“Cansamos de ser estatística da violência, agora vamos ser estatística da educação”
Por Afonso Ribas e Maria Eduarda Leite - 28 de agosto de 2025 - Educação
Cursinhos populares de Vitória da Conquista impulsionam o acesso de jovens e adultos da periferia e da zona rural ao ensino superior. Iniciativas como o Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô e Dandara dos Palmares agora integram rede nacional apoiada pelo MEC.
Afonso Ribas
Aos 25 anos, José Luca de Souza voltou a sonhar com a universidade. Morador do bairro Pedrinhas, em Vitória da Conquista, ele concluiu o ensino médio há cerca de cinco anos, mas as dificuldades financeiras e o preconceito enfrentado ao longo da vida interromperam temporariamente o seu desejo de se tornar advogado.
Agora, ele é um dos 32 alunos atendidos pelo Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô, uma iniciativa que surgiu dentro do Quilombo de Vó Dôla para abrir portas que, por muito tempo, estiveram fechadas para jovens e adultos da comunidade. “É como se eu estivesse voltando à escola, voltando às aulas, literalmente”, conta.
Criado em 2024, o Mãe Fátima foi um dos mais de 380 cursinhos populares do Brasil selecionados pelo Ministério da Educação (MEC) para integrar a chamada Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP). O programa oferece suporte técnico e financeiro para a preparação de estudantes da rede pública que buscam ingressar na educação superior, em especial aqueles com renda familiar de até um salário mínimo, indígenas, pessoas com deficiência, negros ou quilombolas.
O primeiro edital de seleção da CPOP foi lançado no mês de abril, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Inicialmente, 130 iniciativas seriam contempladas, mas diante da alta procura pelo apoio federal, esse número foi ampliado, passando a beneficiar mais de 15 mil estudantes em todo o país, quase o triplo do que estava previsto quando a rede foi lançada, em março deste ano.
No Sudoeste Baiano, além do Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô, outros quatro cursinhos foram selecionados pelo edital: o Pré-Vestibular Dandara dos Palmares e o Pré-Vestibular Enem Solidário do Instituto Incluso, ambos de Vitória da Conquista; o Cursinho Pré-Enem do Grupo de Estudos Pré-vestibular, de Belo Campo; e o Pré-Vestibular Social do Projeto Raízes, de Riacho do Santana. Em todo o estado, 26 projetos foram beneficiados.
Apoio que faz diferença
O MEC apoia cada cursinho com até R$163,2 mil. Com isso, os alunos matriculados com frequência satisfatória recebem uma bolsa mensal de R$200 para incentivar a permanência em sala de aula. O recurso também abarca a contratação de coordenadores e professores por sete meses, apoio para atividades técnicas e administrativas e a disponibilização de materiais pedagógicos gratuitos.
Para o Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô, o investimento foi um divisor de águas. Graças ao edital, o cursinho ganhou maior estabilidade, autonomia e uma estrutura institucional mais robusta, que inclui um quadro docente formado por 12 professores e três arte-educadores. Além disso, cinco pessoas atuam na coordenação pedagógica e administrativa.

As aulas ocorrem de segunda a sexta, abarcando todas as disciplinas exigidas no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Aos sábados, o foco é arte e educação, com rodízio entre os educadores a cada 15 dias. A maioria dos alunos são do Pedrinhas e de bairros periféricos adjacentes, como Petrópolis, Cruzeiro, Panorama, Nova Cidade e Guarani.
Quando o projeto teve início, em 2024, a atuação se dava de forma independente com a ajuda de professores voluntários, na sede da Biblioteca Comunitária Kilombeco. Mas logo a iniciativa ficou sem fôlego para seguir em funcionamento, uma vez que não havia recursos para custear o transporte dos colaboradores até o local das aulas.
Então, o cursinho aderiu ao Universidade Para Todos (UPT), passando a manter, na Kilombeco, uma turma do programa, que é executado pelo Governo da Bahia. “Só que a gente ainda não tinha a cara de um cursinho popular e comunitário, que é diferente do cursinho institucional. A gente queria sim fazer esse trabalho, mas levar dos nossos para os nossos, trazendo pessoas da própria comunidade para ministrar as atividades”, explica a articuladora social e cultural do Quilombo de Vó Dôla e coordenadora geral do Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô, Laiz Souza.
