Falta de drenagem eficaz no bairro Jurema faz mais vítimas durante as chuvas

Por - 10 de março de 2026 - Cidade

Uma moradora do Vila América está desaparecida desde que foi arrastada pelas enxurradas na tarde desta segunda-feira (9). Em novembro de 2025, um homem se afogou no mesmo local.

Reprodução

Com menos de duas horas de chuva, a Avenida Caracas, no bairro Jurema, foi tomada pelas águas mais uma vez nesta segunda (9). Rosânia Silva Borges, de 44 anos, passageira de um carro de aplicativo que ficou submerso no canal de drenagem da via, conseguiu sair do veículo com o motorista, mas acabou sendo puxada pela força da enxurrada. O Corpo de Bombeiros segue procurando por ela na manhã desta terça (10), depois de interromper as buscas na noite de ontem

Mãe de cinco filhos, Rosânia é moradora do bairro Vila América e havia saído de casa para alterar a matrícula escolar de um deles. Por não concordar com a interrupção nas buscas, familiares, amigos e vizinhos da mulher protestaram durante a noite, na Avenida Juracy Magalhães, em frente ao Shopping Conquista Sul, e desceram para o local do incidente.

Com cartazes nas mãos, os manifestantes queimaram pneus e chamaram a atenção dos motoristas que passavam e buzinavam em apoio. Grupos de voluntários e motoboys se juntaram aos manifestantes nas buscas durante a madrugada. 

O que diz o Poder Público

De acordo com a Defesa Civil de Vitória da Conquista, a chuva foi inesperada e não havia nenhum alerta para a cidade. No entanto, em quatro meses, essa é a terceira vez que um acidente semelhante ocorre na Avenida Caracas. No dia 9 de novembro de 2025, um motorista foi puxado pela força das águas do mesmo canal e arrastado por cerca de 550 metros, antes de ser resgatado. 

Em reunião emergencial convocada pelo Comitê de Gerenciamento de Crise na noite de ontem, a prefeita Sheila Lemos (UB) determinou a interdição imediata do trecho da via onde está localizado o canal, que não possui proteção. Nas redes sociais, a população questiona a falta de ao menos um gradil, sobretudo após a situação já ter ocorrido mais de uma vez.

Em entrevista ao Jornal da Manhã, o Secretário Municipal de Infraestrutura Urbana, Jackson Yoshiura, afirmou que a solução dos canais de drenagem abertos para escoamento pluvial é utilizada em Conquista há décadas. “Se a gente colocar um gradil, acaba acumulando lixos nesse trecho”, justificou.

Segundo ele, projetos para drenagem urbana seriam a solução definitiva do problema e foram submetidos ao Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC) do Governo Federal, no ano passado. O processo para liberação dos recursos está em andamento. Ao mesmo tempo, em sete anos, a Prefeitura Municipal arrecadou mais de R$600 milhões em empréstimos do Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento (Finisa).

Histórico de alagamentos 

Os alagamentos no bairro Jurema, onde está localizada a Avenida Caracas, não são recentes, muito menos inesperados. Dois dias após o primeiro caso, em novembro do ano passado, o Conquista Repórter esteve na região e conversou com moradores que sofrem com as chuvas há décadas. Os registros históricos mostram impactos na região desde a década de 1960. “Quando começa a chover muito forte, já fica todo mundo em alerta”, conta Amanda Dias. A administradora de 31 anos nasceu e cresceu no Jurema, atenta à movimentação dos pais e vizinhos em períodos de chuva.

Já uma das vítimas do alagamento no ano de 2023, Dona Maria deixou a casa própria no bairro e passou a viver de aluguel para fugir das consequências dos temporais que assolam o Jurema. Pouco antes das chuvas de novembro de 2025, ela havia voltado por conta do custo de vida que pesou ainda mais com o aluguel. “Retornei porque não tinha como pagar aluguel. Operei, adoeci, fiquei sem condições e agora veio tudo de novo. Pensei que minha mãe fosse morrer afogada”, lembra. 

Diversos outros pontos da cidade vivenciam condições parecidas. Na última semana, moradores do Vila Elisa ficaram ilhados no bairro após a previsão de temporais se confirmar e a cidade receber um volume de chuvas quase dez vezes maior que o de fevereiro de 2025. Os bairros Recreio, Lagoa das Flores e Simão, além de localidades na zona rural, como o distrito de Bate-Pé e os povoados da Matinha e Queimadas também registraram ocorrências de alagamentos, buracos e deslizamentos de encostas.

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