Sem apoio da Prefeitura, estudantes arrecadam doações para Casa Dandara dos Palmares

Por - 10 de junho de 2026 - Radar Solidário

Sob ordem de despejo, jovens quilombolas buscam fundos para custear aluguel de um novo imóvel por meio de vaquinha solidária. A prefeita Sheila Lemos encerrou o suporte financeiro em dezembro de 2025.

Prédio residencial de três andares pintado em azul. O edifício possui janelas com grades no térreo e no primeiro andar. No segundo andar, há uma sacada recuada com parede interna branca, porta e janela verde-claras protegidas por uma grade de ferro. Paulo Vitor Rocha

Sem o apoio da Prefeitura de Vitória da Conquista desde dezembro de 2025, os jovens residentes da Casa do Estudante Quilombola Dandara dos Palmares correm contra o tempo em uma tentativa de manter o espaço. Por meio de uma vaquinha solidária, o grupo busca arrecadar fundos que possibilitem o aluguel de um novo imóvel de forma independente.

Com a meta inicial de R$ 3.600,00, a campanha foi uma alternativa encontrada diante da ordem judicial de despejo obtida pelo proprietário do imóvel, que impõe a desocupação forçada do prédio atual na primeira quinzena de junho. “Desde quando tudo começou, estamos em uma luta incessante para tentar resolver a situação, chamando à responsabilidade o poder público. Até o momento, nenhuma solução foi dada, apesar das muitas promessas feitas”, explica o estudante e coordenador da casa, Paulo Rocha.

O aluguel do imóvel, no bairro Alto Maron, era pago pela Prefeitura. Mas, seis meses atrás, a Secretaria Municipal de Igualdade Racial anunciou o encerramento do apoio financeiro sob a justificativa de impasses documentais e jurídicos ligados ao Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, além de problemas estruturais no imóvel. A gestão também argumentou que o orçamento municipal deveria priorizar moradores locais, questionando o fato de a casa abrigar estudantes vindos de outros municípios da região.

As alegações foram contestadas pelos estudantes. No dia 15 de dezembro, o grupo disponibilizou, por meio do Instagram, o regimento interno, o estatuto da Associação dos Estudantes Quilombolas e do Pré-Vestibular Dandara dos Palmares, além de ofícios encaminhados à gestão sobre a necessidade de renovação do contrato de aluguel. Além disso, entidades ligadas ao movimento negro endossaram que o argumento geográfico da Prefeitura ignora o papel histórico de Vitória da Conquista como polo universitário regional, que atrai jovens para estudar em instituições públicas e privadas de ensino.

Segundo os estudantes, diante do impasse, os vereadores Alexandre Xandó e Márcia Viviane destinaram emendas para auxiliar no custeio do aluguel da casa, mas os recursos não puderam ser executados devido à negativa da Administração Municipal. Eles também contam com emenda parlamentar do deputado estadual Fabrício Falcão para a aquisição de móveis para a nova casa, além de manter diálogo com o Ministério da Igualdade Racial em busca de apoio institucional.

Permanência em risco

Passados meses de promessas não cumpridas, o impacto do abandono se reflete no esvaziamento e no desgaste psicológico dos residentes. A casa, que nos últimos 18 anos funcionou como um importante espaço de acolhimento para estudantes, viu seu número de habitantes reduzir de 23 para 12 integrantes devido à situação. Atualmente, apenas cinco pessoas permanecem residindo no imóvel por falta de alternativas de moradia, enquanto as demais aguardam uma solução para poderem retornar.

“Algumas das residentes ficaram notadamente abaladas, sobretudo pela pressão que já têm de enfrentar nas universidades”, relata Paulo. O estudante explica que, desde o início do impasse, o grupo mantém uma luta incessante para tentar resolver a situação de forma duradoura, chamando o poder público à responsabilidade, mas nenhuma resposta concreta foi dada de forma imediata. 

Em quase duas décadas desde a fundação, a iniciativa, criada a partir do Pré-Vestibular Dandara dos Palmares com o intuito de ampliar o acesso de jovens quilombolas e indígenas às universidades, beneficiou cerca de 300 estudantes. A campanha de doações busca honrar o legado da professora Elizabeth Ferreira Lopes Moraes, idealizadora do projeto e figura importante do movimento negro de Vitória da Conquista.

Para colaborar com a permanência dos estudantes quilombolas, é possível doar qualquer valor por meio do site da vaquinha. O apoio também se dá através do compartilhamento e da divulgação da campanha em redes sociais e grupos de WhatsApp.

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