Terreiro de candomblé sofre intolerância religiosa na zona oeste de Vitória da Conquista

Por - 28 de janeiro de 2022

O fato ocorreu no mesmo mês em que o terreiro Lojereci Nação Ijesá foi tombado como patrimônio cultural do município. O babalorixá, Pai Loro, registrou um Boletim de Ocorrência no Disep denunciando o responsável pela agressão.

Na noite da última segunda-feira, 24, os integrantes do terreiro de candomblé Ìlé Alaketú Asé Omi T’Ogun, localizado no bairro Brasil, zona oeste de Vitória da Conquista, foram vítimas de intolerância religiosa enquanto se preparavam para um festejo no templo. Um homem, que estava acompanhado de uma mulher e uma criança, iniciou uma “pregação” em frente ao terreiro. Ele estava dentro de um carro de som e utilizava o microfone para “exorcizar” os candomblecistas, segundo o babalorixá, Pai Loro.

“O som estava muito alto. Então, eu desci e fui tentar falar para ele que a casa estava em ritual. Ele começou a tratar a gente como se fôssemos bicho, demônio, exorcizando a gente”, contou Pai Loro em entrevista ao Blog do Anderson. O fato ocorreu no mesmo mês em que a imunidade tributária foi conferida aos terreiros conquistenses, após decisão judicial. Neste janeiro de 2022, também houve o tombamento do terreiro de candomblé Lojereci Nação Ijesá. Segundo o decreto nº 21.651, o templo agora é considerado patrimônio cultural do município.

Apesar dos avanços na luta do povo de santo por respeito e garantia de direitos, o racismo religioso e a intolerância ainda são latentes, como mostra o caso da agressão sofrida nesta semana. A situação durou cerca de 1h30, de acordo com Pai Loro. Todo o ocorrido foi gravado pelos filhos de santo que estavam no local. Nas imagens, é possível ouvir o suposto pastor dizer: “Jesus quer mudar a sua vida”. Do outro lado, um dos integrantes do terreiro retrucou: “isso é crime de ódio, viu?”.

“Ele começou a tratar a gente como se fôssemos bicho, demônio, exorcizando a gente”, Pai Loro. Foto: Reprodução/TV Uesb.

Com medo de que o homem pudesse cometer agressões físicas, os candomblecistas acionaram a Polícia Militar (PM), mas uma viatura nunca chegou ao local, segundo Pai Loro. Em nota à TV Sudoeste, que também noticiou o caso, a PM afirmou que foi atender outras ocorrências, mas após essas rondas, se deslocou até o bairro Brasil. “Nada mais foi constatado e deu-se por encerrado o atendimento”, justificou o órgão de segurança em comunicado enviado à afiliada da TV Globo.

De acordo com a Lei nº 7.716, Art.20, há uma pena de 1 a 3 anos de prisão, além de multas, para aquele que “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Após o ocorrido, Pai Loro registrou um Boletim de Ocorrência (BO) no Disep (Distrito Integrado de Segurança Pública), no qual informou a placa do carro do agressor.

“Quem tem uma doutrina religiosa, deve ter entendimento de que a gente têm que respeitar a fé de qualquer pessoa. […] O mundo precisa de paz, é momento de fé, religião, respeito e de amor ao próximo”, disse Pai Loro à TV Uesb. O terreiro Ìlé Alaketú Asé Omi T’Ogun emitiu uma nota pública sobre o caso, que tem sido compartilhada nas redes sociais. Leia o documento na íntegra aqui.

Foto de capa: Reprodução/TV Uesb.

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