Editorial: Legislativo conquistense revela uma face obscura e vergonhosa

Por - 20 de outubro de 2021

LGBTfobia escancarada do vereador Adinilson Pereira mostra que estamos muito mal representados na Câmara Municipal de Vitória da Conquista

Que a Câmara Municipal de Vitória da Conquista é composta por vereadores majoritariamente conservadores, elitistas e negacionistas, nós já sabemos. Só em 2021, vários deles fizeram questão de deixar isso bem claro ao apoiar atos golpistas contra o Supremo Tribunal Federal (STF), ao conceder uma moção de aplauso a uma médica defensora do kit covid-19 ou mesmo ao propor, mais recentemente, que o uso de máscaras deixe de ser obrigatório em um momento no qual a pandemia da covid-19 ainda não está totalmente controlada.

Mas a linha entre irresponsabilidade e crime é muito tênue. E há limites que, ao serem ultrapassados, não podem nem devem ser encarados como “uma grande piada de mal gosto”. Nesta semana, o vereador Adinilson Pereira (MDB) apresentou uma moção de repúdio contra a DC Comics, uma empresa estadunidense, por trazer ao seu universo de HQs (Histórias em Quadrinhos) um novo superman assumidamente bissexual. Uma imagem do personagem beijando outro do mesmo gênero viralizou nas redes sociais e veículos de imprensa, após um anúncio feito pela DC, no dia 11 deste mês.

O incômodo foi tamanho para o Sr. Adinilson que, em vez de gastar seu tempo como parlamentar buscando melhorias para a vida da população e fazendo jus ao seu salário de R$12.025,50, ele resolveu repudiar publicamente o anúncio de uma corporação para quem sua existência é simplesmente insignificante. Além de complemente absurda, irrelevante e ridícula, a moção do vereador representa uma forma escancarada e vergonhosa de LGBTfobia, que, desde junho de 2019, é considerada crime de racismo pelo STF. E é assim que a atitude do vereador deve ser tratada: um crime.

Se pegarmos o exemplo do presidente Jair Bolsonaro, veremos que o Brasil tem respondido a crimes como esse, entre tantos outros, com mais notas de repúdio. Até quando o sentimento de impunidade será uma regra para pessoas que, cotidianamente, são vítimas de violência, opressão, preconceito e discurso de ódio por parte daqueles que ocupam os espaços de poder? Desde que a moção do vereador Adinilson virou alvo de polêmicas, o seu próprio partido e outras entidades políticas, o condenaram veementemente pela sua atitude, mas em praticamente nenhum momento ela foi classificada como crime. Não adianta morder e assoprar.

Princípios cristãos e bíblicos não podem nem devem ser usados para justificar o injustificável. O mínimo que um representante político eleito pelo povo deve a todos os cidadãos e cidadãs, independentemente de seu gênero, cor, orientação sexual ou crença, é respeito. Se aprovada, a moção do Sr. Adinilson Pereira mostrará que a luta contra o lado obscurantista e retrógrado da Câmara de Vitória da Conquista está longe de ser vencida por todos e todas que vivem a face mais cruel da opressão causada pelo moralismo cristão e pelo patriarcado que se impõe sobre a política local e nacional.

Capa: Reprodução Instagram / DC Comics

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