A parceria com o UPT foi encerrada no começo deste ano, o que tornou o edital da CPOP ainda mais importante para ajudar Laiz a trilhar o sonho de transformar sua comunidade através da educação, assim como aspirava Mãe Fátima, sua mãe biológica e uma das principais matriarcas do quilombo. “Cansamos de ser estatística da violência, de estar nas páginas policiais. Agora vamos ser estatística da educação”, enfatiza.
Redes de oportunidades
Para participar da seleção aberta pelo MEC, o Pré-Vestibular do Quilombo de Vó Dôla se juntou à outra rede nacional de cursinhos populares, a Podemos +, que lhe garantiu o suporte jurídico e burocrático necessário para se tornar elegível ao edital. Criada em 2017, a Podemos + é uma iniciativa do Movimento Brasil Popular e do Levante Popular da Juventude que luta pela democratização do acesso ao ensino superior, impulsionando a entrada de jovens da classe trabalhadora nas universidades.

“A gente sente que o UPT, ainda que seja público e gratuito, possui uma metodologia bem distinta do cursinho comunitário e popular, que tem mais essa característica do lugar onde ele está. Então, professores, estudantes, didática e até o próprio componente curricular estão muito vinculados a essa cultura de comunidade. E pra gente isso é muito importante”, destaca Larice Ribeiro, professora, militante do Levante Popular e integrante da Rede de Cursinhos Podemos +.
Ela acredita que o esforço do Governo Federal de fomentar essas iniciativas através da CPOP pode e deve se tornar uma política pública mais robusta no futuro. Mas ressalta que “essa é uma proposta que surgiu dos movimentos sociais para o governo e não o contrário. É fruto de um acúmulo de experiências e mobilizações de entidades como o Levante”.
Para o professor e pesquisador Flávio Passos, doutorando em Estudos Étnicos e Africanos, a rede CPOP resgata a tradição dos cursinhos populares no país ao valorizar e fortalecer práticas que, historicamente, caracterizam essas iniciativas, como a autogestão, o trabalho com recorte étcnico-racial e o uso de espaços comunitários. Outro aspecto importante é o ensino e discussão de conteúdos ligados à cidadania, às culturas periféricas e quilombolas e aos direitos humanos.
“É importante que essa fase de transição entre a educação básica e a educação superior seja assumida estrategicamente pelos governos, tanto pelo governo estadual, que aqui já faz o seu papel com o Universidade Para Todos, devendo aprimorar cada vez mais o seu diálogo com a comunidade; quanto pelo governo federal, que deve entender que o CPOP não pode ser um projeto pontual, mas sim uma política pública estruturada e acessível para todos que querem superar as desigualdades históricas e estruturais deste país”, afirma.

Atualmente, Flávio leciona na rede estadual de ensino e também atua como professor e coordenador pedagógico do Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô. “Ter um cursinho dentro de um quilombo é um ato plenamente político, uma iniciativa de afirmação num bairro negro, periférico e quilombola, reconhecido pela Fundação Cultural Palmares. Eu costumo dizer que o Pedrinhas representa a resistência ao racismo em Vitória da Conquista”, pontua.
“É um sonho”
As atividades do cursinho começaram em julho, na Escola Municipal Antônia Cavalcanti e Silva, situada exatamente entre os bairros Pedrinhas e Cruzeiro. O prédio da instituição foi reconstruído depois que parte da estrutura anterior desabou, em 2021. A obra foi entregue em junho do ano passado. Mais amplo e bem equipado, o novo espaço de funcionamento do Pré-Vestibular também contribui para qualificar o trabalho desenvolvido pelo projeto.
“Eu me emociono muito porque, quando a gente pensou nessa estrutura, estávamos pensando em projetos como esse, que a comunidade poderia conquistar com muita luta. Então, é um sonho e nós precisamos esperançar com esse espaço. Mas esperançar não é esperar de braços fechados e achar que as coisas vão cair nas nossas mãos. A luta continua”, conta a professora e ex-diretora da escola, Lucineia Gomes.
Para a coordenadora geral do cursinho, Laiz Souza, trazer o Mãe Fátima para o território significa abrir portas para que os moradores possam ocupar espaços antes vistos como inalcançáveis, como as universidades. “Hoje eu estou dentro de uma universidade federal e estou vendo que é verdade. A gente pode sim ocupar esse espaço e transformar a realidade através da educação”, comenta.
