Jorge Augusto: “É uma violência querer fazer do negro e do indígena um outro ser apartado da nação”
Por Maria Eduarda Leite* - 22 de agosto de 2025 - Direitos Humanos
Nascido em Salvador, o professor e escritor venceu o Prêmio Jabuti Acadêmico com a obra “Modernismo Negro”. O livro revisita o movimento artístico e literário a partir das experiências negras e periféricas em diálogo com Lima Barreto.
Denni Sales
Nascido e criado na periferia de Salvador, no bairro da Liberdade, reconhecido como o território mais negro fora da África e berço do bloco afro Ilê Aiyê, Jorge Augusto encontrou a literatura por meio de um caminho pouco convencional. Em sua infância, a leitura não fazia parte da rotina de casa. Nessa fase da vida, o único contato com os livros aconteceu durante uma visita à biblioteca da Ribeira, para a realização de um trabalho escolar.
A aproximação real com a escrita aconteceu na adolescência, quando conheceu o poeta Carlos Arouca, figura que se tornou amigo, irmão e referência. A partir dessa experiência, percebeu que a poesia poderia ser uma forma de se afirmar no mundo, especialmente como homem negro periférico que não se encaixava nos padrões tradicionais de masculinidade.
Anos mais tarde, já como docente e pesquisador, construiu sua carreira em universidades e institutos federais e, mais recentemente, na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), em Jequié, onde se dedica ao ensino e à pesquisa em literatura brasileira e teoria literária. Seu percurso acadêmico também foi marcado pelo encontro com professores e autores negros, que abriram caminho para uma reflexão crítica sobre o apagamento histórico dessas vozes na literatura.
Professor do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Jorge é autor de “Modernismo Negro”, fruto de sua tese de doutorado na mesma instituição. Publicado em 2024 pela editora Segundo Selo, o livro percorreu diversas cidades do país e foi reconhecido pela Revista O Odisseu como um dos lançamentos mais importantes daquele ano.
A obra, que revisita o modernismo brasileiro a partir das experiências negras e periféricas em diálogo com Lima Barreto, reúne textos de intelectuais como Muniz Sodré, Leda Maria Martins e Henrique Freitas. No dia 5 de agosto de 2025, em cerimônia realizada em São Paulo, o livro rendeu ao autor o Prêmio Jabuti Acadêmico, na categoria “Letras, Linguística e Estudos Literários”.

Jorge também coordena o grupo de pesquisa Perifa, na Uesb, dedicado às autorias negras da Bahia e do Brasil, e tem outros livros publicados, como Muvuca (2024), O Mapa de Casa (2023) e Contemporaneidades Periféricas (2018). Sua trajetória mostra que, mesmo para quem cresceu distante dos livros, a literatura pode se tornar um caminho e uma forma de ampliar vozes antes silenciadas.
Apesar de ter conquistado um dos principais prêmios literários do país, o escritor reflete sobre a pouca repercussão que sua obra teve em veículos de imprensa e circuitos literários fora da Bahia e do Nordeste. Para ele, isso evidencia que ainda há uma desvalorização da produção literária e acadêmica nordestina em certos espaços, especialmente no Sudeste. “Se nem um prêmio rompe com essa barreira, o que vai romper?”, questiona.
Em entrevista ao Conquista Repórter, o professor e escritor falou sobre a importância do Prêmio Jabuti concedido à uma obra centrada em experiências negras e periféricas, destacou a importância da educação para o combate ao racismo e refletiu sobre novas formas de pensar o modelo de sociedade em que vivemos. Confira a seguir:
CR: Para além do reconhecimento do seu trabalho acadêmico, o que significa para você a vitória do Prêmio Jabuti com uma obra que propõe reflexões a partir de experiências negras e periféricas?
