Vídeo | Dona Edite: “eu tenho medo de dormir por causa de chuva”
Por Victória Lôbo - 24 de novembro de 2025 - Histórias à Margem
Moradora do bairro Jurema há mais de 50 anos, a aposentada perdeu móveis e a feira do mês por causa dos alagamentos do dia 9 de novembro. Essa foi a terceira vez que ela teve a sua casa invadida pela água.
Victória Lôbo
Por trás dos números dos atingidos pelas chuvas do dia 9 de novembro, há histórias como a de Dona Edite de Jesus, de 88 anos. Uma moradora de Vitória da Conquista que guarda os comprovantes de impostos na mesma casa onde a água levou seus móveis e sua comida.
Há 51 anos, ela chama o bairro Jurema de casa. Mas nas últimas chuvas, o lugar que deveria ser seu refúgio se tornou, pela terceira vez, o cenário de um pesadelo recorrente. “Minha filha, não tem nem o que eu falar. A gente perde tudo, quando acaba ninguém vêm tomar providência e aí a gente fica sem chão”, desabafa para a nossa reportagem.
A realidade de Edite é a face mais cruel da injustiça climática que atinge a periferia de Vitória da Conquista. Não se trata apenas de um evento meteorológico, mas da crônica de um abandono anunciado. Enquanto a água subia, ela viu décadas de luta serem cobertas pela lama.
O relato expõe uma ferida aberta na relação entre o cidadão e o poder público. Ela faz questão de enfatizar que cumpre sua parte no contrato social, muitas vezes com sacrifício pessoal. “Eu ganho só o salário para comprar remédio e o alimento. Ainda pago IPTU, tenho tudo aí guardado”, conta, com a dignidade de quem nunca deixou uma conta vencer.
“Nunca minha água, minha luz foi cortada, porque mesmo que eu fique sem nada, mas eu quero pagar.”
A contrapartida desse esforço, no entanto, não chega em forma de drenagem ou segurança. Chega em forma de promessas vazias. “Sempre é falando que vai melhorar e ninguém nunca vê melhora nenhuma. Só prometendo, prometendo”, expõe.
A enchente não levou apenas móveis, levou a subsistência básica. Dona Edite lista as perdas com a precisão dolorosa de quem sabe o valor de cada item conquistado. Foram duas mesinhas, armários, a cristaleira antiga. “Perdi tudo. Só tem um pedacinho de carne. A menina [sua neta] comprou um pedacinho de requeijão… o pedacinho de queijo caiu lá dentro, encheu de água”, relata.
O cenário pós-chuva é de destruição. O guarda-roupa quebrou, o colchão onde a filha dormia está encharcado esperando o sol, e as roupas estão amontoadas. “Eu não tenho onde botar as coisas”, diz ela, mostrando os estragos. Sem a presença do Estado, o que resta é a solidariedade comunitária. Foi a vizinha, “Dona Nega”, quem acolheu Edite quando a água invadiu. “A casa dela é mais alta[…]. Quem acolhe todo mundo aqui é ela.”
Agora, passada a tempestade, fica o trauma. O medo de Dona Edite não é da violência urbana. “Eu tenho medo de dormir por causa de chuva. Não tô tanto assim por malandragem, graças a Deus… É a chuva que eu fico com medo.”
Confira abaixo mais detalhes dessa história na videorreportagem da série Histórias à Margem.
O vídeo faz parte da série ‘Histórias à Margem: Baixada do Jurema’, que conta as histórias de moradores do bairro Jurema, em Vitória da Conquista, onde há décadas as fortes chuvas causam alagamentos e, consequentemente, prejuízos para a população, principalmente pela falta de sistema de drenagem eficaz. Para saber mais sobre a situação, acesse a reportagem aqui.
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