Jessica Sobral: a trancista das Pedrinhas que aprendeu com a avó o poder do entrelaçado afro

Por - 25 de janeiro de 2026 - Histórias à Margem

Há quatro anos, a jovem abriu o seu próprio salão para elevar a autoestima de mulheres negras. Nas escolas de Conquista, ela ensina crianças a amar seus cabelos crespos e cacheados.

Mariana Lacerda

Quando criança, Jessica Sobral acompanhava a avó Irani nas visitas que ela fazia para trançar os cabelos de homens e mulheres. Dona Mizona, como era apelidada, raramente cobrava pelo serviço. Para ela, mais do que uma fonte de renda, as tranças eram uma forma de elevar a autoestima de pessoas negras que enfrentavam cotidianamente a discriminação. Ao lado da matriarca da família paterna, a menina observava cada trançado e aprendia o que anos depois se tornaria a sua profissão.

Nascida e criada no bairro Pedrinhas, em Vitória da Conquista, a menina vivia na companhia da avó. Enquanto a mãe trabalhava, era Dona Mizona quem cuidava da neta. “Quando eu não estava brincando com os meninos na rua ou em casa lendo um livro, estava com vó para cima e para baixo”, lembra. Desde os primeiros meses de vida de Jessica, a conexão entre avó e neta era forte.

Na adolescência, mesmo cercada pela beleza dos cabelos afro, Jessica não escapou das consequências do racismo na autoestima de mulheres negras. “Na oitava série, eu não queria saber de trança, porque não era bem vista, aí eu pedi à minha mãe para alisar o cabelo. Minha vó não gostou disso”, conta. 

Em 2016, após ingressar na faculdade, Jessica decidiu passar pela transição capilar. As tranças ajudaram no processo de abandonar os alisamentos e deixar o cabelo crescer com sua textura natural. Foi sua tia Josy quem insistiu para que ela voltasse para as tranças. Mas não foi fácil enfrentar os julgamentos.

“Ninguém sabia o que era uma transição. Em casa, eu ouvi que o meu cabelo estava feio”, conta a jovem. “Diante disso, você acaba vestindo uma armadura, porque vão falar e apontar”, complementa. Apesar das dificuldades, o resultado valeu a pena. “Existe uma Jessica antes da transição e uma depois”, explica. 

A profissão de trancista só foi reconhecida pelo Ministério do Trabalho em junho de 2025. Foto: Mariana Lacerda.

Um salão de tranças

Aos 28 anos, Jessica considera que saiu mais livre e feliz de todo o processo. “Eu sempre digo que tanto a trança quanto o nosso cabelo natural nos dão uma força que não dá para explicar”, ressalta. Foram essa força e os ensinamentos da avó que a levaram a construir o seu próprio espaço de beleza especializado em tranças, o Sobral Hair, localizado no Centro de Vitória da Conquista.

Graduada em Administração, a jovem usou os seus conhecimentos ancestrais sobre tranças e técnicas sobre negócios para abrir um empreendimento. O sobrenome Sobral, que liga Jessica e Dona Mizona, estampa a fachada do salão, que se concretizou em 2022, depois de cinco anos trançando cabelos na própria casa ou visitando os clientes. “Eu já tinha chegado a um nível que estava no boca a boca do povo, aí me vi na necessidade de fazer algo mais”, revela.

Dona Mizona faleceu apenas dois meses antes da inauguração do espaço, mas sua conexão com a neta e com as tranças que ela faz nos clientes permanece viva. “Ela estava bem empolgada com tudo e não conseguiu ver. Mas, em nome de Jesus, ela está presente”, reforça a trancista.

Desde 2022, o salão de Jessica funciona na Rua dos Andrades, nº 64, no Centro. Foto: Mariana Lacerda.

No salão, os modelos de trança mais pedidos são entrelace, nagô, gypsy e box braids. O maior movimento acontece durante as épocas festivas, mas, por dia, ela consegue atender até cinco pessoas. A depender do estilo, os penteados demoram de 1 a 4 horas para ficarem prontos e custam entre R$15 e R$400.

Muitas das clientes de Jessica são mulheres negras que estão passando pela transição capilar, um momento que ultrapassa a estética e simboliza autonomia e reconexão com as raízes. “O cabelo tem poder. Antes de uma mulher negra sair de casa, ela se molda e se fortalece para o julgamento que vai vir”, afirma. 

Partilha ancestral

As tranças são, para Jessica e muitas outras mulheres negras, uma forma de sustento, uma profissão reconhecida pelo Ministério do Trabalho em junho de 2025, mas também uma arte ancestral que fortalece a autoestima e identidade da população negra. “Tem quem não veja como profissão, já até me perguntaram o que eu fazia além disso. Eu sou trancista, esse é o meu trabalho”, diz orgulhosa. 

Com os seus entrelaçados, a jovem busca ser referência para outras. Depois que vivenciou a transição capilar, as mulheres da família também decidiram passar pelo processo. Para além da rede de amigos e familiares, Jessica leva oficinas e rodas de conversa sobre identidade e valorização dos cabelos naturais para as escolas. “Muita criança não tem apoio dentro de casa e aí eu vejo a necessidade de ter alguém que reafirme isso.”

Durante os encontros, faz tranças nos alunos e ensina as técnicas a quem quiser aprender. A trancista já levou a iniciativa para escolas nos bairros Guarani, Urbis VI e Alto Maron. Ela participa ainda da ação social Fênix, da Igreja Católica, a cada três meses, compartilhando os seus conhecimentos.

Jessica também ministra cursos para mulheres que fazem das tranças uma forma de garantir renda extra no fim do mês. Entre os planos futuros, está o projeto de oficinas para profissionalizar, principalmente, pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica. 

Antes de abrir o salão, Jessica trançava cabelos a domicílio. Foto: Mariana Lacerda.

Em 2024, a jovem do bairro Pedrinhas teve o seu trabalho reconhecido pela Câmara Municipal, quando recebeu o Troféu Zumbi dos Palmares, por indicação do vereador Alexandre Xandó (PT). A homenagem é destinada a personalidades que se destacam na luta antirracista e na promoção da cultura negra na cidade.

Desde a abertura do seu salão, já se passaram quatro anos. Hoje, Jessica continua trançando a partir do que aprendeu com Dona Mizona e compartilhando com as novas gerações o poder que vem de amar o seu cabelo natural. “Tudo que eu vivi foi aprendendo com minha avó. Olho para trás e penso: ‘eu não acredito que estou aqui’. Isso é muito bom.” É esse sentimento de realização que ela quer para outras mulheres negras.

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