Institucional

Escola Conquista Repórter reúne moradoras do Vila Elisa para oficinas e escuta sobre o bairro

Por Mariana Lacerda

23 de abril, 2026

Transporte escasso, infraestrutura precária, além da necessidade de mais vagas na creche e na escola foram alguns dos problemas relatados. O encontro aconteceu no dia 18 de abril.

Reunidas na Escola Municipal Neuza Vieira Silva, moradoras do Vila Elisa conversaram com estudantes e profissionais de Jornalismo sobre o bairro, as dificuldades da comunidade e o que é preciso fazer para solucioná-las. O encontro aconteceu no último sábado, 18, dando início às atividades presenciais da Escola Conquista Repórter de Jornalismo (ECRJ).

Além da roda de conversa sobre o bairro, a ECRJ promoveu oficinas de Teatro do Oprimido e de combate à desinformação no WhatsApp. Para as moradoras, foi um incentivo para abordar as questões do dia a dia e, sobretudo, uma oportunidade para serem ouvidas. “É bom ter isso pra gente expor que o bairro é carente de muita coisa”, comentou Neta Gomes, que mora no Vila Elisa há dez anos. 

Atualmente sem uma associação de moradores formalizada, a comunidade se reúne em grupos de WhatsApp para compra e venda ou para receber informações sobre os serviços do posto de saúde e da escola. Na mídia, a sensação geral das participantes é de que o Vila Elisa só aparece quando são tratadas “notícias ruins”, o que cria uma imagem estigmatizada do local e das pessoas que vivem nele.

Desse modo, para quem nunca foi ao Vila Elisa, a imagem do bairro é marcada apenas por episódios de violência. Enquanto isso, aspectos como as potencialidades da região, as próprias necessidades da população e o abandono do Poder Público não são frequentes no noticiário local.

Um grupo de pessoas realiza uma encenação em um pátio coberto. No centro, uma mulher vestida de branco está deitada no chão. Ao lado dela, um homem e duas mulheres com camisetas brancas gesticulam e apontam em sua direção. Ao fundo, cinco mulheres observam a cena em pé. Elas vestem roupas coloridas, como um vestido rosa, uma blusa floral e um vestido amarelo. O ambiente possui pilares brancos, chão de piso claro e vista para um jardim externo.
Oficina realizada em parceria com o projeto de extensão da Uesb “Teatro do Oprimido em Ação”. Foto: Letícia Morais.

Transporte escasso

O loteamento Vila Elisa integra o bairro Espírito Santo, localizado na zona sul de Vitória da Conquista. No Censo IBGE 2022, a região foi considerada a quinta mais populosa da cidade, com mais de 20 mil habitantes que moram nos bairros Espírito Santo, Morada Real, Renato Magalhães, Urbis VI e Vila Elisa.

Mesmo assim, apenas uma linha de ônibus atende o Vila Elisa. Essa foi a principal queixa das moradoras, que contaram que evitam ir para outros bairros ou para eventos promovidos na região central da cidade, porque não sabem se haverá transporte para voltar para casa. 

Segundo elas, nos domingos e feriados só um ônibus é disponibilizado para o bairro. Além disso, não existe uma linha que conecte o Vila Elisa com a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), por exemplo. Os estudantes, nesse caso, utilizam quatro ônibus por dia.

Nas ruas que não são asfaltadas, até mesmo os carros de aplicativo não chegam. “Temos que subir para encontrar o carro na pista. Se a gente adoece, se a criança adoece, a depender da hora, eles não vão na rua”, revelou Enilda de Jesus Almeida, moradora do Vila Elisa há dez anos.  

Preocupação com o futuro

Durante o encontro da ECRJ, foi possível perceber que muitos moradores do Vila Elisa são oriundos da zona rural, de cidades menores da região e até mesmo de Minas Gerais. O desenvolvimento do bairro está associado, portanto, à entrega de imóveis do Programa Minha Casa Minha Vida (MCMV). 

Atualmente, estão sendo construídos outros dois novos residenciais do programa e uma preocupação das moradoras é a oferta de vagas, tanto no Centro Municipal de Educação Infantil José Capitulino Teles quanto na Escola Municipal Neuza Vieira Silva, que oferta o Ensino Fundamental I. Isso porque, no momento, nem todas as crianças são contempladas. 

“O bairro é tranquilo, mas precisa de muitas melhorias, como aumentar a quantidade de salas da escola e da creche, agora que vai vir um outro condomínio com muitas crianças”, lembra Neta. Como mães, as preocupações com o transporte e a educação se relacionam, pois a partir do Fundamental II as crianças passam a estudar em outros bairros, principalmente no vizinho Urbis VI. 

Um grupo de aproximadamente quinze pessoas, predominantemente mulheres e crianças, caminha por uma rua de paralelepípedos.
Após a roda de conversa e as oficinas, a equipe do CR caminhou pelo bairro com as moradoras. Foto: Afonso Ribas.

A incerteza sobre a continuidade dos estudos e a falta de lazer e de ações voltadas para a juventude chamam a atenção, já que, em contrapartida, a violência presente nos noticiários vitimiza, principalmente, os jovens. Para as mães, a implantação de uma base comunitária da Polícia Militar no Vila Elisa faria toda a diferença, oferecendo cursos, atividades para crianças e adolescentes, além de segurança.

Escola Conquista Repórter

O encontro no Vila Elisa foi realizado pela Escola Conquista Repórter de Jornalismo (ECRJ). Neste 1º ciclo do projeto, serão realizadas escutas em quatro bairros periféricos de Conquista. “É a materialização do jornalismo em que a gente acredita, já que as pessoas necessitam de espaços onde possam ser ouvidas de verdade”, destacou a diretora executiva do Conquista Repórter, Victória Lôbo.

A proposta também é de que as próprias comunidades se tornem protagonistas do processo comunicativo. “A ECRJ nasceu com o propósito de descentralizar a comunicação na nossa cidade, criando uma rede de moradores e formando novos comunicadores locais”, explicou Lôbo.

Na primeira experiência, no Vila Elisa, as participantes se envolveram nas atividades, contando suas histórias e apresentando a realidade do bairro. A oficina do projeto de extensão da Uesb “Teatro do Oprimido em Ação”, parceira da ECRJ, foi a responsável pelo primeiro contato e por essa criação de vínculos. 

Um grupo de treze pessoas posa alegremente para uma foto em um pátio escolar coberto. No centro, uma mulher em traje branco e uma criança em um vestido vermelho fazem gestos de coração com as mãos. Ao redor delas, outras mulheres e dois homens sorriem.
Oficina realizada em parceria com o projeto de extensão da Uesb “Teatro do Oprimido em Ação”. Foto: Letícia Morais.

“O resultado desse encontro provou que a nossa aposta em unir arte e jornalismo é uma tecnologia social poderosa”, analisou Victória Lôbo. “Quando unimos jornalismo, educação e arte, deixamos de ser apenas repórteres extraindo histórias e passamos a fazer jornalismo com as comunidades e isso é potente”, conclui. 

A ECRJ conta também com o apoio institucional do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ). Os encontros do 1º ciclo seguem nos bairros Cruzeiro (25/04), Jardim Valéria (09/05) e Senhorinha Cairo (16/05). Já o 2º ciclo, previsto para o segundo semestre, será realizado em localidades da zona rural. 

Se você é morador do Vila Elisa e quer participar do grupo de notícias do bairro, fale com o Conquista Repórter pelo WhatsApp (77) 9992-4805.

Escola Conquista Repórter de Jornalismo

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