, jovens e até mesmo mulheres da minha idade dentro de um cursinho pré-vestibular, tentando buscar um lugar dentro da universidade. E isso, a Kilombeco nos proporcionou”, destaca. A iniciativa promove ações de incentivo à leitura e à escrita, reforço escolar e formação política, bem como campanhas solidárias e atividades culturais, preservando manifestações ligadas à ancestralidade do território, como o samba de roda e a batucada. Além disso, foi dentro da Kilombeco que surgiu o Cursinho Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô, a fim de promover o acesso da população negra e periférica da cidade ao ensino superior.

Graduanda do curso de Biblioteconomia, Laiz afirma que a própria decisão de ingressar na universidade surgiu da vontade de fortalecer a biblioteca comunitária e contribuir com outras iniciativas semelhantes. Como a Kilombeco ainda não funciona em tempo integral, de segunda à sexta-feira, devido às limitações do espaço e à falta de recursos financeiros, as crianças e adolescentes do quilombo também são atendidas por outras organizações sociais do Cruzeiro e do entorno, como o Instituto Social Vivendo e Aprendendo (ISVA), o Instituto Social Padre Benedito Soares (ISPBS) e a Pastoral do Menor da Paróquia Nossa Senhora das Graças, entidades vinculadas ao SUAS.

Crianças e adultos assistem a uma apresentação musical em uma rua estreita sob o céu azul. A plateia está sentada de costas em cadeiras escolares de madeira organizadas no meio da via. Ao fundo, um grupo de jovens em pé toca instrumentos de sopro, como flautas e clarinetes, posicionados atrás de estantes de partituras pretas.
A Kilombeco recebe esse nome em homenagem ao Beco de Vó Dôla, onde funciona o projeto, nas Pedrinhas. Foto: Afonso Ribas.

Redes de proteção e oportunidades

Assim como o Padre Benedito, a Pastoral das Graças é uma das organizações socioeducativas mais antigas do Cruzeiro. Neste ano, a entidade celebrou 30 anos de atuação no bairro e as trajetórias transformadas ao longo desse período. A de Stéfany Tavares é uma delas. Ela frequentou a instituição dos 6 aos 16 anos. Pouco depois, retornou ao espaço, desta vez como colaboradora, carregando um novo olhar sobre a realidade que antes vivia apenas como assistida.

“Quando eu era assistida, não tinha consciência dos desafios enfrentados pelo projeto. E, como funcionária, pude perceber as dificuldades, como a limitação de recursos, a necessidade de maior apoio institucional e os esforços cotidianos para manter as atividades e atender às demandas da comunidade”, relata. Hoje, aos 23 anos, Stéfany cursa o nono semestre de Psicologia e se tornou a primeira pessoa de sua família a ingressar na universidade. Para ela, não há dúvidas de que o acolhimento recebido na Pastoral redirecionou sua trajetória, oferecendo a proteção e o estímulo necessários para que ela rompesse barreiras e alcançasse o ensino superior.

Com sede na região do Petrópolis, a cerca de um quilômetro do ISPBS e da Kilombeco, a entidade atende de forma gratuita cerca de 120 crianças e adolescentes de 6 a 17 anos, garantindo-lhes assistência, alimentação e acesso à cultura, educação e esporte no contraturno escolar. Percussão, violão, dança, xadrez e futsal são algumas das atividades oferecidas pela iniciativa, além do acompanhamento psicossocial do público atendido. 

Sete crianças e um jovem instrutor estão sentados em círculo, em cadeiras de plástico brancas, tocando violão. O instrutor veste uma camisa preta e calça jeans, enquanto os alunos usam camisas amarelas de uniforme.
As atividades da Pastoral das Graças acontecem de segunda à sexta, com atendimento nos turnos matutino e vespertino. Foto: Fernanda Vitória.

“Buscamos dar o máximo de conforto para essas crianças para que elas se sintam valorizadas, para que enxerguem verdadeiramente que têm valor e que podem buscar coisas melhores para suas vidas”, afirma Roberto Hugo Melo Santos. Presidente da instituição e professor de xadrez, ele destaca a trajetória de Matheus Barros, de 12 anos, como um exemplo de como oportunidades, quando asseguradas à população infantojuvenil, podem ampliar horizontes e perspectivas de futuro em áreas marcadas pela desigualdade social.

Graças à sua dedicação e ao aprendizado obtido com as aulas de xadrez na Pastoral, Matheus foi campeão da modalidade na categoria Sub-12 em Vitória da Conquista. “Eu costumo dizer para os meus alunos que o xadrez é um jogo praticado, em geral, por pessoas ricas, mas enfatizo que eles têm a possibilidade de mostrar que também têm condições de serem campeões no esporte”, reforça Roberto.