A professora e coordenadora pedagógica da Escola Municipal Antônia Cavalcanti, Valéria Gusmão, destaca que, ao funcionar na instituição, o cursinho também elimina a necessidade de deslocamentos difíceis. A região conta com apenas uma linha de ônibus (R24) e, segundo ela, os horários são escassos, com alguns veículos em condições precárias. Muitos estudantes precisariam pegar mais de uma condução para frequentar aulas em outras localidades, o que ainda geraria um custo financeiro nem sempre compatível com a realidade financeira de famílias da periferia.
“É uma conquista enorme, porque eles estão aqui na redondeza e não necessitam do transporte coletivo [para frequentar o cursinho]. Com isso, todos têm a oportunidade de mostrar que o bairro [Pedrinhas] não condiz com a visão deturpada que muitas pessoas têm da periferia e que eles têm sim a capacidade de serem professores, engenheiros, médicos, enfermeiros, técnicos ou profissionais em todas as áreas possíveis”, ressalta Valéria.

“É algo de nós para nós”
Valéria, Lucineia, Laiz e várias outras pessoas oriundas do Pedrinhas e de seu entorno estiveram presentes na aula inaugural do Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô, no dia 14 de julho, assim como os professores do cursinho. Vários deles, inclusive, são da própria localidade, como é o caso de Adão Ferreira, que viu na docência dentro do projeto a oportunidade de contribuir com a comunidade onde nasceu e cresceu.
“Pra mim isso é muito relevante, poder dar algum tipo de retorno. Eventualmente, a gente serve como um farol, de certa maneira. E é muito interessante para os alunos poderem se identificar com quem já passou por esse percurso. Acho que serve como um gás a mais”, afirma o professor, que é licenciado em História e pós-graduado em Letras pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb).
De acordo com Flávio Passos, essa é uma forma de oferecer referências reais para os estudantes, motivo pelo qual os professores e convidados compartilharam suas histórias na aula inaugural do projeto. “Eles verem pessoas que têm um histórico parecido, uma origem parecida e um testemunho de luta, de superação e de compromisso com a comunidade, é reafirmar que eles estão no lugar certo, na hora certa, fazendo a coisa certa. Não é só realizar um sonho pessoal, mas se realizar em coletividade”, reforça.
Laiz destaca ainda a importância dessa representatividade para fortalecer nos jovens e adultos atendidos pela iniciativa o senso de pertencimento à comunidade. “É algo de nós para nós. Então, todas essas referências se tornam uma rede de apoio para que esses estudantes consigam permanecer, lutar e dizer assim: ‘não estou só’. É um segurando na mão do outro e levando uns aos outros para dentro das universidades”, afirma.
Desigualdade de acesso
Segundo dados divulgados em fevereiro deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção da população negra (preta e parda) com ensino superior completo no Brasil aumentou mais de cinco vezes entre 2000 e 2022. O percentual de pessoas pretas com graduação subiu de 2,1% para 11,7%. Entre pardos, o índice passou de 2,4% para 12,3%. O aumento ocorreu no contexto de ampliação das ações afirmativas no país, graças à mobilização do Movimento Negro e à conquistas como a Lei de Cotas.
Apesar disso, a desigualdade racial na educação persiste, assim como as dificuldades de acesso de jovens negros, quilombolas e de baixa renda ao ensino superior. O número de pessoas negras com esse grau de instrução – 9,3 milhões – ainda é pouco mais da metade do total de pessoas brancas graduadas, que somam mais de 16,1 milhões.
A disparidade é ainda mais evidente em cursos considerados “de prestígio”, como Medicina. Em 2022, 75,5% dos graduados nessa área eram brancos, enquanto apenas 2,8% eram pretos e 19,1% pardos, conforme matéria do portal Alma Preta. A população negra também segue com maior taxa de evasão no contexto universitário. O Censo 2022 mostra que a taxa de conclusão de curso foi de 25,8% entre brancos, o dobro da registrada entre pretos e pardos.
Na Bahia, o número de pessoas negras com diploma é proporcionalmente maior em relação ao Brasil, refletindo a diversidade racial do estado, cuja população é composta, predominantemente, por pretos e pardos (80,8%). Entre os mais de 1,1 milhão de baianos com ensino superior completo, cerca de 570 mil são pardos e 211,6 mil são pretos, enquanto 358 mil são pessoas brancas. Já em Vitória da Conquista, os dados são um pouco mais próximos da realidade nacional.
