Prefeitura de Tanhaçu tenta proibir realização de roda de capoeira em espaço público
Por Maria Eduarda Leite e Karina Costa - 12 de junho de 2025 - Cultura
Governo do município alega que o grupo não tinha autorização para usar o local em que acontecia a festa de São João. Segundo professor, as atividades acontecem há cerca de dez anos sem necessidade de requerimento formal.
Cassiano Vital da Silva
Reconhecida como patrimônio cultural da humanidade pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), a capoeira é um símbolo de resistência, identidade e memória do povo negro. Na cidade de Tanhaçu, situada a 130 quilômetros de Vitória da Conquista, a gestão municipal tentou impedir essa arte de ocupar um espaço público. A denúncia é do professor Cassiano Vital da Silva Neto, coordenador do núcleo local da Associação Cultural e Artística Memória de Bimba.
Há cerca de dez anos o grupo realiza rodas de capoeira no Centro da cidade. Mas no dia 6 de junho, segundo Cassiano, a Prefeitura tentou inibir a atividade na praça Luís Eduardo Magalhães. “É inaceitável que, ao invés de apoiar, valorizar e reconhecer essa expressão cultural ancestral […] a gestão opte por ações repressivas, chegando ao absurdo de utilizar força policial para intimidar e inibir a realização da roda”, disse o professor em publicação nas redes sociais.
As rodas acontecem sempre na primeira sexta-feira de cada mês, promovendo a valorização da cultura afro-brasileira. Para Cassiano e outros representantes da cultura, o episódio é marcado pelo racismo e pela intolerância. “Não podemos permitir que a ignorância, o autoritarismo e o desrespeito silenciem manifestações que há séculos fortalecem nosso povo e nossa juventude”, afirma o mestre.

Em nota enviada ao Conquista Repórter, a Prefeitura de Tanhaçu alega que “nenhum impedimento prévio foi imposto ao evento de capoeira”. Segundo a gestão municipal, o que houve foi a “realização não autorizada” da atividade no espaço público durante a organização da festa de São João, “que já contava com estrutura montada, cronograma e normas logísticas previamente definidas”.
Entretanto, de acordo com Cassiano, durante os anos em que realiza as rodas, o grupo nunca necessitou de autorização formal para usar a praça. “Não precisa de paredes para ser um espaço cultural”, explica. Ele conta ainda que a festa ocorreria horas depois e, por isso, a atividade não seria um impedimento.
Em imagens da roda no dia 6 de junho, é possível ver bandeirolas e um palco montado, mas as luzes estão apagadas e não há ninguém se apresentando. Sobre o uso da força policial, o governo afirma que os guardas estavam no local “apenas organizando e promovendo a segurança do circuito da festa”.

Acesse aqui e aqui as notas da Prefeitura de Tanhaçu na íntegra.
Reação da comunidade
O caso repercutiu na região. Os Agentes Territoriais de Cultura do Território de Vitória da Conquista (ATC’S), Yan Roberto e Vinícius Rodrigues, publicaram um nota de repúdio à gestão de Tanhaçu. “Esse episódio não é isolado: revela o racismo estrutural ainda presente em muitas instâncias do poder público e representa um atentado direto à cultura afro-brasileira”, diz um trecho do comunicado.
O Centro Educacional de Treinamento Arte Capoeira Escola (CETA) também se manifestou. Para o grupo de Conquista, “tentativas de impedir a capoeira em espaços públicos representam um ataque […] à liberdade de expressão e ao direito de ocupação legítima dos espaços comuns pelo povo”.
Nas redes sociais, comentários demostram solidariedade ao professor e repudiam a ação do governo municipal. “A capoeira resiste como expressão viva […] da nossa herança e de um povo que lutou, resistiu e formou a população brasileira. Essa arte em espaços públicos reafirma a força […] e ancestralidade do Brasil”, escreveu uma internauta em publicação feita pelo professor Cassiano.
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