A bancada da decadência política choraminga suposta “agressão” de dirigente do PT Conquista

Por - 22 de fevereiro de 2022

Em novo artigo de opinião publicado no Conquista Repórter, o professor e militante político, Herberson Sonkha, analisa nota assinada pelo presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, Luís Carlos Dudé, em repúdio a declarações do dirigente local do Partido dos Trabalhadores, Isaac Bonfim.

Recebi em minha rede social, no último fim de semana, uma publicação do Blog do Paulo Nunes intitulada “Câmara Municipal emite nota de repúdio”, nota essa assinada pelo atual presidente da “Casa do Povo”, Luís Carlos Dudé, com severas críticas ao dirigente municipal do Partido dos Trabalhadores (PT), Isaac Bonfim. O documento mostra que a bancada de situação e seus agregados (as ovelhas “desgarradas” do PCdoB) se ressentem da posição política incisiva de Bonfim sobre o Legislativo local, manifestada em uma atividade interna da legenda.

No passado, o atual presidente da Câmara de Vereadores, um sujeito politicamente “indeciso” e fluidamente de direita, ziguezagueou nos estertores do governo municipal do PT. Virou desafeto do partido, que se ressentia do beneficio da dúvida de o mesmo ter supostamente levado informações para subsidiar a estratégia política do radialista Herzem Gusmão Pereira nas eleições municipais. Por isso, era a “persona non grata” das forças orgânicas de esquerda do Partido dos Trabalhadores. 

Comentava-se nos bastidores que sua rápida “estadia” na gestão petista teria sido suficiente para ele “trocar” informações estratégicas do governo do professor José Raimundo Fontes com a campanha de Herzem. Mas isso nunca foi apurado, então, não passou de alarmismo.

O fato é que, de suposto “espião”, Dudé foi alçado à representante biônico da vice-prefeita no então governo petista. E a sua escalada na política não parou por aí. Foi eleito vereador, em 2016. E em 2021, foi reeleito para o seu segundo mandato, sendo então içado à presidente da Câmara numa “estranha” (será?) composição com as forças mais retrógadas e ultraconservadoras do parlamento municipal.

Usou como trampolim a extrema-direita, articulada na cidade por Herzem, que se mostrava politicamente impiedoso, anti-ciência e declaradamente bolsonarista. Dudé assumiu a presidência da Casa justamente com a tarefa de agregar a direita esfacelada, a extrema-direita fascista e os agregados – eleitos numa agenda programática de esquerda e desertores após as eleições – para compor a maioria no Legislativo e fazer “passar boiada”. 

Uma Câmara com a maioria dos seus vereadores de extrema-direita não poderia ser outra coisa senão um antro extremista e medíocre. Vide todas as matérias discutidas e votadas sob fortes aplausos e intervenções que evocavam um “capitão” sem batalha, sem guerra, sem feitos, sem honra e sem nenhuma glória.

A nota tragicômica assinada por Dudé diz que “os parlamentares que compõem o Legislativo conquistense são sérios, éticos e responsáveis”. Ora minha gente, que discurso falso-moralista mais sem jeito é esse? Essa bancada de situação é a mesma que autorizou a criação de novos cargos comissionados para atender a demanda eleitoreira da gestão Sheila Lemos e aproveitou para votar na calada da noite, à toque de caixa, a criação da taxa do lixo e o aumento abusivo das demais taxas municipais como fontes responsáveis por essas novas despesas.

Esse é um governo com baixo nível de competência técnica, sem estofo intelectual, prejudicado pela incapacidade de ouvir e atender minimamente a população. Um governo voltado para o desmonte total das políticas públicas. Um governo que retomou a ampliou o famigerado “cabide de emprego”. Um governo assim não demonstra qualquer responsabilidade social com a população. Quem não compreende o papel da Fazenda Municipal no financiamento de ações, programas e políticas com dispêndio público não pode se reivindicar responsável.

