“Educação que transforma”: EJA resiste como chance de recomeço mesmo sem políticas de incentivo
Por Mariana Lacerda - 26 de maio de 2026 - Educação
Em Vitória da Conquista, a Educação de Jovens e Adultos vem transformando vidas, apesar de barreiras como o acesso ao transporte coletivo. Na zona urbana, a oferta de turmas se concentra em escolas mais próximas da região central.
Afonso Ribas
A trajetória da educação pode ser comparada a um rio. Em alguns momentos, o fluxo segue livre, já em outros, o correr das águas se depara com desvios. Ainda assim, um rio nunca perde completamente sua força de seguir adiante. Após precisar abandonar os estudos muito jovem, a moradora do bairro Cruzeiro, Adeni dos Santos Rodrigues, retomou a vida escolar, aos 54 anos, por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Filha mais velha de uma família de nove irmãos, ela se considera uma sobrevivente quando recorda que já precisou beber a água do Poço Escuro nos momentos de maior dificuldade em casa. Na infância, Adeni morou com os pais e os irmãos no bairro Alto Maron e ingressou na Escola Municipal Antônia Cavalcanti da Silva, que à época funcionava na região.
Com o avançar das séries, foi preciso mudar para uma instituição de ensino mais distante. Ela conta que, nesse período, uma jovem do bairro foi assassinada a caminho da escola, o que gerou medo entre os estudantes. Porém, nem isso foi suficiente para que Adeni pensasse em abandonar a educação. “Eu não queria desistir da escola, mas tive que desistir para trabalhar”, lembra.
Ainda assim, quando se tornou empregada doméstica, com apenas dez anos de idade, a menina tentou continuar com os estudos. “Só me deixavam sair depois de fazer tudo. Eu chegava às 8 da manhã e saía às 5 da tarde, para tomar banho em casa e ir para a escola. Aí, na sala de aula, o sono pegava”, revela.

Em 2025, incentivada pela filha e após ouvir o anúncio das matrículas por meio de um carro de som, Adeni voltou para a Antônia Cavalcanti, agora localizada no bairro Cruzeiro, onde reside com o marido. Ela regressou após mais de quatro décadas fora das salas de aula e hoje, com 55 anos, está prestes a completar o Ensino Fundamental por meio da EJA.
Neste ano, cerca de cinco mil estudantes estão matriculados na modalidade, nas zonas urbana e rural. Eles se dividem entre 29 turmas na rede municipal, que oferta o Fundamental 1 e 2 (do 1º ao 9º ano), e 14 turmas na rede estadual, responsável por oferecer o Ensino Médio (1ª, 2ª e 3ª série).
“Sabe aqueles meninos que vão para a primeira escola e, no meio do caminho, querem chorar? Fui eu no primeiro dia de aula”, relembra Adeni. Apesar das inseguranças, ela foi além do portão, conheceu professores e colegas, vislumbrando um novo horizonte em sua vida.
“Eu pensei: ‘acho que tô no lugar certo’. E agora, no último ano, já tô chorando para não ir embora”, comenta a estudante. Ela passará para o Ensino Médio no próximo ano e, por isso, seguirá em outra escola.

Conhecimento que transforma
Também prestes a concluir o Ensino Fundamental, aos 47 anos, Cristione Moura deseja continuar os estudos após deixar a Antônia Cavalcanti. “Eu tomei um curso de cuidadora. Pretendo finalizar na escola e fazer algo na vida”, conta. Além de colega de Adeni, elas são primas. As duas fazem trabalhos juntas e ouvem atentas as explicações dos professores. Tudo isso para aprender o máximo que puderem.
Em pouco mais de um ano de volta ao universo da educação, Adeni consegue enxergar as mudanças que a EJA trouxe para sua vida. A partir da disciplina de Ciências, por exemplo, ela passou a plantar e colher verduras e frutas. “Eu tomo conta de um terreno que é do meu primo e lá eu fiz um mini sítio. Plantei chuchu, maracujá e todo tipo de tempero. Eu aprendi com a professora Karol como manejar terra”, comenta.
Com o conhecimento adquirido em sala de aula, ela mesma faz o adubo. “Você chega lá e vê um pé de tomate, de pimentão, de cebola. E tudo eu aprendi na matéria de Ciências”, complementa. Já a Matemática, outra de suas matérias preferidas, ajuda a dona de casa a lidar com as finanças. Segundo Adeni, ela sempre teve habilidade de juntar um dinheirinho e até ensinou o marido a fazer o mesmo.
A estudante lembra, ainda, que História e Geografia foram disciplinas importantes para conhecer mais sobre o bairro Cruzeiro. “Hoje, a gente tem água potável, canalizada e esgoto. O bairro que não tinha nada, hoje é tudo para mim. Esses tempos, eu vi o Cruzeiro no drone, pela internet, e falei ‘o meu bairro é lindo!’”.

