Artigo | O filme “Sysyphus” e as reflexões sobre enfrentar a falta de sentido da vida

Por - 4 de junho de 2024

Documentário de cineasta conquistense mostra o cotidiano de três trabalhadores informais em condições limites. A partir das histórias, George Neri faz uma analogia à condição de Sísifo, personagem de um mito grego.

Três zeladores mostram o trabalho diário, cuidados e peculiaridades das vivências que os ofícios proporcionam. Risco, condições extremas de altura, profundidade ou escuridão. Perigo e repetição. Os tipos escolhidos para representar o que há de Sísifo em nós são o guia de uma gruta profunda e complexa. Nós observamos o responsável pela manutenção cotidiana do Elevador Lacerda, na cidade de Salvador, e um mergulhador que trabalha diariamente reparando canos no fundo do mar. São personagens que se precipitam enfrentando a falta de sentido da vida com o trabalho.

O filme Sysyphus (2023) se refere a Sísifo, fundador mítico da cidade grega de Corinto, trapaceiro que, ao tentar ludibriar os deuses e desmorrer-se, é condenado a passar a eternidade empurrando uma pedra morro acima. Ao chegar no topo, a pedra rola. Nosso herói deve buscá-la novamente e a levar, sucessivamente, por todo o sempre. Sísifo fez das tripas coração para sobreviver à vida. Prendeu a morte, arremedou o trovão para se fingir de deus. Por essas e outras, foi castigado com trabalho inútil.

Alegorias da condição alienada e inesgotável do trabalho, Sísifos somos nós, condenados ao retrabalho em condições extremas, à rotina e repetição, aos perigos e falta de sentido dos esforços humanos num mundo capitalista. Nós, que temos de rebolar sobre o salto e fazê-lo discretamente, sob o risco de um castigo desproporcional. No alto do elevador, nas profundezas da gruta ou do mar, somos alvo do castigo pela tentativa de Sísifo ser mais esperto que as entidades mitológicas, que nunca existiram, mas sempre aconteceram influenciando nossas vidas.

A leitura de Sísifo feita por George Neri, diretor do documentário, diz respeito ao ponto de vista do escritor Albert Camus no ensaio filosófico ‘O Mito de Sísifo (1941)’, onde lembra que, embora Homero o tenha considerado sábio e prudente, sua reputação entre alguns poetas de outra tradição tendia para a de um bandido. Uma coisa ou outra, acaba-se no inferno do trabalho, condenado ao refazer extenuante esforço. Um herói absurdo, recomeçando incessantemente, castigado pelas paixões, desprezado pelos deuses. Seu amor pela vida teve como preço o suplício humano de nunca terminar coisa alguma.

Camus não se interessa pelo esforço rumo ao cume da montanha, mas pelo instante em que Sísifo desce a elevação e retorna para sua pedra. Neste momento o herói toma consciência de seu destino. É onde está a questão posta pelo filme, a mesma questão do mito, da religião, da filosofia. A angústia do herói vem no momento de descanso, este momento do mundo do trabalho quando o trabalhador percebe o peso que terá de carregar logo após. O absurdo da condição humana, a busca por sentido da existência, os aspectos da precariedade do trabalho e das profissões.

Está tudo lá em Camus, e também em Marx e Engels, ou em Max Weber, mas está principalmente no dia a dia dos trabalhadores, dos alienados, na fragmentação das relações de trabalho. O filme, ao mostrar a oxidação dos cabos do grande Elevador Lacerda diante do mar, condenado a ter os sais e metais da brisa grudados e reagindo em suas estruturas, nos diz que tudo precisa de cuidado. Qual é o preço desse cuidado e quem, de fato, paga por ele?

Desfrutar a angústia é um luxo, e cabe apenas ao ocioso, uma vez que o trabalhador não se pode dar a este desfrute, disse Camus, viveu Sísifo e sabemos todos exatamente do que se trata. Ao invés de evitar a oxidação, limpa-se o excesso da crosta, trabalho a ser refeito indefinidamente. Sabendo que não há sentido em sua tarefa inevitável, encontra dignidade na aceitação de sua condição e no compromisso com a lida. Estaria nesse ato de rebelião contra o absurdo a essência da existência humana?

A alegria dos personagens está ali, como quem abraça a vida mesmo que ela não faça nenhum sentido. Sucumbir ao desespero? Melhor ser feliz debaixo d’água, dentro da caverna ou entre os cabos de um elevador gigantesco. Como um Sísifo que escolhe, ao invés de sucumbir ao desespero ou buscar um sentido transcendental como a religião oferece, viver plenamente o momento presente e encontrar-se na própria luta contra o absurdo, que é onde está a essência da vida. Este ato é representado pelo herói do absurdo, o Sísifo de Camus, aquele que abraça a vida apesar de sua falta de sentido.

Sysyphus, o filme, é sobre a celebração da coragem, é sobre rebelar-se e com a transgressão dar significado a um mundo aparentemente indiferente, repetitivamente chato. A produção mostra a possibilidade de se abraçar a vida em suas contradições e incertezas, encontrando beleza na própria luta pela vida. A obra trata também do perigo das profissões, das relações entre fé e ciência, das políticas de extermínio, do fundo do mar, das profundezas de uma gruta, das altitudes de Salvador, das peripécias dos que desafiam a morte. Também vamos encontrar ali reflexões sobre os sonhos, distinções entre a premonição, o inconsciente e sua relação com passado e futuro.

No mais, o documentário tem uma fotografia cuidadosa. O som é imersivo, ajuda a conduzir o espectador entre as imagens, belas imagens, e captá-las como elementos que compõem, numa fala em movimento, este discurso que pergunta sobre qual o sentido em qualquer coisa ter que ter ou não ter sentido.

Sysyphus (2023) foi exibido no Festival de Tóquio (Japão) e no Panorama Internacional Coisa de Cinema, em Salvador. A partir de setembro de 2024 será exibido no canal Cine Brasil TV.

*Afonso Silvestre é historiador, arquivista, memorialista, escritor, músico e artista visual. É funcionário público municipal em Vitória da Conquista, onde já realizou, desde 2004, 32 certificações de comunidades remanescentes de quilombos. Também é responsável pela modernização do Arquivo Público Municipal.

Foto de capa: Reprodução/ Sysyphus (2023)/Alex Oliveira.

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