Artigo | Camarote pago no São João de Conquista divide opiniões nas redes sociais

Por - 22 de maio de 2025 - Cultura

A novidade gerou um debate sobre a privatização e a elitização da festa que historicamente ocupa praças públicas.

Secom/PMVC

Pela primeira vez o São João da cidade contará com o Camarote Arraiá Conquista, um espaço privado com serviços exclusivos que incluem mirante elevado, vista privilegiada, áreas instagramáveis, banheiros com acessibilidade e praça de alimentação. A novidade dividiu opiniões nas ruas e nas redes sociais, mas principalmente gerou um debate sobre a privatização e a elitização da festa que historicamente ocupa praças públicas e promove o encontro democrático entre as pessoas.

Embora o espaço público continue existindo, ele passa a dividir o protagonismo com uma estrutura pensada para um público consumidor específico, disposto a pagar por conforto e exclusividade. Além da novidade do camarote, o local do evento mudou. O Arraiá da Conquista deixa a zona Oeste e migra para o Parque de Exposições Teopompo de Almeida, localizado em área valorizada da cidade.

O deslocamento territorial carrega também um deslocamento simbólico, visto que a festa popular se distancia das comunidades que sempre a construíram, aproximando-se de uma lógica de consumo. Com essa mudança, não apenas o espaço físico da festa se transforma, mas também o tipo de público que ela tende a atrair, reforçando barreiras sociais e econômicas.

Apesar da grandiosidade prometida pela Prefeitura e pela Salvador Produções, empresa responsável pelo camarote, as mudanças vêm sendo criticadas por parte da população, que aponta para uma segregação do acesso à cultura. A presença de camarotes pagos, o distanciamento territorial da zona Oeste e o discurso de profissionalização da festa levantam o questionamento: o São João ainda é do povo?

A cidade que já foi referência em festas juninas comunitárias, como o São Pedro do Bairro Brasil e os forrós organizados por associações culturais, agora assiste à crescente substituição da festa feita pela comunidade por uma festa vendida à comunidade.

Nos comentários de uma publicação oficial da Prefeitura e em blogs locais, o debate ganhou força. Em meio às comemorações pelas atrações do festejo, alguns usuários relatam que a existência de camarotes representa uma elitização do evento. “São João é uma festa que é justamente pra reunir o povo, e a bonita bota um camarote numa festa que devia ser totalmente de graça! Ela tá sempre procurando uma forma de ganhar dinheiro”, criticou um internauta.

Outro comentário foi ainda mais enfático. “A Prefeitura e sua cultura separatista elitista, numa clara tentativa de separar rico do pobre, coloca um camarote pago, levou o evento para área nobre da cidade”. O usuário também comparou a situação com o fim do carnaval cultural no Centro da cidade, apontando um processo contínuo de esvaziamento dos eventos populares em espaços acessíveis.

Do outro lado, houve quem aprovou a alteração de local. “Na minha visão a prefeita acerta em levar para o Parque de Exposições, uma vez que realmente o Espaço Glauber Rocha não comporta o público”, escreveu um usuário. Teve ainda quem disse que a mudança é inevitável. “Isso acontece cedo ou tarde. O público muda. A cidade ganha, o comércio ganha”, afirmou em um post no Instagram

Apoio estadual aos festejos juninos

Enquanto o camarote surge no município, a nível estadual o Governo da Bahia lançou em maio um edital de apoio técnico e financeiro aos festejos juninos no interior. Através da Superintendência de Fomento ao Turismo (Sufotur), o estado pretende fomentar o São João entre os dias 6 de junho e 6 de julho, com repasses que variam de R$ 70 mil a R$ 600 mil, conforme critérios como impacto turístico, valorização da cultura local e participação em edições anteriores.

A medida reconhece a importância da festa para o turismo e a economia, e pode ser um contraponto às iniciativas que privilegiam apenas o aspecto comercial do evento.

O São João está em disputa entre tradição e espetáculo, entre acesso e exclusão, entre praça e camarote. O caso de Vitória da Conquista é um exemplo de como festas populares podem ser transformadas por interesses políticos e mercadológicos, como já aconteceu com a Micareta, e de como é preciso estar atento para que elas não deixem de ser, antes de tudo, populares.

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