Jorge Augusto: Significa muito. Eu tenho um um livro chamado “Contemporaneidades Periféricas”. Nele eu pergunto quanto um intelectual negro da Bahia ou do Nordeste precisa ceder do seu objeto de pesquisa, do seu modo de dizer e fazer pesquisa para entrar nos grandes circuitos de circulação e de validação do país. O que eu quero dizer é que a gente tem, aqui na Bahia, grandes poetas e escritores. Eu digo isso sem sombra de dúvidas, porque ando, vivo e respiro essa cena. A gente tem escritores que mereciam ser premiados sem dúvida nenhuma. Eu vou citar um: Lande Onawale. Eu posso pegar um texto de Lande, analisar, produzir um bom texto sobre, mas esse material não tem apelo para as grandes revistas sudestinas, por exemplo, que são as revistas de maior circulação. Nem tem apelo para os grandes eventos. Então, aquele texto já fica mitigado. Ele é negado para uma publicação, não é tão interessante para uma velha editora do Sudeste, entende? Eles vão fechando o circuito. O que acontece é que no “Modernismo Negro” eu falei exatamente o que eu quis, sobre o que eu quis e como eu quis, como eu acreditava que deveria ser dito. Eu não me vi concedendo uma coisa ou outra para ganhar um grande prêmio. Inclusive, é um livro que faz duras críticas ao campo da literatura brasileira, aquele mesmo que me julgou. O Prêmio Jabuti tinha 78 jurados, entre eles tinha, salvo engano, quatro pessoas negras. É um negócio assustador. Então, eu acho que a importância primeira é essa, de ganhar um prêmio grande e importante desse fazendo exatamente aquilo que eu acredito. Eu tô feliz, isso é massa. E a outra coisa que um prêmio desse proporciona é uma circulação das ideias que estão ali, que não são apenas minhas. Uma pessoa ganha um prêmio e já querem fazer dela um herói, dizem: “aquela pessoa representa”. Eu não represento nada. Estou somando com as pessoas, compartilhando um conjunto de ideias que têm partido do campo da literatura brasileira. A gente tem, muito antes de mim, três pesquisadores monumentais que calçaram o chão para essa geração que está vindo agora, muito forte na Bahia, que são: Muniz Sodré, nascido perto de Feira de Santana, um gênio brasileiro. Também temos Leda Maria Martins, de Minas Gerais, e Edimilson de Almeida Pereira. Três nomes fundamentais para o que chamamos hoje de literatura negra e para pensar criticamente essa literatura. Na Bahia a gente tem vários outros nomes, da Ufba, Uneb, Uesb, que agora estão fazendo esse debate epistemológico, pensando a crítica da literatura, pensando a teoria da literatura, não com base na tradição canônica europeia, mas a partir do legado cultural negro deixado no Brasil. Ou seja, e se a gente pensar a teoria da literatura a partir da cultura negra? Isso é um negócio muito disruptivo, novo e forte. E é o que tem sido feito. Isso começou com esses três pesquisadores que eu citei, e segue na Bahia com Lívia Natália, Denise Carrascossa, Maria Dolores Rodriguez, Silvana Carvalho, Ari Sacramento, Silvio Roberto, Henrique Freitas e outros. É importante que o prêmio não visibilize uma pessoa em detrimento das outras, e sim todas as outras pessoas que constituem o campo. Porque eu não inventei a roda. É importante frisar isso. A roda está no repertório cultural negro brasileiro, e foi nele que eu dialoguei com essas pessoas todas, com a população negra e com a minha experiência de vida como homem preto periférico para pensar a modernidade brasileira. É de lá que eu tiro as ideias que convenceram os jurados e juradas a me dar esse prêmio.

CR: Em meados de 2010, você publicou um trabalho que analisa o discurso da Lei nº 10.639/2003, que incluiu no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da História e Cultura Afro-Brasileira. Já são mais de 20 anos desde a sanção dessa legislação. Enquanto professor, como você avalia a execução dessa política de reparação na prática?
