Vila Elisa cresce, mas infraestrutura não acompanha expansão do loteamento
Por Karina Costa e Inara Silva
14 de julho, 2026
Moradores convivem com transporte público escasso, ruas sem pavimentação, descarte irregular de lixo e cobram ampliação dos serviços de saúde e educação. “Pelo amor de Deus, autoridades, despertem o olhar para o nosso bairro”, reivindica residente da localidade.
Há dez anos, Geiza Rodrigues conquistou a casa própria por meio do programa Minha Casa Minha Vida. Com as chaves em mãos, ela saiu da Urbis VI, onde morava com a mãe, e se mudou para o Loteamento Vila Elisa, no bairro Espírito Santo, na zona sul de Vitória da Conquista. “No início, fiquei com medo porque achava longe de tudo.” Com o passar do tempo, o medo deu lugar a uma sensação de pertencimento, especialmente por causa dos laços que criou com a comunidade.
Uma das pessoas que conheceu ao chegar no novo lar foi Maria Santos, que também se estabeleceu no loteamento após ser contemplada pelo programa habitacional do governo federal. “É um pouquinho distante, mas é bom, principalmente porque é uma coisa da gente mesmo, né?”, relata a moradora.
Às margens da BR-415, o Vila Elisa integra o quinto bairro mais populoso do município. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Espírito Santo é ocupado por 20.456 habitantes, sendo 51% mulheres e cerca de 70% pessoas negras. Entre 2010 e 2022, o IBGE registrou um aumento de 77,40% no número de moradores.
Residentes da região há uma década, Geiza e Maria acompanham de perto a expansão do bairro, mais especificamente do Vila Elisa. Para elas, enquanto cresce o número de moradores, a infraestrutura e a oferta de serviços públicos, como transporte e educação, não evoluem no mesmo ritmo.
A escassez de linhas do transporte coletivo, a ausência de pavimentação, a falta de atenção do poder público para o descarte irregular de lixo e a dificuldade de acesso à cultura e lazer são alguns dos problemas enfrentados pelos moradores. “É um lugar bom de morar, mas tem muitas coisas que faltam e precisam melhorar”, destaca Maria.
O problema da mobilidade urbana
Para Enilda de Jesus Almeida, de 45 anos, o que falta é pavimentação. Quando o céu está livre de nuvens, ela precisa enfrentar a poeira que se acumula nos móveis e agrava as alergias. No período de chuvas, a lama é o seu obstáculo para sair de casa e levar a filha até a Escola Municipal Professora Neuza Vieira Silva.
Segundo a moradora, a iluminação também é precária, o que dificulta o deslocamento, principalmente no período noturno. “Quando a gente precisa de um Uber, dependendo da hora, eles não vão. Se uma hora a gente adoece, ou a criança adoece, se for à noite, os carros não vão nos buscar na nossa casa”, desabafa Enilda.
Seja durante o dia ou à noite, a oferta do transporte coletivo urbano não é suficiente para atender à demanda da comunidade. De acordo com o VoDeBuzu, plataforma do governo municipal, atualmente, apenas duas linhas saem do loteamento em direção ao Centro, R15 e R15A, ambas com destino final na Estação de Transbordo Herzem Gusmão.
De segunda a sexta, segundo as moradoras, os ônibus passam a cada 50 minutos, devido aos atrasos frequentes. Aos sábados, a espera pode ser ainda maior, de 1h a 1h30. Quem precisa chegar à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) é obrigado a pegar pelo menos quatro ônibus, já que não há uma linha direta do Vila Elisa até a Uesb.
A baixa oferta do transporte coletivo dificulta o acesso a serviços e atividades oferecidas na região central da cidade. Para quem vive no loteamento, participar de eventos culturais nos finais de semana, por exemplo, exige muito planejamento prévio. “É difícil porque não tem ônibus fácil, às vezes passa de manhã e à tarde já não passa”, afirma Maria.
Outra reivindicação da comunidade é a manutenção das vias asfaltadas. Na Avenida José Machado da Costa, rua principal onde passa o corredor de ônibus, apenas metade do trecho é asfaltado. E mesmo no local pavimentado, os buracos e crateras dificultam a locomoção de motoristas e pedestres, aumentando o risco de acidentes.


