“A união fortalece o cidadão”: como a organização popular impulsionou o desenvolvimento do Senhorinha Cairo
Por Fernanda Vitória e Inara Silva
14 de julho, 2026
Há mais de dez anos, a comunidade conquistou pavimentação, creche e saneamento básico por meio da associação de moradores. Atualmente, ainda há o que conquistar, mas a mobilização e atuação coletiva não são as mesmas no loteamento.
Quando Dona Inês Borges chegou ao Senhorinha Cairo, há cerca de quatro décadas, o loteamento era apenas uma área de terra cercada por mato. Para chegar ao terreno que havia comprado, precisava atravessar trilhas abertas entre a vegetação. Hoje, aos 70 anos, ela observa da porta de casa ruas asfaltadas, estabelecimentos comerciais, uma creche e residências com rede de saneamento, formando um cenário completamente diferente.
A moradora acompanhou de perto as transformações que mudaram a paisagem ao longo dos anos, assim como a mobilização da comunidade para reivindicar e conquistar direitos. Ela recorda as reuniões realizadas na antiga sede da associação de moradores. “A gente participava de tudo direitinho. Hoje não tem mais e eu sinto falta”, afirma.
Há mais de dez anos, a associação atuou ativamente como ponte entre os moradores e a Prefeitura de Vitória da Conquista, articulando encontros que ajudaram a transformar necessidades em conquistas. “Saneamento, creche e outras coisas que temos aqui, foi tudo conquistado no nosso período”, conta o mestre de obras Abdias Gomes, ex-presidente da associação do Senhorinha Cairo.
Ele chegou ao loteamento em 1980 e, junto a outros moradores, percebeu que a luta coletiva seria o melhor caminho para conquistar melhorias para a comunidade. “Quem é que ia saber que o Senhorinha existia, se alguém não gritasse?”, indaga. “Nisso, acredito que a associação teve um papel importante, mas hoje tem gente que nem sabe”, complementa.

Jusciara Dias, de 44 anos, também se lembra do período em que ela e os vizinhos se uniram para cobrar educação e infraestrutura para a localidade. “Vim para cá, de Aracatu, há 36 anos, e vi muitas melhorias, a questão do asfalto, a rede de esgoto. Lutamos lá atrás para termos uma creche e conseguimos. É muito gratificante e satisfatório.”
Reivindicações atendidas
A chegada da pavimentação, entre 2013 e 2014, é considerada por quem vive no Senhorinha Cairo um marco para o desenvolvimento do loteamento, que integra o bairro Zabelê, na zona oeste da cidade. Antes disso, por causa das avenidas de terra, o local era apelidado de “Poeirinha Cairo”. Em épocas de chuva, era comum a formação de valetas e o acúmulo de lama que dificultava a locomoção de veículos e pedestres.
“Essa pavimentação foi uma conquista direta dos moradores através da associação. Antes, a gente sofria com tanta poeira, era muita mesmo”, lembra Jusciara. Em fevereiro de 2014, a Prefeitura de Conquista anunciou a drenagem e o asfaltamento de 48 vias com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal.

Em 2016, quando Mônica Coelho saiu da Vila Serrana para morar no loteamento, ela já encontrou as avenidas asfaltadas. Mas, antes da mudança, acompanhou a evolução da comunidade de perto. “A residência em que moro hoje antes era do meu irmão. Lembro que tinha muitos terrenos vazios e poucas casas. Com a pavimentação, isso mudou, as pessoas começaram a construir, valorizou o bairro.”
Com o asfalto, veio a identificação das ruas e avenidas com placas, a construção de passeios e a melhoria da iluminação pública. As obras no loteamento foram resultado de reivindicações apresentadas pelos moradores durante plenárias do Orçamento Participativo, ferramenta de escuta social implementada no município em 1997 pelo então prefeito Guilherme Menezes (PT).
Outra conquista da organização e mobilização popular foi o Centro Municipal de Educação Infantil Senhorinha Cairo (CMEI), inaugurado em 2015. “A creche foi uma promessa do prefeito Guilherme, quando eu ainda estava na associação. Falei: “Doutor, o meu bairro não tem um metro de construção municipal, nos dê uma creche.” Ele me disse que daria, e fez, né? Está aí, funcionando a pleno vapor, com pessoas que realmente cuidam das crianças”, ressalta Abdias Gomes.

