Editorial | Quilombos seguem à margem das prioridades de governo na gestão Sheila Lemos

Por - 30 de março de 2026 - Direitos Humanos

Mesmo com a contratação de empréstimos milionários, os quilombos rurais do município não recebem recursos para obras como a construção de uma ponte ou manutenção das estradas.

Ponte de concreto em construção sobre um rio largo. A estrutura atravessa a água, com toras de madeira e vigas metálicas aparentes sobre a base cinza. Nas margens, há montes de areia clara e vegetação densa com árvores verdes. O sol brilha intensamente ao fundo, refletindo luz amarelada na superfície da água e no céu claro. Ingrid Queiroz

A quem interessa manter comunidades quilombolas inteiramente isoladas em Vitória da Conquista? Quem lucra com a privação do direito de ir e vir e com as barreiras de acesso dessa população a serviços básicos como saúde e educação? Afinal, se tem (e como tem) pessoas perdendo nessa conta mal resolvida, certamente tem alguém ganhando. E para ganhar, o lucro não precisa ser gerado a partir do trabalho, da mão de obra (ou de mãos à obra). Ele pode ser fruto do oposto disso: da falta de ação.

Vejamos um exemplo concreto. Se a Prefeitura de Vitória da Conquista escolhe ignorar a reivindicação legítima de um quilombo como o Barreiro pela construção de uma ponte sobre o rio que separa a comunidade da estrada que dá acesso ao distrito mais próximo, consequentemente, o governo municipal não precisará investir recursos públicos para solucionar o problema, mesmo contraindo recorrentes empréstimos milionários. Ou seja, terá feito uma economia.

Claro que a insuficiência de recursos para atender a todas as demandas de um território tão extenso como a terceira maior cidade da Bahia poderia ser (como geralmente é) usada como desculpa para justificar tamanho descaso, que leva a localidade em questão a ficar literalmente apartada em períodos chuvosos ou então a recorrer a barcos e improvisos para atravessar o rio. Mas quais são os critérios definidos para escolher onde os recursos disponíveis serão investidos?

Cinco anos depois de pessoas da comunidade precisarem ser resgatadas por helicóptero para se salvarem da enchente que assolou o município em 2021, nada foi feito, mesmo com a repercussão nacional do caso. Por quê? Será que a falta de recursos dá mesmo para ser usada como desculpa num caso como esse, passado todo esse tempo?

Conforme denunciado pelo Conquista Repórter no dia 23 de março, diante da inação do Poder Público, os próprios moradores se juntaram para construir uma ponte. Ainda assim, a via de acesso ficou submersa pela água depois das últimas chuvas e da abertura de comportas de uma barragem em Minas Gerais. O problema, portanto, segue sem solução definitiva.

Em outro extremo do município, no Território Quilombola Lagoa de Maria Clemência, composto por 12 comunidades, também é a própria comunidade que se mobiliza através de mutirões para consertar as estradas precárias que os privam até do socorro que poderia ser prestado por ambulância em momentos de emergência. “O Poder Público não nos responde, não fala nada”, nos disse o presidente do Instituto Quilombola do Sudoeste Baiano, Zezito Ferreira.

Seguimos questionando até quando o silêncio e a invisibilidade irão ditar a postura da gestão Sheila Lemos frente às demandas dos quilombos de Vitória da Conquista, e até quando essas comunidades seguirão sendo colocadas à margem das prioridades de governo.


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