No município, em 2022, 20.339 pardos e 3.967 pretos concluíram o ensino superior, contra 17.525 brancos, de acordo com o IBGE. Apesar do quantitativo de pessoas negras superar numericamente a população branca com diploma universitário, a distância entre os três grupos revela que a cada cinco pessoas brancas graduadas na cidade, há pouco mais de uma pessoa preta, evidenciando as barreiras de acesso à universidade enfrentadas por comunidades historicamente marginalizadas.
Pré-Vestibular Dandara dos Palmares
Assim como o Pré-Vestibular Mãe Fátima de Xangô, o Pré-Vestibular Dandara dos Palmares é outra iniciativa que busca mudar essa realidade em Vitória da Conquista, atendendo estudantes de baixa renda, quilombolas e indígenas. Em atividade desde o final dos anos 1990, o projeto foi fundado por Elizabeth Ferreira Lopes, reconhecida por ter sido presidente da primeira Casa de Estudantes Quilombolas do Brasil e por sua luta como Agente Pastoral Negra (APNS) na promoção do acesso à educação para a juventude quilombola e periférica.
Anteriormente conhecido como Cursinho Dom Climério, o Dandara surgiu num período em que os movimentos sociais voltaram a ganhar força no Brasil, após a transição da Ditadura Militar para o regime democrático. É nesse contexto que muitos pré-vestibulares populares são criados ou retomados no país, depois dos longos anos da repressão imposta pelo Golpe de 1964, conforme apontam Ariane Lazarine e Maria Clara Di Pierro em artigo publicado na Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos.
De acordo com as pesquisadoras, a origem dos cursinhos populares está diretamente relacionada aos movimentos sociais, em especial ao Movimento Estudantil e ao Movimento Negro, como é o caso do Dandara. O Pré-Vestibular conquistense nasceu como uma ação vinculada à chamada Pastoral do Negro ou Pastoral Afro-brasileira, entidade criada pela Igreja Católica para apoiar a defesa dos direitos, a promoção da cidadania e o empoderamento do povo negro.
Hoje, o projeto possui estrutura institucional própria e funciona na Escola Municipal Cláudio Manuel da Costa, localizada na Rua João Pessoa, Centro de Vitória da Conquista, ao lado do Tiro de Guerra. Segundo Marcelo Delgado, atual coordenador do cursinho, “por ser um trabalho filantrópico direcionado às classes populares, havia um preconceito das elites quanto à aprovação de estudantes oriundos das escolas públicas em faculdades e universidades públicas”.
Por outro lado, havia um apoio mais amplo de grupos políticos e de entidades sociais e religiosas a projetos de cunho social, sobretudo na década de 2000, algo que, de acordo com Marcelo, foi reduzido drasticamente nos últimos anos. “Tudo se tornou mais difícil. Manter um curso que prega a gratuidade do ensino e que depende do voluntariado dos profissionais se constitui como um desafio constante, além das dificuldades econômicas dos próprios alunos. Mesmo com o uso de estruturas físicas de escolas públicas e a doação incondicional da direção, coordenação e demais colaboradores, o dia a dia é um desafio”, conta.

As perspectivas melhoraram desde que o Pré-Vestibular Dandara dos Palmares foi selecionado para integrar a Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), ao lado de outras iniciativas locais como o Mãe Fátima de Xangô. Marcelo afirma que o apoio da CPOP possibilitou a melhoria das condições de atendimento do público alcançado pelo projeto e também ajudou a garantir a permanência dos alunos no cursinho, reduzindo a evasão, que era um problema crônico, por meio da concessão de bolsas de auxílio estudantil.
“A continuidade do projeto alavanca classes menos favorecidas, marginalizadas e esquecidas ao papel de protagonistas sociais, de construtores de uma nova história. O futuro, sem dúvida, se torna mais promissor. É extremamente gratificante, nesses mais de 20 anos que participo do projeto, encontrar com ex-alunos do cursinho e vê-los, para além de graduados, conscientes do papel transformador que a educação constrói”, enfatiza.
Chance de transformar o futuro
Egresso do Dandara, Antoniel Rodrigues dos Santos encontrou no cursinho a chance de transformar seu futuro. Atualmente, ele mora no bairro Alto Maron, em Conquista, mas cresceu no povoado da Matinha, no distrito de Inhobim, onde trilhou seu percurso escolar até o fim do ensino médio, em meio a muitos desafios ou “aventuras”, como ele prefere chamar.
“O ônibus que nos levava do povoado até o distrito frequentemente quebrava, e precisávamos esperar outro chegar. Em épocas de chuvas fortes, devido às más condições da estrada, muitas vezes não era possível ir às aulas, pois o transporte atolava”, relembra.
