Vigília pela Cultura reúne artistas e comunidade conquistense na Casa Glauber Rocha

Por - 2 de dezembro de 2025 - Cultura

Em estado de deterioração, o espaço foi escolhido como palco do ato para evidenciar o descaso com a cultura na cidade. A mobilização aconteceu no último domingo, 30 de novembro.

Movimenta Cultura Conquista

Com cartazes e palavras de ordem, artistas e demais trabalhadores do setor cultural realizaram uma vigília em frente à Casa Glauber Rocha, localizada no Centro de Vitória da Conquista, no último domingo, 30 de novembro. O ato reuniu a categoria a partir das 17h para reivindicar políticas culturais, além da revitalização e reabertura de equipamentos como o Teatro Carlos Jehovah, o Cine Madrigal e a própria casa onde nasceu o cineasta conquistense, na Rua Dois de Julho.

Organizada pelo coletivo Movimenta Cultura Conquista, a mobilização contou com a presença de um dos membros da família de Glauber, o psicólogo Mauro Mendes, com a apresentação “Glauber em Fúria”, do ator Sorak Barbosa, e com depoimentos de artistas locais. A vigília surgiu como reação ao que os organizadores classificam como um quadro crítico na política cultural do município. Em estado de deterioração, com pintura desgastada e telhas faltando, a Casa Glauber foi escolhida como palco do ato para evidenciar o descaso com a cultura na cidade.

Segundo a atriz, professora e produtora cultural Dayse Maria, o ato foi proposto durante a reunião realizada pelo Movimenta Cultura Conquista na quinta-feira, 27 de novembro, no auditório da APAE. A categoria reivindica que a Casa Glauber, adquirida pela Prefeitura em 2021, seja reaberta e utilizada como espaço de fomento à arte e ao audiovisual. “É deprimente ver o desrespeito com um patrimônio que é nosso, que já foi adquirido com dinheiro público. Ele precisa ter uma função social”, afirma.

A manifestação denunciou o abandono da cultura local pelo poder público. Foto: Movimento Cultura Conquista.

Na fachada do imóvel, os artistas fixaram cartazes com as frases “a Casa Glauber é nossa”, “revitalização já”, além de chamados para a prefeita Sheila Lemos (União Brasil) e o secretário de Cultura, o cantor e compositor Xangai. Uma das mensagens dizia: “Secretário Xangai, junte-se a nós defendendo a Causa Glauber”. Outra anunciava: “Prefeita, ouça as oitivas do Conselho de Cultura.”

A vigília ocorreu às vésperas das escutas para a construção do Plano Municipal de Cultura, documento que definirá os investimentos para o setor pelos próximos dez anos. As escutas começaram no dia 1º e vão até 3 de dezembro. “Estamos pedindo transparência e um conselho que faça valer a escuta da sociedade para que a gente tenha um plano que nossa cidade merece”, destaca Dayse.

Falta de escuta

O descaso da gestão municipal com a cultura não é recente. No dia 7 de março, agentes culturais, organizados pelo coletivo Movimenta Cultura Conquista, protocolaram no gabinete da prefeita uma carta com mais de 20 reivindicações. Quase seis meses após a entrega do documento, os artistas denunciaram que suas demandas não foram ouvidas, por meio de nota pública divulgada no dia 20 de agosto.

documento reivindica uma série de ações urgentes. Além da revitalização de equipamentos, a lista de demandas inclui a ampliação do orçamento destinado ao setor, a construção de espaços comunitários para leitura, o fortalecimento de mostras de cinema e cineclubes e a reestruturação do Conselho Municipal de Cultura, atualmente sob liderança conservadora.

A categoria denuncia ainda falhas técnicas da gestão municipal e a ausência de reconhecimento do setor como trabalho e fonte de renda. Em maio, artistas contemplados por editais da Lei Paulo Gustavo foram surpreendidos com notificações da Receita Federal em razão de um erro da Prefeitura, que declarou os repasses como rendimentos tributáveis, o que gerou irregularidades no Imposto de Renda.

Prefeita Sheila Lemos em visita ao Cine Madrigal, em agosto de 2021. Foto: Secom/PMVC.

No início de 2025, a Prefeitura devolveu mais de R$333 mil à União por não utilizar, dentro do prazo legal, recursos da Lei Paulo Gustavo destinados à reforma de salas de cinema, como o Cine Madrigal. O valor fazia parte de um total de cerca de R$2 milhões recebido pelo município, mas que não foi integralmente executado até 31 de dezembro de 2024. 

A Casa Glauber, assim como o Cine Madrigal, são equipamentos que foram adquiridos pela Prefeitura, mas permanecem fechados. O imóvel onde o cineasta viveu até os nove anos de idade foi construído no ano de 1938. Em 2021, durante a gestão do ex-prefeito Herzem Gusmão, se tornou responsabilidade do município por meio da Lei nº 2.454. A reivindicação da família e de trabalhadores do setor cultural é que o espaço seja transformado em um memorial e um espaço de fomento à arte.

ERRATA: Erramos ao informar que a vigília contou com a presença de um dos filhos do cineasta Glauber Rocha. Quem esteve presente no ato foi o psicólogo Mauro Mendes, um dos integrantes da família de Glauber. O avô dele morou por anos na casa da Rua Dois de Julho. O psicólogo fez parte das tratativas para a venda do imóvel para a Prefeitura de Vitória da Conquista. O texto da matéria foi atualizado às 11h13 desta quarta, 3 de dezembro de 2025, para corrigir a informação equivocada.

*Maria Eduarda Leite é estudante do 8º semestre do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e estagiária do Conquista Repórter.

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