Para a diretora da Antônia Cavalcanti, Valéria Gusmão, além de significar uma nova oportunidade de estudo, a EJA promove autonomia e fortalece a autoestima dos estudantes. “Mais do que ensinar conteúdos, ela transforma vidas ao devolver dignidade, ampliar horizontes e permitir que o aluno se reconheça como sujeito capaz de aprender e conquistar novos espaços na sociedade”, defende a professora.
A EJA também acolhe os estudantes em idade regular que precisam trabalhar durante o dia. De acordo com Valéria, a modalidade tem uma boa procura. “Porém, a permanência nem sempre é a mesma. Devido ao cansaço, à falta de estímulo, à busca de trabalho, ao transporte, à distância”, explica.
Falta de incentivo
Mesmo diante do impacto positivo, a Educação de Jovens e Adultos conta com pouco apoio estrutural, o que diminui o alcance da política que poderia transformar as vidas de mais pessoas. “Não existe nenhum recurso para que a escola ofereça a EJA”, relata a diretora da Antônia Cavalcanti.
Para manter o funcionamento das escolas por mais um turno, as equipes não recebem adicional, explica Valéria. De acordo com a Prefeitura Municipal, sequer há um processo seletivo específico para formar o quadro de professores que atuará na EJA.
Isso acontece também na rede estadual, em que não existe uma seleção voltada para a modalidade, conforme esclarece o Núcleo Territorial de Educação (NTE-20). “O corpo docente é composto por professores do quadro efetivo ou contratados, que podem atuar exclusivamente na EJA ou complementar a carga horária em outros turnos na mesma escola”.
Além disso, apesar das particularidades, a modalidade não conta com um material didático adequado. “Os alunos têm muita dificuldade de aprendizado, são aqueles que deixaram de estudar há algum tempo ou já são idosos”, comenta a professora Karol Oliveira.
Com mais de duas décadas de experiência em sala de aula, ela leciona para esses estudantes há cerca de 12 anos. “A gente ficou sem receber livros todo esse período que eu trabalho com a EJA”, acrescenta.
Atualmente acumulando as disciplinas de Ciências e de Artes na EJA da Escola Antônia Cavalcanti, a professora defende a dedicação dos colegas mesmo nesse cenário. “Os docentes são interessados e eles que vão buscando, a cada dia, suprir esse desafio”, ressalta.

Escassez de transporte
O caminho dos estudos interrompido durante a infância e adolescência segue tortuoso quando essas pessoas buscam uma nova oportunidade na idade adulta. Pois, até mesmo para chegar nas salas de aula, os alunos precisam superar obstáculos.
As aulas da EJA são ofertadas no período noturno, justamente para contemplar as pessoas que trabalham durante o dia, mas não existem horários de ônibus pensados em atender esse público. Para o Cruzeiro, por exemplo, tanto de dia quanto à noite, só há uma linha de ônibus, a R24, que liga o bairro ao Centro da cidade.
De acordo com o Vô de Buzu, serviço disponibilizado pela Prefeitura para acompanhar os horários e trajetos dos ônibus, o R24 passa de hora em hora pelo Cruzeiro. Assim, muitas vezes, os estudantes precisam sair mais cedo das aulas para conseguir pegar o transporte que os levará até o Centro e só então seguir para o próprio bairro em outro ônibus.
Essa é uma demanda que se soma ao problema crônico do transporte coletivo em Conquista. Independente da hora do dia ou da noite, as linhas de ônibus têm sido insuficientes para atender ao fluxo cada vez maior de pessoas que buscam não só o trajeto Bairro-Centro, mas também de um bairro para outro, como é o caso dos alunos da EJA.
Tanto o município quanto o estado apenas viabilizam transporte escolar para os alunos da EJA residentes na zona rural. Em nota, a Prefeitura informou que o atendimento é ofertado de forma parcial na zona urbana, contemplando estudantes de bairros específicos. No entanto, a nota não indica as localidades onde isso acontece e como são definidos os bairros.

