Escola Conquista Repórter encerra 1º ciclo de visitas no Senhorinha Cairo
Por Mariana Lacerda
22 de maio, 2026
O encontro aconteceu no dia 16 de maio. Para os moradores, o bairro cresceu, mas a estrutura não acompanhou o desenvolvimento e, por isso, faltam vagas nas escolas, o acesso à saúde é restrito e existem poucos espaços de lazer.
O 1º ciclo da Escola Conquista Repórter de Jornalismo (ECRJ) chegou ao fim, no último sábado, 16, no Loteamento Senhorinha Cairo. No encontro, jornalistas e estudantes da área puderam ouvir a comunidade e conhecer mais sobre a realidade local. A programação também contou com a oficina do projeto de extensão da Uesb, Teatro do Oprimido em Ação.
O objetivo da escuta com moradores é compreender o território e, a partir de então, pensar em pautas que efetivamente correspondam às necessidades da população. O Senhorinha Cairo integra o Zabelê, bairro mais populoso de Vitória da Conquista, segundo o Censo IBGE 2022. Com cerca de 38 mil habitantes, a região engloba ainda os Loteamentos Bateias II, Cidade Maravilhosa, Miro Cairo, Urbis IV, Urbis V e Sobradinho, além das Vilas Serranas.
Para a comunidade, o Senhorinha Cairo cresceu, mas a estrutura não acompanhou o desenvolvimento do local. “Eu acho que o bairro necessitava de uma unidade de saúde própria e mais uma creche ou a ampliação da que temos”, pontua Vanessa Almeida, diretora do Centro Municipal de Educação Infantil Senhorinha Cairo (CMEI), onde aconteceu o encontro da ECRJ.
Ela acompanhou o crescimento da região, sobretudo após a chegada dos residenciais do programa do Governo Federal, Minha Casa Minha Vida, no loteamento vizinho Miro Cairo. Na época, Vanessa trabalhava na Escola Municipal Professora Lisete Pimentel Mármore. “No ano seguinte, tivemos filas esperando [para matricular os alunos], brigas, pais dormindo três, quatro dias na porta, o que nunca tinha acontecido na Lisete”, recorda.
Segundo a diretora, depois dos condomínios, o aumento populacional girou em torno de 12 mil novos moradores e, desde então, a região ganhou apenas mais uma creche pequena. Atualmente, o Senhorinha Cairo conta somente com o CMEI e o Miro Cairo possui uma escola que atende os níveis Fundamental 1 e 2 e duas creches.

Atendimento educacional especializado
“Nós ficamos com uma lista de espera enorme e não temos como dar conta dessa demanda, enchendo as salas e sem ter condição de trabalho”, relata Vanessa. Nesse cenário, a coordenadora da CMEI, Mônica Coelho, destaca ainda a necessidade de atenção às crianças neurodivergentes. “É preciso ampliar o atendimento da educação especializada”, defende.
A CMEI Senhorinha Cairo recebe hoje 16 crianças que demandam essa atenção, contudo não dispõe de um espaço físico para implementar a sala multifuncional, cujos equipamentos já possui. “Quando falamos de atendimento educacional especializado, a gente está se referindo a uma sala onde tem múltiplos recursos direcionados para cada neurodivergência e tem um profissional que faz o atendimento lá no contraturno”, acrescenta Vanessa.
Desse modo, a escola consegue absorver os alunos, oferecendo o ensino regular, ao mesmo tempo em que garante o atendimento direcionado à cada necessidade. “Inclusive, do ano passado para cá se tornou obrigatório: o complementar, para quem tem o laudo e o direito a cuidador, e o suplementar, para quem tem outras neurodivergências”, explica a coordenadora.
A moradora do Senhorinha Cairo Augusta Maria de Jesus é mãe atípica e sabe o que é buscar esse tipo de cuidado e encontrar apenas negativas e portas fechadas. “Meu filho está há um mês sem ir na escola”, revela. Ele estuda na Escola Municipal Frei Serafim do Amparo, localizada na Urbis V. “Lá dizem que ele não pode ir para a escola porque está agressivo. Então, meu filho está em casa, só tomando remédio”, lamenta a mãe.
Segundo ela, a justificativa da escola é a de que a secretaria de Educação não enviou um cuidador e de que, assim, ele está correndo risco e ameaçando outras pessoas. “Querem deixar que o menino fique isolado”, reflete Augusta. “Eu queria que meu filho tivesse a oportunidade de estudar, porque eu preciso trabalhar e com ele em casa, eu tenho que ficar com ele”, complementa.

