Raquel Dantas: “Existe uma cena rica de rock na cidade, mas falta valorização e um olhar atento”

Por - 12 de junho de 2026 - Cultura

Neste sábado, 13, a artista e pesquisadora lançará a segunda edição do livro “A Conquista do Rock”. A obra reúne memórias e personagens da música independente de Vitória da Conquista.

Uma mulher sorridente com cabelos longos, escuros e ondulados posiciona-se no centro, entre dois cavaletes de madeira clara que expõem ilustrações em preto, branco e vermelho. Ela veste uma blusa de gola alta na cor marrom, calça preta e usa um crachá pendurado no pescoço. O fundo é uma parede lisa em tom claro. O crachá traz a identificação "Raquel Dantas" escrita à mão. Lua Ife

Em 2010, Raquel Dantas, uma apaixonada por música, decidiu se aprofundar nas histórias das bandas de rock de Vitória da Conquista para registrar tudo em um livro. Intitulada “A Conquista do Rock”, a obra foi publicada em 2017 e documentou o trabalho de mais de 40 conjuntos musicais de subgêneros como o grunge, punk e heavy metal, além de trazer depoimentos e materiais raros.

Quase dez anos depois, em 2026, ela apresenta ao público o segundo volume do livro, que dá continuidade ao propósito de conhecer e divulgar o que acontece na cena local. Financiada a partir da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), a publicação, para Raquel, é uma conquista política e social, considerando o estereótipo que existe sobre os rockeiros. “Perceber que agora tenho um registro físico contando com esse apoio é entender também que estamos evoluindo”, comenta a autora.

Muita coisa mudou para melhor desde 2010. Os registros de músicas nas plataformas de áudio e vídeo, ao invés de CDs físicos, facilitaram a descoberta de novos artistas. Mas ainda houve desafios durante o processo de escrita, como a falta de informações públicas sobre algumas bandas. “Foi fácil e não foi ao mesmo tempo. Eu não queria que a leitura se tornasse cansativa. Não adianta escrever muito sobre uma banda e produzir só um parágrafo sobre outra”, conta Raquel.

Para a autora, a expectativa é que o livro possa ser usado como material de pesquisa por outros pesquisadores, jornalistas e fãs da música local. “Penso que esse trabalho de pesquisa será enriquecedor porque tem muita gente começando agora, muito trabalho para ser lançado e gente compondo, então, é uma cena com vários períodos de renovação.” 

Raquel acredita que o livro surge para mostrar que existe uma grande quantidade de projetos musicais na cidade esperando para serem conhecidos. “Eu espero que as bandas, artistas, público, produtores e agentes culturais, juntos, criem mais oportunidades para o crescimento da cena musical em Vitória da Conquista. Que esse livro chegue a cada um deles e sensibilize, porque existe uma cena rica na cidade, mas não há uma valorização e um olhar atento”, completa.

Confira abaixo a entrevista com Raquel Dantas feita por Danilo Souza, estudante de Jornalismo na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e colaborador do Conquista Repórter.

Danilo Souza: Você publicou o primeiro volume do livro “A Conquista do Rock” há quase dez anos, em 2017. De lá pra cá, muita coisa mudou na forma de registrar e documentar as memórias da cena. O que te levou a fazer um segundo volume dessa obra?

Raquel Dantas: Já era uma vontade dar continuidade à pesquisa por conta de novas bandas e projetos que estavam surgindo, porém, precisava pensar em formas de conseguir apoio para a segunda edição, visto que queria lançar de forma independente. Foi então que resolvi me inscrever para o edital “A Bahia Que Escreve”, da PNAB [Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura] do estado, e foi uma surpresa ter sido selecionada. Com isso, consegui montar uma equipe e ter um produtor, o Micael Aquillah, para viabilizar um projeto com qualidade melhor. Outro fator que contribuiu foi que eu não começaria do zero, apenas iria atualizar e acrescentar algumas coisas que estavam se destacando na cidade. 

Danilo Souza: O que você acredita que mudou na cena da cidade neste intervalo de tempo entre os dois volumes?

Raquel Dantas: Percebi uma grande quantidade de projetos solos sendo lançados na internet, mas que não consegui registrar por conta do prazo de lançamento, e que são muito recentes, como o Lará, artista do Rio de Janeiro que mora em Vitória da Conquista e lançou o seu primeiro álbum, o Neto Fernandes, que também lançou um projeto com várias participações, incluindo o Teago Oliveira, da Maglore, tem a Lupuna, que nasceu com a representatividade da Lorena Marinho nos vocais e lançou o seu primeiro trabalho, tem a Joy, que está preparando o seu primeiro EP, o “Lado A”, e muitos outros. Felizmente, consegui registrar o trabalho da cajupitanga, da Pipa, da Outra Conduta e da Headless Queen, que são grandes representantes da cena atual. Em relação aos festivais, há de destacar que, ao mesmo tempo que alguns evoluíram, tais como o Festival Suíça Bahiana, o Point do Rock e a eclosão do Morfic Fest, produzido pelo Maurício Franco, da banda Mórficos, entre outros, houve uma diminuição drástica na quantidade de festivais realizados. Antes havia o Festival da Juventude, o Avuador e o Natal da Cidade, já hoje são pouquíssimos e resistem com pouco apoio.

Danilo Souza: De que forma os festivais ajudaram a renovar esse cenário e o público ao longo dos anos?

Raquel Dantas: Os festivais contribuem para a resistência das antigas e novas bandas na cidade. Se uma banda nasce hoje, seja autoral ou cover, ela precisa de um lugar para tocar e formar o seu público. O artista precisa se apresentar para se manter e crescer, então, na medida que o produtor abre esse espaço, estimula a permanência dessas bandas e o surgimento de novas. Ninguém quer montar um projeto pra ficar só no quarto. E o público também necessita desses eventos para aumentar o seu repertório cultural e se divertir.