Jorge Augusto: É muito delicado falar disso porque a lei não tinha base para ser implementada quando surgiu. Os livros didáticos e os currículos das universidades não tinham nada que pudesse subsidiar a implementação desta lei. Os professores não eram formados dialogando com a cultura negra. Foi algo muito desafiador. Na verdade esse repertório circulava no movimento negro, como aponta Nilma Lino Gomes, em seu “Movimento Negro Educador”. Então o que houve foi uma força tarefa dos intelectuais negros para produzir material. Tivemos os cursos de formação do governo federal e as pós-graduações que surgiram sobre história e cultura africana. Também houve produções de livros, as editoras negras surgiram, mas isso não pode ser explicado só pelo surgimento da Lei nº 10.639. Nós precisamos entender que a lei funcionou e funciona muito menos do que ela poderia e deveria, mas o pouco já foi suficiente para causar um abalo nos campos educacional e editorial brasileiro. Além disso, nesse contexto, duas coisas se juntam ao surgimento da Lei nº10.639/2003: a Lei de Cotas, que é fundamental, e o boom econômico do primeiro governo Lula, que permite, por exemplo, o surgimento de várias editoras negras pelo Brasil. Isso muda muita coisa, porque quando você diz que a escola e a universidade precisam ensinar a história e cultura afro-brasileira, você cria demanda para um tipo de livro que nem existia e que as editoras grandes não queriam publicar. De uns 10 anos para cá virou moda, as grandes editoras estão ganhando muito dinheiro com os livros negros, mas se você olhar há 10 anos atrás, elas não queriam publicar. Então, quem bancou o abastecimento lento, mas, progressivo dessa formação dos professores brancos e negros, foram as editoras negras. Junto a isso, a Lei de Cotas foi colocando professores negros nas universidades estaduais e federais, de forma lenta, mas progressiva. E esses professores negros começaram a montar grupos de pesquisa voltados para a temática negra, a criar publicações e eventos negros, e a girar uma rodinha pequena dentro da universidade brasileira, que vai considerar a produção epistemológica e as contribuições africanas vindas da África. Isso dá subsídio à lei. Se você olhar para as universidades brasileiras, os eventos têm mudado um pouco, sobretudo se você sai do eixo Rio-São Paulo e vem mais para o Nordeste. As discussões avançaram um pouco, isso é um fato, mas não o suficiente para que isso reverbere, por exemplo, na escola pública. Mas a gente conseguiu algumas mudanças estruturais, como o fato do livro didático (ou pelo menos alguns) ter um pouquinho de literatura negra e literatura africana. Isso dá subsídio para o professor abordar o tema, porque está ali no livro, ele tem que abordar e dar um certo norte, embora o que esteja ali é muito pouco perto do que a gente precisa, às vezes até com erros grosseiros. Eu falo isso porque analisei esses livros. Mas é fundamental que a lei funcione, porque é compreendendo as contribuições dos povos africanos vindos para o Brasil que a gente vai conseguir combater o racismo. Nós nos constituímos enquanto um povo mutuamente. O que o Brasil fez oficialmente foi renegar a contribuição dos povos afro e indígenas na “definição” do que a nação é. Isso criou uma ideia para as pessoas de que os indígenas e a população negra são o outro do Brasil. Não, nós somos o Brasil e não existe Brasil sem nós. Em nenhuma dimensão política, epistemológica, cultural. E não estamos falando apenas de culinária, dança, folclore, mas em todas as áreas, na ciência, na literatura, na geografia. É uma violência brasileira querer fazer do negro e do indígena um outro ser apartado de nós, e não que nos constitui. É isso que permite, por exemplo, que a polícia brasileira seja uma das que mais mata no mundo. Também permite que a polícia baiana, que é a que mais mata no Brasil, tenha em quase 100% das vítimas, pessoas negras. Isso acontece porque esse negro, nessa perspectiva, não faz parte da sociedade e do mundo que defendem. Então, ele é um outro, o estrangeiro, aquele contra qual o país se arma. Por isso a gente vê tantas mortes negras acontecendo sem nenhuma comoção social. Um dos motivos é esse: no Brasil, a população negra é o outro da população. Ela não constitui ontologicamente a elite que manda no país. É preciso ser ensinado nas escolas, desde que o estudante é uma criança, que os africanos vieram para cá para serem escravizados, mas que eram seres humanos, que trouxeram centenas de línguas para cá, trouxeram muitos desses costumes religiosos e culturais que nós temos. Então, essa riqueza toda constitui aquilo que eu sou e não o outro que eu não sou. A criança vai compreender isso se ela tiver a devida educação na escola e, quando crescer, ela não vai achar normal que haja quatro chacinas em uma semana na cidade onde ela mora, nem o fato de morrer apenas pessoas negras nessas chacinas. Uma coisa está estritamente ligada a outra.