A instituição onde cursou o ensino médio era uma extensão do Colégio Estadual José Sá Nunes. Com apenas três salas de aula, o espaço era quente e desconfortável, pois, de acordo com Antoniel, não contava com ar-condicionado. O único ventilador que existia na escola estava quebrado.
O desejo de ingressar na universidade surgiu cedo. “Desde criança, eu achava lindo ouvir alguém dizer que cursava o ensino superior. Mas, na zona rural, é comum as pessoas terminarem apenas o ensino médio e buscarem um emprego com carteira assinada. Meus pais, por exemplo, não tiveram oportunidade de estudar. Minha mãe é analfabeta e meu pai estudou apenas até a 1ª série. Entre meus irmãos, um concluiu o ensino médio, dois desistiram na 7ª série e outro no 1º ano”, conta.

Sua avó paterna sempre o incentivou a seguir um caminho diferente. Dizia que ele “deveria estudar para ser um doutor”. Fez o Enem por três anos consecutivos sem obter aprovação, até que conheceu o Pré-Vestibular Dandara dos Palmares, através de uma amiga. “O problema era que eu não tinha como frequentar as aulas por morar longe. Então, entrei em contato com a coordenadora, Elizabeth (Beta), e ela me falou sobre a residência estudantil. Passei a morar lá [em Conquista] durante o curso, dividindo meu tempo entre estudar e trabalhar, sempre focado”, detalha.
No cursinho, fez amizades, adquiriu novos conhecimentos e recebeu apoio emocional dos professores e colaboradores do projeto, o que foi decisivo em sua trajetória. Em 2024, veio a tão sonhada vaga no curso de Jornalismo da Uesb. Hoje, aos 27 anos, Antoniel é a primeira pessoa de sua família a ingressar numa graduação.
O estudante acredita que iniciativas como o Dandara são fundamentais para jovens que, assim como ele, enfrentam barreiras econômicas, estruturais e sociais. “O cursinho não oferece apenas preparo acadêmico, mas também acolhimento, incentivo e oportunidades que transformam vidas”, destaca.
Além do ensino
Rany Vieira Silva também teve seu sonho de conquistar um diploma de ensino superior abraçado pela equipe do Pré-Vestibular Dandara dos Palmares. Nascida em Santo Antônio de Jacinto, interior de Minas Gerais, ela carregava consigo o desejo de estudar medicina. Com o cursinho, viu a possibilidade de se mudar para Vitória da Conquista e se preparar para o Enem e outros vestibulares.
Tal qual Antoniel, sua trajetória escolar foi cheia de obstáculos. Devido ao trabalho do pai, mudou-se várias vezes de cidade, o que prejudicou a continuidade dos estudos no ensino médio. Para concluir a educação básica dentro do prazo, recorreu a um supletivo. Mas essas mudanças deixaram lacunas acadêmicas e emocionais, que lhe exigiram ainda mais empenho no processo de preparação para as provas.
“É o nosso sonho que está em jogo e não depende exclusivamente da gente, né? Tem toda uma questão social, econômica e emocional. É um momento muito delicado da nossa vida porque requer muito esforço, requer muito psicológico, requer esse auxílio muito grande que eu, graças a Deus, mesmo longe da minha família, consegui ter”, relata. Foi com esse apoio que ela conseguiu conquistar uma vaga na universidade na área da saúde, no curso de Psicologia.

No Dandara, Rany encontrou não só professores, mas verdadeiros mentores que, segundo ela, lhe “auxiliaram em tudo, não só nas matérias, mas como pessoa”. Para ela, o cursinho vai muito além do ensino: é acolhimento, família e segurança. “Se hoje eu tô aqui, não é só pelo meu esforço, né? Tem todo um esforço por trás, porque eles realmente compraram o meu sonho, viveram o meu sonho”, reforça.
Hoje, ela busca sempre indicar e apoiar o projeto para que outros jovens também encontrem um lar para seus sonhos. Dessa forma, ajuda o Dandara a continuar fazendo o que, para Marcelo Delgado, atual coordenador, é um dos objetivos do projeto: “resgatar aqueles que desistiram no meio do caminho ou que se deixaram vencer pelo desânimo, cansaço ou falta de recursos. Muito mais do que passar conteúdos de diferentes disciplinas, dar representatividade às identidades étnicas, fomentar responsabilidade social, esperamos transmitir um legado de crescimento humano que a muitos fora negado”, finaliza.
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