Moradores do Cruzeiro participam de mais um encontro da Escola Conquista Repórter
Por Mariana Lacerda
05 de maio, 2026
A importância do EJA para o bairro e a escassez de linhas de ônibus foram assuntos destacados na reunião. A ECRJ realizou roda de conversa e oficina de Teatro do Oprimido para o combate à desinformação.
No segundo encontro presencial da Escola Conquista Repórter de Jornalismo, realizado no sábado, 25 de abril, moradores do Cruzeiro tiveram a oportunidade de conversar sobre o seu bairro e os principais desafios enfrentados no dia a dia. Dessa vez, as atividades aconteceram na Escola Municipal Antônia Cavalcanti e Silva, com a participação de alunas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e profissionais que atuam na área educacional.
Com isso, as conversas sobre a comunidade ganharam contorno a partir da educação. A Antônia Cavalcanti é um elo entre a maior parte das pessoas que cresceram na localidade, pois foi onde estudaram quando criança, já que a escola funcionava no Alto Maron, bairro vizinho.
O espaço atual da instituição, agora no Cruzeiro, foi entregue à população há cerca de dois anos e, desde então, é uma das 18 escolas que atendem a modalidade EJA na zona urbana de Conquista. “Depois que eu vim para o EJA, a minha mente se abriu. A educação abriu a minha mente”, revela Adeni Rodrigues, moradora do bairro há 30 anos.
Quando criança, ela residia com os pais e os irmãos no Alto Maron e foi uma das alunas da Antônia Cavalcanti. Contudo, com o avançar das séries, foi preciso mudar para uma instituição de ensino mais distante, o que contribuiu para que Adeni abandonasse os estudos na quarta série da época.
Principalmente, era preciso ajudar no sustento da família. “Eu não queria desistir da escola não, eu só desisti para trabalhar”, lembra. Essa também foi a realidade da sua prima e colega do EJA, Cristione Moura. “Optei trabalhar para ajudar em casa”, comenta.

Hoje, Adeni e Cristione, com 55 e 47 anos, estão prestes a concluir o nível fundamental e seguir para o ensino médio. Mais uma vez, porém, a continuidade dos estudos depende de sair do bairro, já que essa etapa é oferecida em escolas estaduais e não há uma unidade com EJA no Cruzeiro. Para elas, essa realidade afasta e desmotiva também os estudantes do ensino regular.
“Como eu trabalho, chego em casa em cima do horário, tomo banho e, rapidinho, já estou no colégio. Se fosse longe, eu não ia conseguir”, explica Cristione. Nesse sentido, Adeni lembra ainda de colegas que se deslocam de bairros distantes todas as noites para assistir às aulas ali no Cruzeiro.
“Se vem gente da Lagoa das Flores, do Nova Cidade, do bairro perto do Hospital de Base, é porque nesses locais não têm turma de EJA. Então, falta inclusive ver além desses e já chamar a atenção para outros”, defende.
O transporte coletivo
De acordo com Adeni, os colegas dependem do transporte público coletivo. Por isso, alguns precisam sair mais cedo para não perder o último horário do ônibus, outros enfrentam dificuldades para estar presente nas aulas todos os dias, devido ao número reduzido de linhas.
Dessa forma, a Escola Conquista Repórter se depara pela segunda vez com o mesmo cenário: a quantidade reduzida de ônibus que tem atendido bairros periféricos da cidade. “Só tem [a linha] Cruzeiro, que passa de meia em meia hora e, no sábado, de hora em hora. Se quebrar esse, a gente fica sem ônibus”, destaca Cristione.

Dados do Censo IBGE 2022 indicam que o bairro Cruzeiro possui uma população de mais de nove mil moradores. Ele engloba três regiões que, pelo tamanho e pelas relações socioeconômicas, são consideradas três bairros distintos: Pedrinhas, Petrópolis e Peru.
Embora o Cruzeiro seja um dos bairros mais antigos de Conquista e possua dois dos pontos turísticos e de lazer mais divulgados pelo Poder Público, o Poço Escuro e o Cristo de Mário Cravo, o acesso pelo transporte público é precário. Em julho de 2024, a Prefeitura finalizou a revitalização do Cristo, com a construção de mirantes, em um investimento de mais de R$ 3,3 milhões.
Olho no olho com a comunidade
O encontro no Cruzeiro integra o 1º ciclo da ECRJ, que atenderá quatro bairros periféricos de Conquista no primeiro semestre de 2026. A proposta é de que as próprias comunidades se tornem protagonistas do processo comunicativo, a partir do diálogo com profissionais da comunicação e jornalistas em formação, além de oficinas de Teatro do Oprimido e de combate à desinformação.
Para participar desta primeira etapa da ECRJ, foram selecionados três bolsistas do curso de Jornalismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). “Estou me desafiando mais e pensando ativamente em como usar o jornalismo para mudar a realidade local e das pessoas”, comenta Inara Silva, uma das integrantes da ECRJ que está no último semestre da graduação.

Antes do 1º ciclo de visitas nas comunidades, as estudantes participaram de oficinas com a equipe do Conquista Repórter sobre as etapas da produção jornalística, desde a construção da pauta até a apuração e construção de um especial multimídia, que será o produto final da ECRJ.
Além disso, foram realizados encontros on-line sobre a utilização de ferramentas de inteligência artificial, com a Agência Tatu, e de jornalismo acessível, com o Instituto Eficientes. Em seguida, tiveram início as etapas de mobilização e realização dos encontros nos bairros.
“Me sinto em um novo meio de educação jornalística. Ter contato com os diferentes tipos de pessoas e realidades, perceber as similaridades do meu bairro ao deles, me faz perceber a profissão com outros olhos”, define Roberta Lima, bolsista do 3º semestre.
Entre os critérios para a definição dos bairros que estão recebendo o 1º ciclo de visitas, a ECRJ considerou o território de origem das estudantes. “Sendo uma pessoa que vive em uma periferia vista pela mídia com estereótipos e apenas lembrada pela violência, (…)vi nesse projeto a oportunidade de inverter o cenário”, complementa a futura jornalista.

Para Fernanda Vitória, estudante do último semestre do curso, vivenciar a prática jornalística nas ruas faz toda a diferença nessa etapa da graduação. “Não é só replicar uma notícia, é estar lá dentro e entender o que aquela comunidade sente. (…) Eu tenho certeza que isso não vai passar despercebido e que eu sempre vou me recordar do que nós estamos vivendo hoje”, conclui.
A realização da ECRJ é viabilizada graças ao apoio institucional do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ) e conta com o suporte pedagógico do projeto de extensão “Teatro do Oprimido em Ação”, da Uesb. Os bairros Vila Elisa, Cruzeiro, Jardim Valéria e Senhorinha Cairo serão os locais atendidos na primeira etapa. Já o 2º ciclo, previsto para o segundo semestre, será realizado em comunidades da zona rural.
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