Em abril, Enilda de Jesus Almeida (mulher ao centro, na imagem 1) nos levou até a rua onde mora (imagem 2), que ainda não foi asfaltada. Fotos: Victória Lôbo.
Demanda por pavimentação
A pavimentação é uma demanda histórica da população do Vila Elisa. O asfalto ainda é limitado a vias estratégicas, como as Avenidas S e N, no entorno do Centro Municipal de Educação Infantil José Capitulino Teles e da Escola Municipal Professora Neuza Vieira Silva, e a Avenida José Machado da Costa, onde está o corredor de ônibus.
Em muitas ruas, o cenário é formado por terra batida que, nos períodos chuvosos, causa transtornos para os moradores. Em março de 2026, quando Vitória da Conquista registrou uma média de 200,74 mm de chuva, o loteamento foi um dos locais mais afetados. Na rua C, a moradora Alane Andrade ficou ilhada e não conseguiu comparecer ao primeiro dia de trabalho novo. Seu filho Jonathas, de nove anos, não foi à escola.
Nas ruas 4 e 10, Maria Marta Calixto e Eliane Mendes também se viram cercadas por água e lama. Em entrevista ao Conquista Repórter, as moradoras relataram que o problema não é novo. “Não aguentamos mais. A lama aqui já faz parte do nosso cotidiano. Toda vez que chove, é essa mesma história e a prefeita não nos enxerga”, disse Alane.
A situação é semelhante na avenida 3, assim como nas ruas 21, 22, 23 e 29. “Está impossível de passar, de tanto buraco na rua”, afirma a moradora Vanessa Pereira Oliveira. “Aqui não tem asfalto e nem saneamento. Pelo amor de Deus, autoridades, deem um jeito e despertem o olhar para o nosso bairro”, reivindica Josenilda Santana.

Revoltada com a situação, no dia 31 de março, a comunidade realizou protestos na Avenida José Machado da Costa. Os moradores queimaram pneus e bloquearam vias para chamar a atenção da prefeita Sheila Lemos (União Brasil). Além das ruas esburacadas, o grupo denunciou a ausência de esgotamento sanitário no loteamento.
Cinco anos antes, em 2021, quando enchentes atingiram toda a Bahia, os residentes do Vila Elisa viveram um dos momentos mais críticos. As fortes precipitações agravaram os problemas estruturais históricos, causando alagamentos, a abertura de mais buracos nas avenidas e deixando moradores ilhados.
No dia 3 de março de 2026, em vídeo publicado nas redes sociais, a prefeita afirmou que o loteamento receberá obras de drenagem e pavimentação, viabilizadas com recurso oriundo do empréstimo de R$400 milhões solicitado junto à Caixa Econômica Federal. No entanto, ainda não há cronograma definido para as ações.
Saúde e educação
Outra obra que a população do Vila Elisa aguarda é a Unidade Básica de Saúde (UBS). A construção está em andamento desde agosto de 2025, financiada pelo governo federal por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com orçamento de R$1 milhão. O prazo previsto para a entrega era junho de 2026. Enquanto o projeto não é concluído, o atendimento médico acontece em uma casa alugada.
De acordo com as moradoras, não há o que reclamar do atendimento, mas a expectativa é que a experiência de saúde se torne ainda melhor com um espaço adequado. “Como é provisório, no posto que temos agora, não tem tudo. Mas está vindo um outro para cá. Tomara que seja completo para atender a gente”, diz Neta Gomes.
De acordo com a Prefeitura, a unidade contará com três consultórios, um espaço para atendimento odontológico, cinco banheiros, sala de recepção, ambiente para procedimento e coleta, sala de vacina, de curativo e de inalação, além de salas de atividades coletivas, de gerência, estocagem, almoxarifado e sala de esterilização.

