Artigo | A privatização do São João e o desmonte da cultura popular em Conquista

Por - 21 de maio de 2025 - Cultura

O que antes era política pública, agora virou contrato privado. Com mudança de local e até camarote, a festa tradicional ganha uma roupagem que serve à elite.

Secom/PMVC

Com uma caneta na mão e interesses empresariais no bolso, a prefeita bolsonarista, defensora do Estado mínimo e da lógica ultraliberal, desmantela um projeto coletivo de valorização da cultura que, por mais de duas décadas, fez de Vitória da Conquista uma referência na preservação e promoção do São João tradicional. O que antes era política pública, agora virou contrato privado.

O São João de 2025 marca o ápice de uma ruptura. O que está em curso é um processo de expropriação simbólica: esvazia-se a memória coletiva e substitui-se o patrimônio imaterial por produtos descartáveis, embalados sob medida para os algoritmos do lucro. A cidade perde não apenas um evento, perde sua voz, seu sotaque, sua identidade.

Ao deslocar a festa do Centro Cultural Glauber Rocha, localizado na zona Oeste da cidade, para o Parque de Exposições, a atual administração reforça a exclusão territorial. Pessoas periféricas do Oeste e do Leste do município são empurradas para fora do festejo que antes lhes pertencia.

A terceirização da maior festa popular do município, que agora está entregue nas mãos do empresário Marcelo Brito — o mesmo que há anos opera a pasteurização cultural por meio de festivais de verão e inverno voltados a uma elite de consumo – é o exemplo escandaloso de um projeto de destruição.

O São João perdeu sua alma. Segundo a própria prefeita, “teremos sertanejo, arrocha e ATÉ forró”. O forró, símbolo de resistência e identidade do povo nordestino, é agora tratado como adereço, figurante em sua própria história. O trio pé de serra cede espaço ao sertanejo pop e ao arrocha plastificado.

A nova roupagem é feita sob medida para um público consumidor. O povo é espectador passivo, se puder pagar. Bebidas caras, comidas gourmetizadas e camarote fazem parte de uma estética de opressão. O projeto da atual gestão não apenas elimina a cultura popular, ele ergue em seu lugar um simulacro de modernidade que serve à elite local. Não é um governo da cultura, é um governo da propaganda, da especulação, do entretenimento mercantil.

Memória como resistência

Não se trata de nostalgia. Projetos emblemáticos como ‘Por isso que eu canto’, ‘Tom da Terça’, ‘Fechando o Beco’, ‘A Voz do Muro’, os memoriais do Forró e do Reisado, o festival de danças juninas e o ‘Domingo por Encantos’ desapareceram sob o rolo compressor de uma política que transforma cultura em ativo financeiro e artista em prestador de serviço terceirizado.

Trata-se da denúncia de um modelo de cidade onde a dignidade do povo é apagada em nome da rentabilidade de poucos. Um modelo que reproduz as mesmas desigualdades que marcam as estruturas econômicas do país: concentração de renda, expropriação do comum, apagamento dos territórios e domesticação das subjetividades. A elite consome, o povo se cala.

A cultura, nesse modelo, deixa de ser instrumento de emancipação e se converte em espetáculo de dominação. A festa popular é tomada por oligarquias culturais, a criatividade é domesticada por editais dirigidos, a espontaneidade dos bairros cede lugar à lógica do camarote. Estamos diante de um laboratório de controle simbólico em plena festa junina.

Mas há resistência. Ela pulsa nos grupos de reisado que ainda se organizam sem apoio, nas quadrilhas que ensaiam em escolas abandonadas, nos músicos de sanfona que se recusam a tocar o que o mercado exige. Vitória da Conquista, cidade de poetas, cantadores, griôs e andarilhos, não se renderá tão fácil. Porque o São João não é contrato. É herança. É memória coletiva.

*Herberson Sonkha é poeta, compositor, educador, editor do Blog do Sonkha, colunista do Conquista Repórter e militante negro comunista em defesa da cultura popular e da justiça social.

IMPORTANTE! Das periferias às comunidades rurais, seguimos contando histórias que transformam realidades em nosso território. Apoie esse trabalho com uma doação. Chave PIX: [email protected]. Os recursos arrecadados são utilizados, principalmente, para custos com manutenção, segurança e hospedagem do site, deslocamento para apurações, entre outras despesas operacionais. Você pode nos ajudar hoje?

Foram doações dos nossos leitores e leitoras, por exemplo, que nos ajudaram a manter o site no ar em 2023, após sofrermos um ataque hacker. Faça parte dessa corrente de solidariedade e contribua para que o nosso trabalho em defesa dos direitos humanos e da democracia no âmbito regional sobreviva e se fortaleça! Clique aqui para saber mais.

107
  • some
  • Unimos jornalismo, arte e educação em defesa dos direitos humanos e da democracia no interior baiano.
  • Apoie

© 2021-2026 | Conquista Repórter. Conteúdo sob licença de uso livre com atribuição de fonte.

Visão geral da privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e desempenham funções como reconhecer você quando retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.