Jardim Valéria recebeu o terceiro encontro da Escola Conquista Repórter de Jornalismo
Por Mariana Lacerda
16 de maio, 2026
Queixas sobre o posto de saúde, a ausência de uma base policial e a falta de incentivo ao esporte foram os principais pontos abordados pelos moradores. A penúltima visita do 1º ciclo da ECRJ foi realizada no dia 9 de maio.
O terceiro encontro da Escola Conquista Repórter de Jornalismo (ECRJ) aconteceu no loteamento Jardim Valéria, no dia 9 de maio. As atividades contaram com a participação dos moradores, na Escola Municipal Professora Edivanda Maria Teixeira, para conversar sobre os desafios enfrentados pela comunidade.
“Na verdade, o pobre aqui é muito mal tratado”, afirma Ildete Pinheiro, que mora no bairro há cerca de quatro anos. Ela sintetiza o sentimento da comunidade, que é o de ausência do Poder Público. “O político só aparece na sua porta quando é época de eleição”, continua.
Dentre as queixas dos moradores, estão problemas nos atendimentos do posto de saúde, com a dificuldade de agendar procedimentos, principalmente pela falta de profissionais. Essa realidade já foi noticiada pelo Conquista Repórter em 2021. Também foi destacada a ausência de uma base policial no Jardim Valéria, o que impacta na sensação de insegurança.
Além disso, a maior parte das vias da região está sem pavimentação e alaga em dias chuvosos. Isso acontece com a própria rua da escola, que é também onde está localizada a horta comunitária. Atualmente, 14 pessoas trabalham no local, plantando hortaliças para comercializar no bairro ou na Central de Abastecimento (Ceasa).
Alguns desses trabalhadores participaram do encontro e compartilharam as vivências da comunidade, sobretudo em relação à capoeira que é passada entre gerações, fazendo a diferença na realidade de jovens do Jardim Valéria. “Aqui tem muita criança, é preciso fazer uma coisa melhor para tirar essas crianças da rua, igual a capoeira”, comenta Ildete.

Falta de incentivo ao esporte
De acordo com os moradores, o Jardim Valéria possui iniciativas voltadas ao esporte que atraem o interesse das crianças e adolescentes do local, mas que passam por dificuldades para se manter. É o caso do futebol feminino e do grupo de capoeira, que é ligado ao Capoeira Pelourinho da Bahia e tem à frente o professor Lucas Silva, conhecido como Mestre Graúna.
“A gente só depende de ter um espaço adequado para poder dar aula”, aponta o capoeirista. Segundo ele, anteriormente, os treinos aconteciam na própria Escola Edivanda Teixeira, no turno da noite. Contudo, quando os vigias foram trocados pelo monitoramento por meio de câmeras, o grupo foi proibido de utilizar o espaço.
Desde então, a capoeira passou a ser lembrada apenas para apresentações. “As escolas não abraçam isso com a gente, só quando têm as festas típicas. Capoeira, samba de roda, maculelê, puxada de rede. Quando as escolas precisam, a gente apresenta essa cultura, mas quando passa isso tudo, a capoeira é esquecida”, reflete.