Nem o Executivo e nem a bancada de situação (e os agregados) do parlamento municipal demonstram, na prática, qualquer seriedade, ética política e/ou responsabilidade social. Essa gente branca do patriarcado machista-misógino nunca levou em consideração a atual conjuntura socioeconômica marcada pelo desemprego, hiperinflação, miséria, fome, desmatamento, privatizações e por múltiplas violências (de classe, raça e gênero). Isso porque tal conjuntura é um efeito direto da gestão do presidente fascista que eles elegeram.

Em Vitória da Conquista, os dois últimos governos são os verdadeiros responsáveis pelo crescimento do fenômeno social de empobrecimento da população, que imaginávamos ter superado. Obviamente, essa gente de extrema-direita nunca foi “séria, ética e responsável” com a classe trabalhadora e as populações subalternizadas.

Por favor, não subestimem a inteligência popular. Não há nada de “desrespeitoso e ofensivo” no discurso do dirigente petista Isaac Bonfim. Aliás, é preciso dizer que ele não se aplica aos 21 edis, apenas à bizarra bancada bolsonarista de situação e os seus agregados. Outra atrocidade com as ciências políticas cometida na nota é a tentativa de caracterizar a atividade política como uma prática para a qual é desnecessária qualquer “formação acadêmica”, atribuindo a ascensão de um metalúrgico à mais alta posição do Executivo à sua não “formação acadêmica”.

Existe aí uma falsa polêmica e uma atitude covarde de tachar um nordestino, o ex-presidente Lula, de analfabeto. Covarde porque tentam ressignificar um discurso xenofóbico antigo em que tratavam Lula como analfabeto, portanto, incapaz de governar um país imenso, plural e com tantos problemas estruturais tidos como insolúveis. Essa narrativa perdeu totalmente o sentido uma vez que o “analfabeto” fez com que o mundo o escutasse, qualificando-o como um grande estadista e um excelente orador.

A falsa polêmica reside no fato de que o dicionário Aurélio define uma pessoa analfabeta como um “indivíduo que não sabe ler nem escrever; que não possui instrução formal ou desconhece o alfabeto”. E isso não se aplica a nenhum militante de esquerda, muito menos ao Lula, diferentemente do clássico cabo eleitoral da tradicional direita brasileira.

Lula obteve uma formação sindical sólida que engendrou a capacidade cognitiva que o difere da maioria absoluta dos demais ex-presidentes do país (todos com “formação acadêmica”), doutores que tangenciaram as desigualdades, a fome, o desemprego, a educação, a saúde e o desenvolvimento social da população brasileira.

A bancada de vereadores situacionista tem gente com “formação acadêmica”, mas que foi “aperfeiçoada” por uma escola reacionária. Como consequência, se tornarem edis conservadores instrumentalizados pela agenda da extrema-direita. Lamentavelmente, se aproveitam da alienação de parte da população, oprimindo até mesmo pessoas que os elegeram.

Outra parcela de políticos alfabetizados são vítimas de sua própria estupidez. Não alcançam a dimensão do conceito de ciência política enquanto disciplina que se dedica em estudar os sistemas, instituições, processos e fenômenos políticos em um determinado governo ou Estado. Esses, pela ordem, vão a reboque porque não sabem o que estão fazendo, desconhecem o conceito de político com “P”, mas recebem valores nunca antes recebidos, passando a imaginar que ascenderam na escala socioeconômica.  

Tanto os edis de extrema-direita com “formação acadêmica” quanto aqueles sem passagem pela Academia servem ao sistema econômico capitalista e, na política, são devotos do ultraliberalismo. Essa é uma contradição que a população ainda não consegue enxergar, ainda que eles atuem radicalmente contra os interesses daqueles que, de fato, os elegeram, àquelas pessoas que vivem na periferia da cidade, presos a um cinturão de pobreza.

