“Medo da chuva”: sem drenagem eficaz, moradores do Jurema convivem há décadas com alagamentos

Por - 21 de novembro de 2025 - Cidade

Registros históricos apontam estragos causados pelas chuvas intensas desde 1963. Paredes úmidas, panelas no chão e móveis perdidos eram os cenários de casas do bairro dois dias após o temporal de 9 de novembro.

Victória Lôbo

Com a voz trêmula e os olhos marejados, Dona Edite de Jesus, de 88 anos, aponta para a sua geladeira e nos mostra o que há no interior dela: dois potes e uma sacola de plástico. Os recipientes com comida foram doados por vizinhos depois que ela perdeu a feira do mês por consequência da água que invadiu sua casa no dia 9 de novembro de 2025. O quase vazio das prateleiras é um retrato do que sobrou para muitos moradores da Baixada do Jurema, em Vitória da Conquista, após as chuvas daquele domingo.

Paredes úmidas, panelas no chão, colchões molhados, móveis na rua aguardando para serem levados pelo caminhão do lixo. Esse era o cenário nas avenidas Caracas, Yolando Fonseca, Nestor Guimarães e na Rua Bogotá dois dias após o temporal que levou a Jóia do Sertão Baiano para o noticiário nacional. “Eu tenho medo de dormir por causa da chuva”, diz Dona Edite, moradora do bairro há mais de 50 anos.

Desde que começou a morar na Avenida Yolando Fonseca, essa foi a terceira vez que a aposentada viu seus pertences serem arrastados e destruídos pela água. Mas ela não é a única. A poucos metros dali, na Rua Bogotá, Dona Maria Ângela Oliveira, de 58 anos, viveu na pele duas vezes a angústia de ver a casa própria tomada por lama. “É muito difícil porque a pessoa compra as coisas com tanto sacrifício, né?”, desabafa. 

Quando a água tomou conta da Baixada do Jurema no início deste mês, fazia menos de quinze dias que Dona Maria tinha retornado para o bairro. Após perder tudo no alagamento de 2023, ela deixou a casa própria para fugir dos estragos causados frequentemente pelos temporais. O preço alto do aluguel, somado ao custo de vida após uma operação na coluna, a obrigou a voltar. Então, retornaram ela, o esposo, o filho e a mãe de 89 anos.

“Retornei porque não tinha como pagar aluguel. Operei, adoeci, fiquei sem condições e agora veio tudo de novo. Pensei que minha mãe fosse morrer afogada”, conta. No domingo da chuva, a mãe de Dona Maria, diagnosticada com a Doença de Alzheimer, estava deitada em uma cama rente ao chão quando a água começou a subir depressa. Foi preciso carregá-la no colo até um carro e levá-la para a casa de um conhecido.

Ao lado de Dona Maria, o seu vizinho Wilson Gonçalves, de 38 anos, também viu tudo o que conquistou ao longo de sua vida se deteriorar. Desempregado, ele, a esposa e as duas filhas, uma de dois anos e outra de 10, moram de favor na casa do Jurema. “As meninas começaram a se desesperar. Quando eu vi que não parava de encher [de água], peguei elas no colo, pulei a janela e a gente saiu”, relata. Agora, ele conta com doações para sustentar a família enquanto busca emprego e aguarda o aluguel social.

Dona Maria Ângela tinha deixado o Jurema após o alagamento de 2023, mas retornou porque não conseguia mais pagar aluguel em outro imóvel. Foto: Victória Lôbo.

As histórias são recentes, mas o problema é antigo. O vendedor ambulante Aldinei Moreira Silva, de 43 anos, mora no bairro desde que nasceu, assim como a farmacêutica Elaine Lima, 39, e a administradora Amanda Dias, 31. Todos cresceram assistindo, ano após ano, seus pais e vizinhos lidarem com os estragos causados não pelas chuvas ou pelas mudanças climáticas, mas pelo abandono do Jurema pelo Poder Público. 

Estado de alerta

“Quando começa a chover muito forte, já fica todo mundo em alerta”, afirma Amanda Dias. Diante desse histórico, ao longo dos anos, os moradores foram se adaptando ao fato de que, a qualquer momento, a água pode invadir suas casas. Em diversas ruas e avenidas, é possível observar passeios elevados e batentes construídos numa tentativa de impedir os alagamentos. Mas naquele 9 de novembro, assim como em outros meses de diferentes anos, esses artifícios não foram suficientes para conter a água.

Nos jornais e nos blogs, o resgate do servidor público Gerald Saraiva, após ser arrastado pela água naquele domingo, causou comoção. A tragédia aconteceu no Jurema, na Avenida Caracas, onde todos os anos moradores vivem a mesma realidade. Na noite em que Gerald foi engolido pelo temporal, Elaine viu um carro ser levado pela correnteza na porta de sua casa e o inquilino de Amanda subiu no telhado para passar o seu bebê de três meses para as mãos de um vizinho e, assim, salvá-lo do afogamento. 

Gravação das chuvas no dia 9 de novembro, em frente a casa de Elaine, no Jurema.

