“A causa é uma só: justiça”: familiares e amigos realizam ato em memória de Rosânia Silva na Avenida Caracas

Por - 25 de março de 2026 - Direitos Humanos

Os manifestantes se reuniram na via onde Rosânia foi levada pela enxurrada no dia 9 de março. A mobilização seguiu para a porta da Prefeitura, onde o grupo denunciou a falta de medidas efetivas de proteção na área do Jurema.

Mariana Lacerda

De volta à Avenida Caracas, na manhã desta terça, 24, familiares e amigos de Rosânia Silva Borges se reuniram para compartilhar saudade e indignação. O ato “Justiça por Rosânia” relembrou a vítima, arrastada por uma enxurrada para o canal de drenagem do bairro Jurema, e pediu também ações do governo municipal para que tragédias como essa não voltem a acontecer.

O canal permanece sem nenhum tipo de proteção, como estava na tarde do dia 9 de março, quando Rosânia saiu de casa em direção à escola de um dos cinco filhos e não retornou. Após quatro dias de buscas, seu corpo foi encontrado em uma fazenda localizada na região de Capinal, zona rural de Conquista. A Avenida Caracas, localizada no bairro Jurema, cujo histórico de alagamento é de mais de sessenta anos, já havia sido cenário de outros acidentes sem vítimas nos últimos quatro meses.

“Hoje eu venho aqui pedir por justiça, não só por minha mãe, mas pela população de Vitória da Conquista. Eu não quero que outras pessoas sofram o que a gente está sofrendo”, afirma Beatriz Silva dos Anjos, filha mais velha de Rosânia. Para ela, a dor da perda foi agravada pela forma como tudo aconteceu.

Beatriz lembra que as buscas por Rosânia foram suspensas na primeira noite, apenas poucas horas após o acidente, e que não pôde ver a sua mãe pela última vez no velório. “Talvez não tivesse encontrado ela com vida, mas pelo menos, teríamos um caixão aberto. Pra gente, foi mais doloroso ter um caixão fechado.” 

Beatriz é a mais velha entre os cinco filhos de Rosânia. Foto: Mariana Lacerda.

Com cartazes, os manifestantes seguiram em passeata pelas avenidas Juracy Magalhães e Bartolomeu de Gusmão para o Centro da cidade. Motoboys também acompanharam o cortejo, muitos deles foram voluntários durante as buscas, principalmente na primeira noite. “Eles sim foram guardiões, de verdade. Eu agradeço a todos eles imensamente”, destaca Beatriz. 

A mobilização parou na porta da Prefeitura, onde os manifestantes depositaram cartazes, flores e velas, em memória à Rosânia. As falas denunciaram a falta de infraestrutura da cidade, que tem colocado a população em risco sempre que chove, e também a ausência de apoio à família. “A gente não teve um ato por parte da Prefeitura, para sentar, conversar e dar uma explicação. Até no dia mesmo, por que eles suspenderam as buscas?”, questiona a filha da vítima.  

Depois da mediação de Welton Mancha, presidente da Associação de Moradores do Vila América, bairro onde Rosânia morava, o secretário da Casa Civil, Coronel Ivanildo Silva, conversou com Beatriz na porta do prédio. Segundo Mancha, ele se colocou à disposição para uma reunião futura com a família. “A causa é uma só: justiça. Por Rosânia, por mais assistência à família e também por soluções imediatas da Prefeitura com relação ao descaso que está a cidade”, conclui.

O que fez o governo municipal

Mesmo após duas ocorrências semelhantes na Avenida Caracas, a primeira ação da Prefeitura no local aconteceu somente após o desaparecimento de Rosânia. Na noite do dia 9 de março, a prefeita Sheila Lemos (UB) determinou a interdição da via, que permanece fechada. No dia seguinte, foi autorizada a instalação de guard rail (estruturas metálicas de contenção às margens do canal), por dispensa de licitação, já que o município decretou situação de emergência em razão das fortes chuvas

Na última semana, foram instaladas placas na avenida, sinalizando que a região está sujeita a alagamento. Contudo, a população não vê avanços e aponta que a morte de Rosânia foi uma “tragédia anunciada”. A estudante de Direito, Isabela Gomes, não a conhecia, mas decidiu participar do ato por entender que é o momento de denunciar. “A prefeita veio a público se pronunciar, falando que ia consertar, mas já choveu, por exemplo, e o buraco continua aberto, poderia ter acontecido outro acidente.”

Um cartaz com a mensagem “Justiça por Rosânia” foi colocado no canal que a levou no dia 9 de março. Foto: Mariana Lacerda.

Segundo Sheila Lemos, em vídeo publicado no seu perfil oficial no Instagram, na última sexta, 20, a Caixa Econômica Federal liberou recursos para a realização de uma obra de macrodrenagem na Avenida Caracas e vias adjacentes. A prefeita informou que o edital de licitação para o projeto seria publicado no início desta semana. O aporte de R$8,8 milhões faz parte do Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC), do governo federal, e os trâmites para liberação tiveram início em 2023. 

A Prefeitura havia solicitado a verba para obras na Lagoa das Bateias e, em 2025, pediu a alteração do objeto do projeto apresentado, direcionando o investimento para o Jurema. O Ministério das Cidades autorizou a mudança dos locais de intervenção em 3 de novembro de 2025. Os dados estão disponíveis no Portal TranfereGov.

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