Danilo Souza: Falando nisso, existe alguma descoberta, seja de bandas que você não conhecia ou histórias dos bastidores, durante a pesquisa, que tenha te surpreendido? 

Raquel Dantas: Muitas. Mas a que mais me impressionou foi a cajupitanga. Descobri por meio da matéria no Conquista Repórter sobre o lançamento do álbum “Próximo”. Nunca tinha visto algo sobre a banda e descobri que era um projeto de integrantes que são de Vitória da Conquista, mas que hoje moram em outras cidades. Conforme fui aprofundando na pesquisa, o duo estava lançando mais e mais coisas na internet. Me surpreendi tanto pela quantidade de informações quanto pela qualidade do som. Não conhecia e curti muito. 

Livro de capa dura na cor rosa sobre um fundo rosa. A capa traz a ilustração em traços pretos de uma grande ave com asas abertas voando acima de uma gaiola aberta com pássaros saindo de dentro dela. O título na capa é A Conquista do Rock.
A primeira edição da obra de Raquel, lançada em 2017, documentou o trabalho de mais de 40 conjuntos musicais de subgêneros como o grunge, punk e heavy metal. Foto: Divulgação.

Danilo Souza: Quais foram as dificuldades para reunir memórias, documentos, relatos e histórias da cena independente?

Raquel Dantas: Foi fácil e não foi ao mesmo tempo. Algumas bandas já tinham praticamente tudo na internet, desde release até entrevistas e matérias recentes, como a Cama de Jornal, Dona Iracema e Distintivo Blue. Já outras, eu troquei algumas palavras e descobri muita coisa, como a cajupitanga, a Pipa e Outra Conduta. A dificuldade maior foi por conta do prazo e também porque muitas bandas não tinham um release e nem entrevistas na internet. Seria muito difícil começar do zero com pouco material, então precisei selecionar as mais acessíveis. Eu até falo sobre isso na introdução do livro, porque eu não queria que a leitura se tornasse cansativa, não adianta escrever muito sobre uma banda e produzir só um parágrafo sobre outra.

Danilo Souza: Qual foi o momento mais simbólico da trajetória do rock conquistense para você, especificamente nesse recorte de nove anos (2017-2026) entre os dois volumes?

Raquel Dantas: Depois que lancei a primeira edição, muitas bandas acabaram, a exemplo de Krathera, Nobres Companions, Os Barcos, Time Flys, Recrucifixion, Dreadful Trace, Dost, então, penso que o momento do processo de escrita do primeiro volume, entre 2014 e 2015, foi bastante significativo para a construção de um registro sobre a cena local. Hoje, penso que, daqui uns anos, esse trabalho de pesquisa será mais enriquecedor para pesquisadores futuros, porque tem muita gente começando agora, muito trabalho para ser lançado e gente compondo, como Carol Ivo e Geisy Meireles, então, é uma cena com vários períodos de renovação. 

Danilo Souza: No fim de 2010, ainda era possível achar uns CDs por aí. Hoje, as produções são praticamente 100% digitais. Como isso aconteceu no cenário independente da cidade? A internet ajudou para que mais bandas surgissem ou, caso elas já existissem, facilitou para apresentar novas músicas para as pessoas?

Raquel Dantas: Sim. Com certeza! Eu destaco isso no livro, inclusive foi o que me motivou a continuar a pesquisa, pois enquanto escrevia, a banda 1 Em Pé 2 Alados estava disponibilizando músicas no YouTube. Não precisamos ir para um show para conhecer o trabalho autoral das bandas por conta das plataformas digitais. Porém, o que descobri na pesquisa é que muitas pessoas não buscam bandas e artistas novos. Isso é nítido quando você pergunta sobre o que elas acham da cena atualmente, vão dizer que não existe nada de bom ou que o rock morreu, e isso tem mais a ver com a resistência de quem ouve, porque Vitória da Conquista recebe bandas e artistas novos todo ano e tem representantes na cena que se destacam fora do estado, como a Dona Iracema, Cama de Jornal, Benjamin, etc. Falta disposição para a pesquisa.

Danilo Souza: Este é um livro feito a partir de políticas públicas. De certa forma, isso faz com que essa obra ganhe um significado de resistência política e cultural. Como você observa isso?

Raquel Dantas: Ter um projeto de livro sobre o rock local selecionado por meio de um edital de fomento à cultura é saber que existe uma valorização para esses temas. Fiquei surpresa porque sei também que ainda existe um preconceito sobre o rock, já tive dificuldades em divulgar exposições de arte sobre o tema. Perceber que agora tenho um registro físico contando com esse apoio é entender também que estamos evoluindo.

Danilo Souza: Qual legado você espera deixar com o livro? Pode se dizer que ele vai ser um ponto de partida para outras pessoas que decidam seguir documentando a cena?

Raquel Dantas: Sim. Eu espero que as bandas, artistas, público, produtores e agentes culturais, juntos, criem mais oportunidades para o crescimento da cena musical em Conquista. Que esse livro chegue a cada um deles e sensibilize, porque existe uma cena rica na cidade, mas falta valorização e um olhar atento. Que outros pesquisadores e escritores também ampliem esse olhar e se sintam instigados a explorar o tema. O registro é um trabalho que nunca acaba, sempre vão existir festivais, bandas e públicos que movimentam a música local. 

*Danilo Souza é estudante de Jornalismo na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e escreve sobre música para os portais Scream&Yell, Jornal Nota e Musicult.

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