Elaine se recorda dos alagamentos dos anos 2009 e 2013. E os registros comprovam que a sua memória não falha. No dia 14 de abril de 2009, a então presidente da associação de moradores do bairro, Carolina Oliveira Lemos, usou a tribuna livre da Câmara Municipal para denunciar a falta de infraestrutura e os prejuízos causados pelo temporal daquele período. Em abril de 2013, um vídeo publicado por um morador no Youtube mostra o volume da água que tomou conta do Jurema naquele ano.

Ainda em 2013, o jornal Bahia Notícias publicou sobre os alagamentos e a Prefeitura de Conquista emitiu nota relatando as medidas tomadas para amenizar os efeitos das chuvas. Uma pesquisa, publicada em 2017, feita pelos professores de Geografia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Meirilane Rodrigues Maia e Espedito Maia Lima, e pela docente da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Josefa Eliane Santana, também registra eventos pluviométricos extremos no Jurema desde os anos 2000.

O estudo mostra dados a partir de um levantamento de informes da Defesa Civil e das notícias dos episódios extremos nos jornais locais, de 1995 a 2015. O Jurema aparece na lista nos anos 2000 e 2013. Na segunda parte da pesquisa, que compreende o período de 2016 a 2023, o bairro é mencionado em 2016, 2017, 2018, 2019, 2020 e 2023. 

O levantamento foi continuado na dissertação de mestrado de Manoel Braz, orientada por Espedito Maia Lima em julho de 2025, no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Uesb. Na publicação, são citados eventos como alagamentos, quedas de energia elétrica, danificação de canais pluviais e pontes, veículos arrastados e famílias desabrigadas.

Registros históricos apontam ainda a ocorrência de estragos causados pelas chuvas intensas no Jurema na segunda metade do século XX. No livro Revista Histórica de Vitória da Conquista, publicado em 1982 por Aníbal Lopes Viana, constam relatos de enxurradas, alagamentos, inundações e até chuvas de granizo nos anos 1963, 1965, 1969 e 1977. 

Tabela extraída da dissertação de mestrado de Manoel Braz, que mostra registros de inundações no Jurema desde 1963.

Os arquivos, as memórias de quem vive no Jurema e as produções científicas evidenciam que os alagamentos são um problema histórico. Nas conclusões finais do seu estudo, os pesquisadores Meirilane, Espedito e Josefa apontam que o agravamento dos danos das chuvas se dá pelo deficitário sistema de drenagem das águas pluviais, pelo forte processo de expansão da cidade, “desobedecendo a preservação dos ambientes frágeis”, e pelo asfaltamento de ruas, sem a implantação de canais de drenagem.

O problema da drenagem

A principal solução para o problema crônico da Baixada do Jurema é a implantação de um sistema de drenagem urbana eficaz. De acordo com os pesquisadores de Geografia da Uesb, Leonardo Alves, Manoel Braz e Espedito Maia Lima, em artigo de 2025, diversos trechos do Rio Verruga e seus afluentes foram encobertos ou parcialmente suprimidos, o que agrava os problemas de alagamentos e inundações em áreas urbanizadas.

Diante desse cenário, a drenagem é essencial para o escoamento eficaz e seguro das águas pluviais. Porém, a maioria dos sistemas existentes foi projetada sem considerar a evolução futura do território a partir do avanço da urbanização. Segundo a pesquisa, isso resulta em redes que rapidamente se tornam obsoletas ou ineficazes.

“O dimensionamento de sistemas de drenagem deve considerar não apenas os parâmetros técnicos tradicionais, mas também os princípios da sustentabilidade e as transformações do espaço”, aponta o estudo. Para os pesquisadores, é preciso superar o modelo tradicional de drenagem e realizar uma mudança profunda no modo de pensar e planejar as cidades.

O modelo convencional envolve canalizações, galerias subterrâneas, bueiros e sarjetas. Essa abordagem considera a água da chuva um problema que precisa ser eliminado do ambiente urbano o mais rápido possível. Na publicação científica, os pesquisadores da Uesb explicam que, embora tecnicamente funcional a curto prazo, o sistema “desconsidera as consequências ambientais e sociais.”

Durante as chuvas do dia 9 de novembro, os bueiros no Jurema foram abertos para escoamento da água. Foto: Victória Lôbo.

Diante das mudanças climáticas que vêm intensificando a ocorrência de eventos extremos como chuvas intensas e ondas de calor, as Soluções Baseadas na Natureza (SbN) são um caminho para os desafios urbanos contemporâneos. As estratégias incluem o uso de dispositivos da infraestrutura verde, como jardins de chuva, pavimentos permeáveis, trincheiras de infiltração, bacias de retenção e detenção, e biovaletas.

Para que a aplicação das soluções verdes se torne realidade, serão necessárias não somente mudanças técnicas, mas também institucionais e culturais, com o envolvimento de engenheiros, geógrafos, gestores públicos e comunidades locais. “Repensar a drenagem urbana com base em soluções baseadas na natureza não é apenas uma alternativa técnica, mas uma mudança de paradigma”, ressaltam os pesquisadores.