CR: Nos últimos anos, temos nomes da literatura negra como Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus e outros sendo reconhecidos e referenciados. Mas sabemos que, apesar dos avanços, ainda existem muitas barreiras. E isso começa desde a educação nas escolas. Qual a importância de apresentar às crianças e jovens referências artístico-literárias negras?
Jorge Augusto: Quando a gente fala de Carolina Maria, ela escreveu numa época que não tinha recepção crítica para ela. Quem fez a crítica sobre ela foram críticos brancos, e eles não gostavam do que Carolina fazia. Em grande parte, porque eles não entendiam, porque Carolina Maria usa diretamente o repertório cultural negro. Ela fez samba, um livro de provérbios, escrevia a partir de uma oralidade visceral que são características culturais do povo negro. A crítica tradicional de base eurocêntrica não estava pronta e não quis entender isso. Conceição Evaristo e outros autores contemporâneos, como Jeferson Tenório, têm uma crítica negra possibilitada pela Lei nº 10.639/2003 e pela Lei de Cotas. Aquele circuito que eu disse que se formou, com editoras negras, grupos de pesquisa negro, eventos com pessoas e com temáticas da literatura negra, isso cria um campo de recepção que valoriza essas obras. Então, o que eu estou falando é que há um campo literário que tem sido valorizado e há um campo crítico que não é valorizado ainda. Por exemplo, a gente considera que os poetas dos slams tem uma outra mecânica de produção do verso que é baseada na oralidade, mas esses poetas nunca vão ganhar um Prêmio Jabuti hoje, porque os critérios que validam a leitura e a avaliação desses textos são baseados numa tradição canônica. Então, uma coisa é que a literatura negra tem sido mais valorizada nos últimos anos, e essa valorização vai muito entre aspas. Mas a crítica sobre a literatura negra ainda não tem um lugar dentro da academia brasileira. Esse lugar está sendo construído muito lentamente. Na Bahia, temos uma exceção, que é o programa de pós-graduação em literatura da Ufba, porque tem muitos professores negros fazendo pesquisa nessa linha. Isso não é comum em nenhum outro lugar do Brasil, pelo menos não no meu conhecimento. E quanto à importância dessa literatura para as crianças, é fundamental, porque eu sempre digo para os estudantes que estão dialogando comigo em sala que, se você vai para uma escola e dá aula sem contemplar a dimensão racial, você está sonegando, escondendo e mentindo para seu aluno sobre uma dimensão fundamental da constituição das relações sociais brasileiras, que é a raça. As pessoas precisam entender isso o quanto antes para que elas se imunizem do racismo. Muniz Sodré fez um livro recentemente chamado “O Fascismo da Cor”, onde ele mostra, de forma brilhante, como o racismo é um afeto. Por isso a criança não é racista ainda, porque ela ainda não foi afetada por essa dimensão, por essa forma social, como Muniz chama, que a sociedade vai incutindo na criança à medida que ela cresce. Mas se você dá uma base educacional sólida para essa criança, você vai começar a transformar essa sociedade pela base, pelo começo. A educação de qualidade não é aquela em que a criança vai para a escola e fica aprendendo diversos conteúdos. Educação de qualidade não é isso, nós não somos robôs. Educação de qualidade é aquela que nos prepara para viver bem em sociedade. E o que é viver bem em sociedade? É viver democraticamente, é ser capaz de não querer matar, apedrejar, xingar, humilhar a outra pessoa porque ela tem uma outra orientação sexual, por exemplo. Isso é educação. Educação não é uma coisa de conteúdo, e sim o que a gente faz para continuar prosperando a sociedade para que ela se torne longeva. E a gente só pode ser longevo se não matarmos uns aos outros. Nisso a gente está fracassando.

CR: Em uma entrevista recente, você disse que a literatura negra tem coisas importantes a ensinar ao Brasil. O que você diria que “Modernismo Negro” tem a ensinar para o país?
