Vídeo | Amanda Dias: “o verdadeiro problema, que é a falta de drenagem, não é feito”
Por Victória Lôbo
28 de novembro, 2025
Moradora do Jurema há mais de 30 anos, ela denuncia que a falta de obras estruturantes no bairro é uma escolha política de quem decide para onde vai o orçamento.
Amanda Dias, moradora do bairro Jurema há mais de 30 anos, conta que um vizinho teve que fugir da enchente do dia 9 de novembro pelo telhado de casa e denuncia que o crescimento urbano de Vitória da Conquista joga toda a água e o descaso para a periferia.
No meio do caos da última enchente no bairro, uma cena definiu o desespero de quem vive na parte mais baixa da cidade. Um inquilino, vendo a água subir rapidamente e bloquear as saídas de sua casa, não teve escolha: escalou a estrutura e passou seu bebê de apenas três meses por cima do telhado para a casa vizinha, nos fundos. “Ele não tinha possibilidade de fuga… foi por desespero, por não saber realmente o que fazer naquele momento”, relata Amanda, proprietária do imóvel e moradora do Jurema desde que nasceu.
Para a administradora, esse episódio não é um acidente isolado, mas o sintoma da falta de planejamento urbano que pune os mais pobres. “Poderíamos ter perdido vidas”, alerta. Diferente do discurso oficial que muitas vezes culpa a “força da natureza”, Amanda oferece uma análise precisa da geografia urbana de Conquista. O Jurema funciona como uma bacia receptora.
“A cidade não é urbanizada verde… cada vez mais é colocado cimento e asfalto [nos bairros altos], mas não se pensa onde vai desaguar essas águas”, explica. Ela descreve como a água que cai na Serra do Periperi, nos bairros Brasil e Felícia, desce com velocidade e violência, encontrando o Jurema e a casas das pessoas. “A gente sofre sempre com a enchente por conta que a água deságua aqui. E não tem na cidade [um sistema] para onde essas águas pluviais vão ser jogadas.”
Amanda conta que a maioria das casas, incluindo a dela, já foi elevada pelos próprios moradores para tentar barrar a água. Mas a “mal-adaptação” da cidade vence o esforço individual. “Minha casa não entra tanto porque eu já fiz essa estrutura… mas com essa última chuva a gente teve também alagamento”. Ela aponta a ironia de se falar em modernidade e tecnologia enquanto o básico não é feito. “Não se vê a sustentabilidade… Nada é feito.”
A crítica vai além da engenharia, toca na ferida social. Para a moradora, a falta de obras estruturantes no Jurema é uma escolha política de quem decide para onde vai o orçamento. “O investimento não chega aqui. A gente vê diversos empréstimos sendo feitos… mas não vê citado a Baixada do Jurema”, denuncia, referindo-se aos pacotes de obras anunciados pela Prefeitura. “Como que a área que mais sofre dentro da cidade não é vista, não é incluída em um projeto?”
Para Amanda, a atenção do Poder Público à periferia é estética ou paliativa. “Passa-se um asfalto, arruma alguns paralelepípedos, organiza uma praça… mas o verdadeiro problema, que é a falta de drenagem, não é feito.”
Confira abaixo mais detalhes dessa história na videorreportagem da série Histórias à Margem.
O vídeo faz parte da série ‘Histórias à Margem: Baixada do Jurema’, que conta as histórias de moradores do bairro Jurema, em Vitória da Conquista, onde há décadas as fortes chuvas causam alagamentos e, consequentemente, prejuízos para a população, principalmente pela falta de sistema de drenagem eficaz. Para saber mais sobre a situação, acesse a reportagem aqui.