A espera por investimentos 

Enquanto uma mudança de paradigma é necessária e urgente, a população do Jurema aguarda investimentos direcionados para o bairro. Com a solicitação de autorização para um empréstimo de R$400 milhões em tramitação na Câmara Municipal, a prefeita Sheila Lemos afirmou, em entrevista ao Blog do Sena no dia 12 de novembro, que o recurso será usado na pavimentação e não em obras de drenagem.

Segundo a gestora, o recurso precisa ser investido de forma que aumente a arrecadação, uma vez que o município terá que pagar as parcelas do financiamento. “Para resolvermos essas questões dos canais, orçado em aproximadamente R$400 a R$500 milhões, […] a gente precisaria de um dinheiro a fundo perdido, então, teria que ser um dinheiro do Governo do Estado e do Governo Federal”, disse Lemos.

Após décadas de sofrimento da população, nesta sexta-feira, 21, a Prefeitura anunciou que o município irá receber mais de R$5 milhões do governo federal para a recuperação da infraestrutura urbana, inclusive para a reconstrução parcial do canal de macrodrenagem do Jurema. O recurso é resultado de um plano de trabalho produzido em 2022, em razão dos fortes temporais que atingiram a cidade e toda a Bahia no final de 2021.

A verba é do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), por meio da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. A liberação do recurso foi oficializada com a publicação da Portaria nº 3.383, no Diário Oficial da União (DOU), no dia 18 de novembro. A partir desta data, o município tem o prazo de 365 dias para a execução da obra.

No dia 17 de novembro, a Câmara de Vereadores realizou uma audiência pública para discutir o sistema de macrodrenagem em Conquista. Moradores do Jurema estiveram presentes. Foto: Ascom/CMVC.

A liberação do recurso representa esperança para quem vive na Baixada do Jurema. Desde 2015, segundo o Portal da Transparência da Prefeitura, o bairro só recebeu manutenção do sistema de drenagem em 2019, realizada pela Construtora Albuquerque LTDA. O contrato nº 016-25/2019, no valor de R$467.687,65, abrangeu a execução emergencial de obras de limpeza e recuperação de canais e galerias de drenagem na Lagoa Jurema, Campinhos, Lagoa das Bateias e Nossa Senhora Aparecida.

De 2015 a 2024, o município gastou com obras de drenagem e rebaixamento de redes de água e esgoto aproximadamente R$82.877.191,99, valor oriundo da soma de recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal, e do Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento (Finisa), da Caixa Econômica Federal. As informações foram retiradas do Portal da Transparência. Apesar do histórico de alagamentos, o Jurema não foi um dos bairros contemplados. 

“Cadê os órgãos públicos?”

“O que a gente sente na Baixada do Jurema é que os olhos estão fechados para a nossa situação”, ressalta a administradora Amanda Dias. Moradora do bairro há mais de 30 anos, ela diz que o sentimento é de abandono e desrespeito diante dos alagamentos que se repetem ano após ano. “Cada vez mais é colocado cimento, asfalto, mas não se pensa onde essa água vai desaguar. […] E aí a gente sofre sempre”, afirma.

Amanda e todos os moradores do bairro sabem que somente a pavimentação não é a solução para o problema do Jurema. Pesquisas apontam que, na verdade, o asfaltamento de ruas sem a implantação ou manutenção de canais de drenagem agrava os danos das chuvas. O asfalto impede que a água da chuva seja absorvida naturalmente pelo solo, o que contribui para inundações, erosão e abertura de buracos no pavimento.

No bairro Jurema, nem todas as ruas e avenidas são asfaltadas. Foto: Victória Lôbo.

Na pesquisa intitulada “Natural x projetado: a realidade dos sistemas de drenagem de Vitória da Conquista”, publicada em junho de 2025, os pesquisadores de Geografia Leonardo Alves, Manoel Braz e Espedito Maia Lima chamam a atenção para o fato de que a drenagem urbana precisa deixar de ser pensada como um sistema apenas técnico e “passar a integrar as dimensões ambientais, sociais e territoriais do planejamento urbano.”

Segundo os autores, é necessário a elaboração de um Plano Diretor de Drenagem Urbana Sustentável. Mas, na cidade em que a Prefeitura pagou quase R$1,5 milhão em um Plano Municipal de Saneamento Básico engavetado, a construção de um planejamento de drenagem urbana parece uma realidade distante. Enquanto isso, os trabalhadores e trabalhadoras que vivem no Jurema sofrem as consequências.

“Cadê os órgãos públicos, as autoridades? A gente sofre. Na época da eleição, vem aqui, promete e depois nada faz”, desabafa o empresário Nerisvaldo Bispo de Queiroz, morador da Avenida Caracas desde 2006. “Cadê a preocupação com os moradores do Jurema? É um descaso. Somos seres humanos e precisamos de dignidade para viver. Precisamos não para hoje, mas para ontem, que sejam tomadas providências”, finaliza.

O Conquista Repórter solicitou posicionamento da Prefeitura, via e-mail enviado na quarta-feira, 19 de novembro. Mas não obtivemos respostas até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação da gestão municipal.

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