Filme conquistense resgata memória do cinema ao contar história de técnico de refrigeração

Por - 22 de setembro de 2021

O curta “Coleção Preciosa”, de Rayssa Coelho e Filipe Gama, já foi exibido em um festival internacional e em quatro mostras cinematográficas; A próxima é a 3ª Mostra Cinemas do Brasil, que acontece em outubro

Apresentado pela primeira vez ao público no dia 28 de dezembro de 2020, no canal do Programa Janela Indiscreta, no Youtube, o filme conquistense “Coleção Preciosa”, de Rayssa Coelho e Filipe Gama, estreou no circuito cinematográfico em um dos principais eventos do gênero documentário na América Larina, o Festival Internacional É Tudo Verdade. Desde então, já foi selecionado para cinco mostras ao longo de 2021. Uma delas, a 3ª Mostra Cinemas do Brasil, acontece de forma virtual, em outubro. A lista de produções que serão exibidas durante o evento foi divulgada nesta terça-feira, 21.

Foram mais de 200 filmes inscritos de diversos estados do país. Dos 31 que foram escolhidos pelos curadores da mostra, dois são de Vitória da Conquista e são os únicos representantes de toda a Bahia. Além do curta “Coleção Preciosa”, foi selecionado o filme “101%”, que também foi dirigido por Filipe Gama, com a proposta de apresentar a história das videolocadoras na maior cidade do sudoeste baiano.  

Já o documentário que teve Rayssa como diretora e Filipe como codiretor traz a trajetória de Ferdinand Willi Flick (in memoriam), técnico de refrigeração conquistense que, por mais de cinco décadas, colecionou itens de cinema que constituíram um acervo composto de raros recortes de películas de projeção (chamadas por ele de filmogramas), cartazes, pôsteres, folhetos antigos dos cinemas de Conquista, recortes de jornais, revistas, entre outros materiais.

“Figurar em alguns dos festivais como única obra baiana (em alguns casos até a única nordestina) é revelador do quanto as estruturas estão ainda fechadas para nós, como um coletivo, ao tempo que nos dá muita certeza da importância do nosso filme, do objeto ao qual ele se refere e mais ainda do retorno do grande envolvimento e compromisso que tivemos com esse projeto”, conta Rayssa, que é produtora cultural atuante no interior da Bahia desde 2008.

Segundo ela, é urgente levantar o debate sobre acervos. A documentarista afirma que existe, na coleção de Flick, “muitos vestígios das condições de seu tempo em sua cidade, no país e, claro, das dinâmicas do audiovisual por várias décadas, sendo ele nacional ou internacional, no âmbito da produção, mercado, difusão, mas também do lugar social que tem o cinema”. 

Ainda de acordo com a produtora, ao mesmo tempo em que traz uma abordagem sobre preservação e memória, o filme “Coleção Preciosa” faz uma leitura subjetiva de Ferdinand W. Flick enquanto colecionador, mostrando que ele e a coleção são indissociáveis. “Essa relação é curiosa e crucial para entendermos os acervos pessoais e o quanto as ações dos indivíduos, as práticas em torno dos próprios afetos, são importantes para a nossa memória coletiva e para resguardar o passado”, destaca.

Preservação da memória do cinema

Atualmente, os itens colecionados por Flick estão sob responsabilidade do Museu Pedagógico – Casa Padre Palmeira, no Centro de Documentação Albertina Vasconcelos, localizado no campus da Uesb (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) de Vitória da Conquista. Além disso, no dia 10 de agosto, foi lançado o acervo digital “Coleção Preciosa”, no qual estão expostos em fotos, vídeos e álbuns virtuais diferentes materiais reunidos pelo técnico de refrigeração que representam a memória do cinema nacional e local. 

O site é fruto do projeto “Acervo Willi Flick – catalogação, digitalização e exposição on-line”, desenvolvido, entre janeiro e julho deste ano, em parceria com o Janela Indiscreta, vinculado ao curso de Cinema e Audiovisual da Uesb, e com o Museu Pedagógico da universidade. Ao todo, 12 pesquisadores e assistentes estiveram envolvidos no processo de levantamento, categorização e identificação dos itens do acervo.

“Infelizmente, estamos acompanhando, quase que diariamente, a falência de importantes estruturas para a preservação da memória audiovisual, por conta de desmontes públicos em diferentes esferas do poder. Dessa forma, iniciativas que contribuem para a preservação e garantem amplo acesso às informações da nossa memória cultural serão sempre relevantes. O site pode ser visitado por todos e certamente reúne informações importantes para pesquisadores do audiovisual, ao tempo que pode aproximar os interessados, ainda que sem finalidade acadêmica”, explica Rayssa.

O “Acervo Willi Flick” foi aprovado na linha de projetos da área Audiovisual, na categoria Memória, do Prêmio das Artes Jorge Portugal, com apoio financeiro do Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia). O filme “Coleção Preciosa”, por sua vez, também foi financiado com recursos estaduais, através do Edital Setorial do Audiovisual 2019.

Foto de capa: Filipe Sobral

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