Jorge Augusto: Eu acho que o “Modernismo Negro” tenta propor ao país uma confiança maior na sua própria criatividade, invenção e força plástica. Acredito que o “Modernismo Negro” diz a esse país que a gente não precisa ter a Europa como base de um modelo de gestão da vida social. Pelo menos, não como um modelo exclusivo. A gente tem outros modelos de gestão da vida social nas comunidades negras, nas comunidades indígenas. Nós criamos, sem nenhuma condição material, quilombos imensos que viveram décadas e décadas à revelia do governo com organizações sociais muito distintas da monarquia e da república antidemocrática do Brasil. A gente cansou de mostrar para esse país, enquanto povo, que há formas menos predatórias de se lidar com a natureza, como as comunidades indígenas e as comunidades quilombolas lidam, que há formas muito mais saudáveis de se viver comunitariamente, sem que uma pessoa precise ser bilionária para ser feliz. Mostramos que há algo melhor do que esse modelo de gestão da vida que o neoliberalismo nos obriga a viver, com esse cansaço frenético, trabalho hostil e a velha alucinação do tempo. Eu acho que isso é fundamental nas culturas negras, e algo que o “Modernismo Negro” chama a atenção dizendo assim: “olha, a periferia e as comunidades negras nos deram várias pistas do que é possível fazer”. Vamos escutar essa crítica ao projeto moderno que emerge dessas comunidades negras. Quem sabe, ouvindo isso, a gente é capaz de imaginar um futuro mais saudável para todos nós e não para 1% da população, que são os bilionários. Desde o meio do século XIX a gente pensa uma modernidade irrestritamente ligada a um modelo euro-ocidental, e não deu certo. Duas grandes guerras aconteceram. O mundo nunca parou de ter guerra e a fome nunca desassombrou o planeta. Nós tivemos epidemias e temos uma medicina que não é preventiva e sim curativa. As pessoas se alimentam mal e se tratam mal no trabalho. É uma sociedade absolutamente adoecida. Então a gente já testou e viu que não deu certo. Que tal se a gente testar uma outra possibilidade de sociedade? Eu acho que é essa a pergunta que o modernismo negro vem fazer coro: “e se a gente pensar e fizer essa sociedade de outra forma?”. E vem dizer, sobretudo, o que as comunidades indígenas cansam de dizer: há outras possibilidades de vida existindo concomitantemente com esse nosso modelo de vida. Por que ficar apostando nesse modelo de vida que já está falido, fadado ao fracasso, se nós temos outros que os povos negros e os povos indígenas nos mostram diariamente como fazer? Essa é a questão que eu acho que o “Modernismo Negro” reverbera. Ele não cria, ele está reverberando isso a partir da obra de Lima Barreto. Que tal se a gente topar isso? Acho que é essa a questão.

CR: Você diria que esse livro, assim como suas outras obras, são a sua maneira de contribuir para a luta da população negra por direitos e contra as diferentes formas de opressão?
Jorge Augusto: É o que eu tento fazer. Cada um tenta contribuir da sua maneira. Eu não sou um intelectual de gabinete, sou uma pessoa de ir para manifestação. Quatro dias antes do prêmio, eu estava em uma manifestação no bairro onde eu nasci, porque mais um homem negro tinha sido morto numa ação policial. Eu estava lá, sendo filmado. Teve pneu queimado, interdição de pista, polícia, e eu estava lá porque gosto de participar para entender o que está acontecendo. Não posso ser um intelectual que vai estar longe da vida que eu penso, então faço questão de estar nesses momentos. Tento contribuir de outras formas, mas acho que sou melhor intelectual, escritor e poeta do que manifestante. Então, eu tento dar uma contribuição que seja mais longeva, sólida e mais robusta com a minha produção teórica. Às vezes, a gente tem dúvida de para que serve um livro, um poema ou uma ideia quando as pessoas continuam morrendo diariamente e arbitrariamente na Bahia, por exemplo. Mas serve para conscientizar as pessoas cada vez mais de que aceitar isso não é mais possível, de que isso está no limite e a gente precisa propor caminhos. Acho que o livro também é uma proposição de caminhos para essas coisas, sobretudo, no campo das letras.
*Maria Eduarda Leite é estudante do 8º semestre do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e estagiária do Conquista Repórter.
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