Editorial | As ameaças fascistas na Uesb e a importância de não normalizar discursos de ódio

Por - 23 de setembro de 2024 - Direitos Humanos

Na noite da última quarta-feira, 18, um homem abordou alunos no campus de Vitória da Conquista e fez afirmações que estimulam o assassinato de pessoas da comunidade LGBTQIA+. Estudantes registraram um boletim de ocorrência.

Ascom/Uesb

Na noite da última quarta-feira, 18, as ameaças fascistas que pairavam sobre a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) desde o fim de março deste ano se converteram em ataques diretos a estudantes e funcionários do campus de Vitória da Conquista. Além disso, a figura por trás dos panfletos espalhados na instituição naquele mês com discursos de ódio e mensagens de exaltação à Ditadura Militar ganhou um rosto e um nome: Hélio Marcos.

Áudios enviados ao Conquista Repórter ainda na noite da quarta, 18, revelam discursos proferidos pelo fascista que estimulam o assassinato de pessoas da comunidade LGBTQIA+. “Qualquer cidadão brasileiro, pai, mãe ou avô, pode vender sua moto, sua bicicleta, seu carro, sua máquina de costura, comprar um fuzil, ir dissimulado para a parada gay (…) e mostrar como é que cachorro lambe sangue no chão e como é que urubu come carniça”, diz ele em uma das mensagens de voz gravadas. 

“O pessoal da esquerda vai falar que é genocídio” é outra frase pronunciada por Hélio Marcos no áudio. Segundo o Correnteza, ele abordou quatro militantes do movimento que ocupavam o espaço do Diretório Central dos Estudantes (DCE), entre outros discentes na área dos Centros Acadêmicos, localizados entre os módulos 1 e 2 da universidade. Um funcionário do Colegiado do Curso de Filosofia também foi abordado pelo fascista, segundo os relatos.

Alunos do movimento estudantil denunciaram que, apesar de ter retirado o homem do campus, a guarda patrimonial da Uesb não deu atenção ao pedido dos estudantes de encaminhá-lo para a delegacia, considerando a gravidade dos seus ataques e ameaças LGBTfóbicas. Um boletim de ocorrência foi registrado. Integrantes do Correnteza pediram aos discentes que evitem andar sozinhos na instituição e que, em caso de nova abordagem semelhante, acionem a polícia.

Em nota enviada à nossa reportagem, a assessoria de comunicação da Uesb informou que o fascista já foi ouvido pela Polícia Civil e está proibido de se aproximar da universidade, sob pena de prisão. “Além disso, foi instaurada uma investigação pela prática do crime de racismo e homofobia”, diz ainda o texto. A instituição também afirmou que está reforçando os protocolos de segurança no campus.

Após o ocorrido, o Colegiado de Filosofia decidiu fazer um ato em frente ao módulo 4 da instituição contra a insegurança que paira no campus. A manifestação ocorreu na quinta, 19. Em vídeo publicado no Instagram, a professora Caroline Vasconcelos Ribeiro disse que o protesto representou o repúdio da comunidade acadêmica contra “um ambiente de trabalho inseguro e cheio de ameaças que nós temos vivido na Uesb”. 

Um dos problemas relatados que aumenta a insegurança, principalmente das mulheres que frequentam o campus, é a falta de iluminação adequada em alguns locais. “Quantas vezes a gente ainda vai ter medo de vir para aqui?”, questionou a docente durante o ato, no qual o reitor Luiz Otávio chegou a comparecer.

O Diretório Central dos Estudantes (DCE), sob a Gestão Maria Felipa, também se manifestou sobre a situação. Em nota publicada no Instagram, a representação estudantil afirmou que “a posição tida pela reitoria se mostrou insuficiente desde o ocorrido em março desse ano”. A entidade informou ainda que, durante reunião com discentes na sexta-feira, 20, a instituição se comprometeu a instalar mais pontos de iluminação no campus e deu um prazo de 30 dias para implementar tais recursos.

O comunicado foi assinado pelo DCE e Centros Acadêmicos. As organizações repudiaram o ocorrido e destacaram que “os discursos conservadores e reacionários são uma ameaça e devem ser combatidos em todas as instâncias cabíveis”. “É extremamente importante que todes se unam frente às ameaças à universidade e à integridade física e emocional de quem a frequenta”, diz ainda o texto.

O Conquista Repórter, composto por egressos do curso de Jornalismo da Uesb, também repudia veementemente a LGBTfobia e todo e qualquer discurso que estimule a violência, especialmente contra grupos historicamente marginalizados. Não podemos normalizar ou relativizar ataques como esse.

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