Sua esposa, Elaine Fontes, integra a diretoria da instituição e atualmente preside o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (COMDICA), onde representa a Pastoral como membro da sociedade civil. Segundo ela, a participação no conselho é fundamental para garantir que a comunidade tenha voz ativa nas decisões relacionadas à proteção, promoção e defesa dos direitos de crianças e adolescentes. “É assumir o compromisso de lutar por políticas públicas mais humanas, inclusivas e eficazes”, resume.

Uma mulher de pele clara e um homem negro. sorriem lado a lado em frente a uma parede branca com cartazes. À esquerda, a mulher usa óculos de grau, camisa polo preta e calça cinza claro. À direita, o homem veste uma camiseta rosa claro com uma estampa circular amarela que traz o desenho de Jesus com crianças e o texto "Pastoral do Menor - 30 Anos - A Serviço da Vida de Crianças e Adolescentes - Paróquia N. Sra. das Graças". 
Elaine (à esquerda) e Roberto (à direita), diretores da Pastoral das Graças. Foto: Fernanda Vitória.

Articulação coletiva e mobilização comunitária

Na avaliação da psicóloga e diretora de Assistência Social, Irlane Gomes, comunidades que enfrentam situações de vulnerabilidade, mas conseguem construir uma articulação coletiva forte, tendem a colher benefícios significativos desse processo. “Alguns territórios vão ter tanto movimentos mais espontâneos quanto movimentos mais organizados, que têm estatuto, CNPJ e inscrição nos conselhos. Mas todos têm essa contribuição e têm como fundamento a união da comunidade em prol de algo benéfico para todos”, ressalta.

É nesse contexto que se insere a Escolinha de Futebol do Cruzeiro. Embora não esteja formalmente registrada nem vinculada ao SUAS, a iniciativa também busca contribuir para o desenvolvimento social de crianças e adolescentes do bairro por meio do esporte. 

A trajetória da coordenadora do projeto, por sua vez, mostra como organizações sociais do território podem formar novos agentes de transformação da própria comunidade.

Voluntária do Instituto Social Padre Benedito Soares (ISPBS) e ex-atleta, Luciana Almeida Sales, mais conhecida como Poli, conta que a experiência no esporte e o trabalho com o público infantojuvenil no ISPBS foram algumas das motivações para criar a escolinha. Entre apitos, bolas divididas e orientações dadas à beira do campo de futebol do Cruzeiro, ela ocupa um espaço ainda raro: é a única mulher entre dezenas de treinadores homens nos campeonatos da cidade. “Só em ser respeitada entre um tanto de homem desse, para mim já é felicidade demais”, conta.

A escolinha surgiu há nove anos, depois que um amigo a incentivou a montar um time no bairro. Ela aceitou o desafio, mas com uma condição: “Só se eu fizer um time de meninas também”, lembra. Com ajuda da família e de amigos ligados ao esporte, nasceu a iniciativa, que hoje atende cerca de 80 crianças e adolescentes de 5 aos 16 anos e reúne quatro times, dois infantis e dois juvenis. “Temos o intuito de tirar as crianças da rua, e de ter um espaço assim para que eles possam treinar”, diz Poli.

“Um refúgio para os meus filhos”

Para Midian Santos, mãe de dois atletas da escolinha, o projeto funciona como mais um espaço de proteção dentro do bairro. “É um refúgio para os meus filhos”, afirma. Ela conta que a disciplina aprendida dentro de campo ultrapassa o futebol e aparece também em casa e na escola. “Eles fazem de tudo para não serem suspensos do treino”, acrescenta.

Midian acompanha de perto os campeonatos em que os filhos participam e, mesmo precisando conciliar os jogos com o trabalho, faz questão de estar presente sempre que pode, pois vê no esporte boas perspectivas de futuro para os meninos. “Eu falo para eles focarem no esporte e trabalharem para mudar de vida”, conta. 

Além do sonho de seguir no futebol, os adolescentes também carregam outros objetivos: conseguir o primeiro emprego, juntar dinheiro e comprar a própria moto. Dentro da escolinha, Poli tenta mostrar que o esporte pode abrir caminhos para além do campo. “Aqui eu busco trabalhar isso com eles: a violência, o bullying, a criminalidade. Mas o mais importante é a educação. O principal são os estudos”, destaca a treinadora.

Enquanto instituições cadastradas em conselhos municipais conseguem acessar editais, parcerias e recursos públicos para ampliar suas atividades, a escolinha liderada por Poli segue funcionando principalmente com o apoio das próprias famílias dos atletas. “Se não fosse por eles, não haveria apoio algum. Mas, graças a Deus, aos poucos estamos evoluindo. O mais importante é ver os resultados do trabalho com os alunos. É gratificante, e eu pretendo seguir em frente até onde puder”, finaliza.

*Esta reportagem é resultado do 1º ciclo de atividades da Escola Conquista Repórter de Jornalismo, que visitou quatro bairros periféricos de Vitória da Conquista, entre abril e maio de 2026: Vila Elisa, Cruzeiro, Jardim Valéria e Senhorinha Cairo.

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