Eles padecem de dois males irremediáveis na política: o “analfabetismo funcional” e a falta de caráter. Há aqueles que, mesmo conseguindo ler e escrever, não apreendem minimamente as contradições sociais, econômicas, culturais e políticas da sociedade em que vive e acompanha os opressores do andar de cima. Outros compreendem tudo isso, mas são favor de quem explora, estupra, extermina, oprime e destrói as políticas públicas. Ambos se apoiam em votos recebidos por meio do falso discurso de mudança social, mas, na prática, votam o tempo todo contra à população.

Portanto, analiso que o debate deverá ser a tônica dos próximos confrontos na arena política municipal, pois não houve arroubo e nem atrevimento do dirigente local do PT e nem o fito de questionar o povo, mas sim o comportamento político dos seus representantes. A meu ver, o dirigente da maior legenda partidária da cidade (do Estado, do país) foi nevrálgico ao evidenciar politicamente a principal “fragilidade moral” da bancada de situação e de seus agregados e, para isso, exige-se estofo intelectual e maturidade.

De vis-à-vis, a prática continua sendo o único critério plausível da verdade. E, a meu ver, só se mensura aquilo que foi mostrado, oferecido como ações de contrapartida desses agentes públicos. As suas atividades não compõem a dimensão da vida privada, um direito inviolável de individualidade uma vez que são servidores públicos municipais pagos pela população. Aliás, se fizermos uma análise de viabilidade com base na relação de custo-benefício, perceberemos que a sociedade paga super-salário a esses parlamentares do município.

Não existe essa possibilidade de “indiretamente” dizer que a população não tem capacidade de escolher seus representantes. Isso é uma manobra para tentar jogar a população conquistense contra uma demonstração inequívoca de um fato indubitavelmente verdadeiro. Isso me lembra muito aquela situação em que o indivíduo percebe que cometeu equívocos incorrigíveis e que pessoas atentas perceberam sintomaticamente, mas usa o subterfugio dos “jus sperniandi” (um falso latinismo, baseado no verbo “espernear”, no sentido de “revoltar-se”) para encobrir a suspeição de “fumus boni juris” – “onde há fumaça há fogo”.

Por fim, não poderia deixar de observar a extensão do “fumus boni juris” nessa narrativa criminosa da direita, uma vez que os mesmos algozes apoiadores do golpe de 2016 distorceram descaradamente um fato histórico. Esse fato foi minuciosamente analisado por 122 juristas brasileiros sobre a sentença do juiz Sergio Moro ao ex-presidente Lula, uma obra intitulada “Comentários a uma sentença anunciada – o processo Lula” (2017). 

O golpe fez água por todos os lados. Ficou evidenciado até mesmo pelos órgãos da imprensa burguesa (Globo, Estadão, etc.) que as eleições de 2018 foram fraudadas por um juiz corrupto e justificadas pela narrativa de classe média de “pós-verdade”. E isso tinha a finalidade de defenestrar o candidato do PT. Agora que Lula foi inocentado, podendo disputar tranquilamente as eleições em 2022 numa posição favorável, admitem cinicamente tal injustiça.

Querem uma permissão do partido para evitar o massacre eleitoral. Portanto, essa gente golpista visa apenas evitar prejuízos com a diminuição do suposto capital eleitoral dessa ou daquela candidatura de extrema-direita dissimulada de direita. Converteram Lula a monge visando merecer a benevolência do PT, mas o fazem sem a autocrítica de suas canalhices políticas e optam pela tradicional bajulação descarada para não perder a xepa.

*Herberson Sonkha é um militante político-partidário desde meados da década de 1980 e é filiado, atualmente, ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), sendo dirigente da corrente interna Fortalecer o PSOL. Atuou como militante no movimento estudantil secundarista (Grêmio, UMES e UBES) e universitário (CA de Economia Celso Furtado). No final dos anos 90, passou a atuar no Movimento Negro, compondo a direção municipal, estadual e nacional da entidade Agentes de Pastorais Negros e Negras do Brasil (APN’s).

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Conquista Repórter.

***Foto de capa: Ascom CMVC.

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