Já a Secretaria Estadual de Educação, por meio do NTE-20, orienta que os alunos da EJA da zona urbana busquem a unidade de ensino mais próxima de sua residência. Porém, com pouco mais de 30 escolas estaduais em Conquista, apenas sete ofertam a EJA na cidade. No caso da rede municipal de ensino, dentre as 52 escolas da zona urbana, a modalidade possui somente 17 turmas.
À medida que o bairro se distancia da região central da cidade, vai se tornando mais difícil encontrar a oferta da EJA. Enquanto o Cruzeiro conta com uma unidade própria, outros locais, como os loteamentos Jardim Valéria e Vila Elisa, não possuem turmas para a Educação de Jovens e Adultos.
De acordo com dados da plataforma CadEJA, do Governo Federal, as escolas com a modalidade EJA estão mais concentradas nas proximidades dos bairros Patagônia, Alto Maron e Centro, com algumas unidades nas regiões do Miro Cairo e Zabelê.

Alta demanda
Moradora da Lagoa das Flores, Luciana de Jesus precisa superar todos os dias o desafio da distância para estudar na Antônia Cavalcanti, já que no seu bairro não há turmas da EJA. “Quando eu era criança e ia pra escola muito longe, não aguentava andar, sentia dor nas pernas, cansaço e falta de ar, mas não sabia que tinha problema de coração”, conta.
Diante da situação, ela abandonou os estudos na terceira série e descobriu a doença apenas com 27 anos. Hoje, aos 51, Luciana já passou por duas operações e está de volta aos estudos por meio da EJA.
Junto com outros dois colegas da Lagoa das Flores, todas as noites eles vão assistir às aulas no bairro Cruzeiro. “Estou aqui na luta, fazendo acompanhamento médico e indo para a escola”, comenta.
Tem dias que são ainda mais difíceis. “Eu não aguentava tomar frieza de noite, por isso parei de estudar no frio, porque eu sinto dor no peito”, revela Luciana. Assim, para ela, a possibilidade de continuar com os estudos no próprio bairro faria toda a diferença. “Se tiver aula aqui para nós, se tiver um EJA aqui para nós é bom!”, avalia.
Além da Lagoa das Flores, a EJA da Escola Antônia Cavalcanti recebe alunos dos bairros Guarani, Alto Maron, Primavera, Alto da Colina e Conveima. No total, 116 alunos integram as turmas oferecidas no Cruzeiro.

Sonhos para o futuro
Com pouco apoio do Poder Público, a EJA segue transformando vidas, principalmente, graças à dedicação de profissionais da educação. Apesar de ser um direito garantido pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 99.394/1996), a modalidade não recebe a atenção devida. Diante disso, estudantes temem o fim da Educação de Jovens e Adultos.
“Eu tô concluindo, mas existem os outros que ainda não começaram e gostariam da oportunidade”, analisa Cristione. Sua prima, Adeni, compartilha do mesmo sentimento. Para ela, a EJA possibilitou a realização de um sonho adormecido. Após concluir o ensino médio, a estudante deseja ingressar na universidade e se tornar advogada ou jornalista. “Eu falei com a minha filha que vou trabalhar e mudar a situação desse bairro, não sei porque, mas eu vou”, comenta otimista.
De acordo com as secretarias municipal e estadual de Educação, a criação de novas turmas EJA se baseia também no pedido das comunidades, a partir da identificação da demanda. Para estudantes como Adeni e Cristione, o sonho é que escolas com a modalidade se espalhem por todos os cantos da cidade.
“Espero que a Educação de Jovens e Adultos não pare de jeito nenhum, porque cada um tem o seu sonho, o seu objetivo, e a educação é o caminho”, finaliza Cristione Moura.
*A reportagem é resultado do 1º ciclo da Escola Conquista Repórter de Jornalismo, que visitou quatro bairros periféricos de Vitória da Conquista: Vila Elisa, Cruzeiro, Jardim Valéria e Senhorinha Cairo.
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