Demanda por unidades de ensino
A creche foi construída com o investimento de R$1,4 milhão, vindos de recursos municipais. Em 2023, o equipamento foi revitalizado durante a gestão da prefeita Sheila Lemos (União Brasil). Atualmente, sob a direção da professora Vanessa Theonília Almeida e coordenação de Mônica Coelho, a unidade atende mais de 200 crianças de dois a cinco anos.
O CMEI Senhorinha Cairo é a única instituição pública de ensino no loteamento. Quando o aluno completa a Educação Infantil na creche, ele precisa ser direcionado para escolas em bairros próximos, como Urbis VI ou Miro Cairo, para acessar o Ensino Fundamental I e II.
De acordo com a diretora Vanessa, a creche foi uma conquista importante da comunidade, mas é preciso ampliar mais o acesso à educação no loteamento. “Temos uma fila de espera grande. Precisamos de mais uma creche ou da ampliação dessa. Tenho 18 crianças de dois anos na fila, mais 13 de três anos, e mães me perguntando se têm chance de entrar.”
A atual estrutura física não possui, por exemplo, uma Sala de Recursos Multifuncionais (SRM) para proporcionar o Atendimento Educacional Especializado (AEE) a crianças com deficiência. “Hoje temos o equipamento para a sala multifuncional, mas não temos o espaço físico. É uma demanda que precisa ser atendida”, conta Vanessa.

Na região próxima ao loteamento, segundo a diretora, o AEE é ofertado somente na Escola Municipal Frei Serafim e no Centro Municipal de Educação Professor Paulo Freire. “Com a quantidade de alunos que elas têm, essas duas unidades não dão conta. Então, é preciso atenção para isso. A demanda é gigante e o atendimento mínimo.”
Para Vanessa, a mobilização da comunidade em espaços de participação popular, como ocorria anos atrás, poderia agilizar a conquista de mais unidades de ensino no Senhorinha Cairo. “Talvez, se houvesse mobilização, uma nova creche teria sido construída ou a ampliação daqui para atender pelo menos o Fundamental I”, enfatiza.
A potência do coletivo
A diretora não é a única que acredita que o loteamento poderia ser beneficiado com a criação de uma nova associação de moradores. Residente do Senhorinha Cairo há 30 anos, o agente comunitário de saúde Ademar Lima não tem dúvidas de que as reivindicações coletivas têm mais chances de serem ouvidas. “Cobrar isoladamente é uma coisa. Cobrar enquanto associação, enquanto organização, é totalmente diferente”, diz.
Ao lado de Abdias e outros homens e mulheres, Ademar foi um dos líderes comunitários mais atuantes na associação de moradores. “Não existe há mais de dez anos. Infelizmente, hoje, cada um fica isolado no seu canto, ninguém mais se movimenta, e as coisas vão acontecendo na medida em que o poder público quer.”

Para Jusciara, muitas vezes, a demora de ter as demandas ouvidas e atendidas pelos governos afasta as pessoas das associações e outros coletivos. “Os benefícios demoram para chegar, aí desanima muito. As pessoas deixam de acreditar na luta porque pedem e não têm o retorno no tempo esperado”, afirma.
Apesar disso, ela acredita que a mobilização coletiva vale a pena, tanto que permaneceu por dois anos como presidente da associação de mulheres que iniciou no Senhorinha Cairo, mas hoje funciona na Vila Serrana, oferecendo principalmente cursos profissionalizantes.
Jusciara, assim como Ademar, Vanessa, Inês, Mônica e Abdias, reconhece as conquistas alcançadas a partir da união dos moradores: a pavimentação, a creche, as ruas sinalizadas e o saneamento básico. Hoje, todos que vivem no Senhorinha Cairo se beneficiam do resultado da luta coletiva, mesmo sem saber como os avanços chegaram até ali.

Para Abdias, a antiga associação cumpriu o seu papel e chegou ao fim. Mas isso não significa que uma nova geração de lideranças comunitárias não possa surgir. “Quem sabe com uma nova roupagem, né? Penso que seria o ponto de partida. Porque o que sei, sem dúvida nenhuma, é que a união fortalece o cidadão”, finaliza.
*Esta reportagem é resultado do 1º ciclo de atividades da Escola Conquista Repórter de Jornalismo, que visitou quatro bairros periféricos de Vitória da Conquista, entre abril e maio de 2026: Vila Elisa, Cruzeiro, Jardim Valéria e Senhorinha Cairo.