Avanços que não acompanharam o crescimento
A localização do Senhorinha Cairo é um ponto a favor do bairro. Pela proximidade com as Vilas Serranas, por exemplo, a oferta de ônibus não se torna um problema para os moradores. Além disso, de acordo com a comunidade, um grande marco para o desenvolvimento da região foi a chegada do asfalto há cerca de 15 anos.
Quando isso aconteceu, as casas melhoraram e novas construções surgiram, atraindo mais pessoas. No entanto, os serviços básicos para atender essa demanda crescente não acompanharam. Por isso, chama muita atenção a sobrecarga da educação, da saúde e da assistência social.
Segundo os moradores, atualmente, apenas um posto de saúde e um Centro de Referência da Assistência Social (Cras) são responsáveis por grande parte do Zabelê. De acordo com o site da Prefeitura, esse é o Cras VIII, que atende moradores do Miro Cairo, Henriqueta Prates, Loteamento São Pedro, Cidade Maravilhosa, Senhorinha Cairo, Terra do Remanso, Recanto das Águas, Vilas Serranas I, II, III e IV, Bateias I e II, Urbis IV, Loteamento Cidade Serrinha, Laje Grande I e II, Pacheco, Loteamento Sobradinho e Nova Esperança.
Augusta buscou o Cras porque o médico indicou karatê e terapia para o tratamento do filho, mas, nos dois casos o atendimento foi negado. “Eles me disseram que não tem mais vaga, porque já tem as pessoas certas. Então, é muito pouca vaga para a gente conseguir”, analisa.
A falta de espaços de lazer e de cuidado com a limpeza das áreas públicas também foram pontos citados pelos moradores. Para eles, essa é uma ausência que tem impacto principalmente para a juventude, já que dificulta a convivência e as possibilidades de “viver o bairro”, como definem.

1º ciclo da Escola Conquista Repórter
As atividades no Senhorinha Cairo encerraram o 1º ciclo de visitas da ECRJ, que passou também pelo Vila Elisa, Cruzeiro e Jardim Valéria. Assim, as formações atingiram as zonas Norte, Oeste e Sul de Vitória da Conquista, mobilizando cerca de 40 pessoas.
Mais do que questionar sobre os problemas de cada bairro, a ECRJ chegou onde poucas vezes o jornalismo alcança e, com isso, muitas pautas emergem da própria história de vida dos moradores. A escuta ativa permitiu à equipe conhecer dificuldades encontradas no dia a dia e detalhes de quem vivencia o território.
Algumas pautas comuns aos bairros indicam problemas crônicos da cidade, como a precariedade do transporte coletivo. A situação já foi noticiada pelo Conquista Repórter em 2024, com o especial “Acesso Negado”. A ausência do Poder Público na garantia de direitos também é um denominador comum, quando se fala de lazer e de ações voltadas para a juventude. Já os serviços de saúde foram lembrados na maior parte dos locais pela dificuldade nos agendamentos, poucas vagas oferecidas para os atendimentos e até mesmo pela falta de profissionais.
No entanto, as conversas com os moradores demonstraram, sobretudo, que a periferia de Conquista não é um conceito uniforme. Cada uma das comunidades visitadas possui avanços e desafios individualizados e delimitados, o que somente o contato olho no olho permite acessar.
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