Já na área da educação, o loteamento é atendido pelo Centro Municipal de Educação Infantil José Capitulino Teles, que recebe crianças de 2 a 5 anos, e pela Escola Municipal Professora Neuza Vieira Silva, com a oferta de turmas do 1º ao 5º ano. Diante do aumento populacional, a reivindicação das mães é pela ampliação da rede de ensino no local.
“Deveria aumentar a escola ou construir outra. A creche também, porque agora vão vir outros condomínios e vai ter muita criança”, ressalta Neta. Ela se refere aos dois residenciais do programa Minha Casa Minha Vida que chegarão ao loteamento em breve. No total, serão entregues 384 unidades divididas entre os Residenciais Vila Elisa 1 e 2.
No loteamento, não há escolas que oferecem o Fundamental II, Ensino Médio ou a Educação de Jovens e Adultos (EJA). As opções mais próximas ficam no bairro Urbis VI, onde a Escola Municipal Professora Fidelcina Carvalho atende alunos do 6º ao 9º ano, e o Colégio Estadual de Tempo Integral Dom Climério possui turmas de Ensino Médio.

Descarte irregular de lixo
Entre a necessidade de ampliar as unidades de ensino e a falta de pavimentação, o descarte irregular de lixo é um problema que afeta a todos no Vila Elisa. Na rua 23, Cristiane Santos Melo teme o que pode acontecer com sua neta de apenas um mês de vida por causa dos resíduos jogados próximos à sua casa. “Meu menino já encontrou um escorpião enquanto fazia faxina”, conta a moradora.
Localizada em uma avenida de terra, a residência de Cristiane fica em frente a um terreno baldio, onde as pessoas descartam incorretamente todo tipo de resíduo. “A gente não pode estar guardando os alimentos em qualquer lugar porque entra rato, escorpião, cobra.”
Na rua zero, que dá acesso à Escola Municipal Professora Neuza Vieira Silva, Gecilda de Jesus Sena já se deparou até com corpos de cachorros e outros animais mortos. No trecho não asfaltado da Avenida José Machado da Costa, o cenário é semelhante.
“É lixo que não acaba mais. Entra escorpião em casa, barata, rato, é um horror. O povo daqui também não colabora”, desabafa uma moradora que preferiu não se identificar. Mas, ao mesmo tempo em que a limpeza pública exige a contribuição da população, também é responsabilidade do governo municipal fiscalizar.
Porém, no Vila Elisa, rodeado por terrenos baldios e sem a implementação do esgotamento sanitário pela Embasa, é falha a fiscalização do despejo de resíduos sólidos, o que deixa a população vulnerável a doenças. Segundo a engenheira ambiental Camila Daniele Willers, ainda faltam no município ações efetivas para a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos em sua plenitude.

Em 2021, o governo municipal criou a chamada “Taxa do Lixo”, mas não avançou nas políticas ambientais. “A lei obriga o município a instituir a taxa, mas também exige que sejam implementadas ações que priorizem a não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento”, afirma Willers (saiba mais sobre o assunto aqui).
Apesar de todas as ausências, a comunidade do Vila Elisa resiste e, principalmente, luta contra os estereótipos criados sobre o local. Na mídia, o que os moradores mais veem é o lugar onde vivem ser taxado como violento. “É claro que todo bairro tem perigos, mas não é assim como dizem, que ninguém pode entrar ou sair”, enfatiza Geiza Rodrigues.
Maria Santos compartilha do mesmo sentimento. “Também temos coisas boas por aqui. Somos uma comunidade tranquila, sossegada, só precisamos de melhorias. Já faz onze anos que moro aqui e estou feliz”, finaliza.
*Esta reportagem é resultado do 1º ciclo de atividades da Escola Conquista Repórter de Jornalismo, que visitou quatro bairros periféricos de Vitória da Conquista, entre abril e maio de 2026: Vila Elisa, Cruzeiro, Jardim Valéria e Senhorinha Cairo.