Como Graúna, que começou na capoeira aos oito anos por influência do irmão e do primo, a participante do grupo, Micaele Silva, também seguiu os passos dos familiares. Ela é sobrinha do professor Lucas e ambos continuam transmitindo a capoeira para outras gerações. “Eu comecei por causa dos meus tios, da minha mãe, do meu pai e até da minha avó”, lembra Micaele.
Hoje, o filho de 9 anos da capoeirista também assiste às aulas, que precisam ser realizadas na rua, por falta de espaço. Sem a disponibilidade da escola, o grupo procurou outros locais, como a Associação de Moradores do Jardim Valéria, que cobrou uma taxa de R$300 para a utilização da sede, valor que é impossível de ser mantido pela turma. “Nós não temos apoio, tem hora que temos que tirar do nosso próprio bolso”, explica.
Outra alternativa para as aulas de capoeira poderia ser a quadra poliesportiva, que está sob a gestão da Escola Municipal Anísio Teixeira. No entanto, o espaço, inaugurado em 2019, está em condições precárias.
“Ela [a quadra] está sem luz, sem banheiro, sem porta, com a grade toda quebrada e pichada”, descreve Micaele. Mesmo após tentativas de solicitar reparo à Prefeitura e à Secretaria de Educação, com abaixo-assinado também dos grupos de futebol do Jardim Valéria, a situação não foi resolvida, obrigando os capoeiristas a realizar as atividades na rua.
Horta Comunitária
O loteamento Jardim Valéria faz parte do bairro Jatobá, que agrega também os loteamentos Santa Terezinha, Jardim Sudoeste, Jardim Copacabana, Jardim Copacabana 2, Campo Verde e Conveima II. A região soma mais de 12 mil habitantes, segundo o Censo IBGE 2022.
Foi nesse bairro que a família do professor Graúna e Micaele fincou raízes. A matriarca foi uma das fundadoras da horta comunitária do Jardim Valéria, há cerca de 30 anos. Nos dias de hoje, filhos, netos e até bisnetos trabalham no espaço, com outros moradores, plantando e colhendo para tirar o sustento.

No terreno doado pela Prefeitura, hortaliças como alface, couve, rúcula, coentro, cebolinha, manjericão, dentre outras são cultivadas de forma orgânica, sem o uso de agrotóxicos. “Daqui saiu o dinheiro para eu terminar os meus estudos”, revela Rosemary Silva, irmã de Graúna e tia de Micaele.
Ela conta que foi vendendo os produtos da horta, desde os 13 anos, que conseguiu recursos para comprar o uniforme e as passagens de ônibus para ir à escola. Hoje, no entanto, precisa largar os cuidados com a horta por problemas de saúde. “Fico com o coração partido, mas estou saindo porque preciso. Depois da Covid fiquei com muitas sequelas”, lamenta.
Teatro do Oprimido em Ação
Para abrir as atividades da ECRJ, mais uma vez, o projeto de extensão da Uesb “Teatro do Oprimido em Ação” mobilizou os participantes em dinâmicas que buscam deixá-los à vontade para falar. “O legal é que a gente traz jogos e experimentações em que a gente deixa muito claro de que não existe certo e errado”, explica Gracielle Sant’ana, bolsista do projeto que media os exercícios.
Ela cursa licenciatura em Teatro no campus da Uesb de Jequié, mas vem para Conquista participar de todos os encontros com a comunidade. “A gente estuda sobre o Teatro do Oprimido e temos o objetivo de ser multiplicadores”, destaca.

O Teatro do Oprimido é uma metodologia criada pelo brasileiro Augusto Boal, na década de 1970. Com base em princípios abordados por Paulo Freire, a proposta é transformar o público espectador passivo em sujeito do que está sendo apresentado, sobretudo para debater problemas reais de opressão e desigualdade.
De acordo com Gracielle, a oportunidade de levar o Teatro do Oprimido a bairros periféricos, por meio da ECRJ, corresponde ao objetivo da luta de transformação através da arte. “Tem tudo a ver, porque a gente está falando exatamente de opressão. Como essas pessoas que não são ouvidas, que buscam ser ouvidas ou que, às vezes, as pessoas fingem que as escutam e nada resolvem”, reflete.
Ela fala sobre a estrutura que é pensada para os encontros. “Começamos com alongamento e um jogo de percepção, para a pessoa se auto perceber. Depois vem a questão do espelho, do olho no olho, que é para criar conexão. Então, a gente vai construindo até chegar no teatro imagem, onde você começa a entender que, para se comunicar, não precisa só do diálogo, porque o corpo também fala. Por fim, a gente vem para construção de cena. E eles mesmo constroem a cena do mundo real para o mundo ideal”, descreve Gracielle.
O projeto parceiro da Escola Conquista Repórter é coordenado pelo professor Hayaldo Copque. Depois de passar pelo Vila Elisa, Cruzeiro e Jardim Valéria, a ECRJ realiza o último encontro do primeiro ciclo no Senhorinha Cairo, neste sábado, 16.


