Aumento na vazão do Rio Pardo deixa Quilombo de Barreiro isolado na zona rural de Conquista
Por Mariana Lacerda - 23 de março de 2026 - Política
Após as enchentes de 2021, os próprios moradores construíram uma ponte. Com as fortes chuvas e a abertura de comportas de uma barragem em Minas Gerais, a via de acesso fica submersa.
Ingrid Queiroz
Em todo período chuvoso, a situação se repete. Com o aumento do nível das águas do Rio Pardo, na última semana, moradores da comunidade quilombola de Barreiro têm encontrado dificuldades para sair e chegar em suas casas. Próximo ao distrito de Inhobim, o povoado está localizado a cerca de 90 km da sede de Conquista. “Quando o nível do rio sobe, ficamos sem acesso, tendo só o barco para poder atravessar e chegar na cidade”, relata Ingrid Queiroz, coordenadora do quilombo.
Diante da situação, a própria comunidade se mobilizou para a construção de uma ponte sobre o rio, após as fortes chuvas de dezembro de 2021. No entanto, com os temporais frequentes, a ponte fica completamente submersa. “Resumindo em poucas palavras, necessitamos de uma ponte para termos dignidade de ir e vir, sem tantos transtornos e sem correr perigo de vida”, explica o lavrador Giliard Pereira.
De acordo com Ingrid, 45 famílias residem na localidade. São pessoas cujas raízes e descendência construíram a história do quilombo, sempre marcada pelo mesmo problema. “Isso já acontece há mais de 200 anos. Nossos antepassados falavam que, quando o rio estava cheio, eles andavam a cavalo por dois ou três dias até chegar numa cidade para comprar o alimento e voltar para casa”, conta.
Mesmo hoje, os moradores do Barreiro se sentem presos àquela época. “Será que o Poder Público vai tentar nos explicar porque nós ainda estamos vivendo nesse tempo? Século 21 e a gente está passando por isso”, lamenta Reinaldo Ferreira, trabalhador rural que vive na comunidade.

Reinaldo lembra das pessoas que enfrentam ainda mais dificuldades, como idosos e gestantes. “Até para fazer uma feira, a gente tem que sair da pista, andar meia hora, depois pegar um barco para atravessar.” A falta de uma ponte impede o acesso a serviços básicos, como saúde e educação. “Se a pessoa adoece, o socorro não pode chegar até nós e nós também não conseguimos chegar até eles.”
Segundo os moradores, com o grande volume de água, a comunidade fica de 60 a 90 dias sem poder transitar. “Geralmente a cheia é em outubro, novembro e dezembro, mas, como o clima está mudando, neste ano veio agora no mês de março”, esclarece Ingrid.
“Nós por nós”
Durante os temporais de dezembro de 2021, o nível das águas do Rio Pardo subiu e os moradores do Barreiro foram socorridos com a ajuda de um helicóptero. Na época, Conquista foi a cidade baiana com o maior número de comunidades quilombolas atingidas pela enchente.
“Aqui sempre foi uma comunidade esquecida. A gente só veio ter uma visibilidade em 2021, por conta do helicóptero que veio tirar a gente daqui”, ressalta Ingrid. “O rio teve uma grande cheia, que derrubou casas, e tivemos o alerta de que a Barragem Machado Mineiro poderia se romper”, recorda a coordenadora do quilombo. O nível das águas do reservatório, localizado em Minas Gerais, repercute na vazão que chega ao Barreiro. Assim, hoje em dia, quando a barragem abre suas comportas, a comunidade é avisada.
“Quando retornamos para nossas casas, nós, moradores, nos unimos e assim fizemos nossa ponte”, continua Ingrid. Ela conta que a comunidade se juntou a fazendeiros da região e cada um ajudou como podia, com um saco de cimento, mão de obra ou cozinhando para alimentar quem estava trabalhando na construção da ponte. “Aqui a gente sempre viveu nós por nós, nunca tivemos esse tipo de ajuda.”
O que diz a Prefeitura
Em publicação no site institucional, o governo municipal informou que monitora a vazão do Rio Pardo na comunidade quilombola de Barreiro, que é a localidade mais impactada com as cheias. De acordo com a Prefeitura, a abertura de comportas na Barragem Machado Mineiro reflete no aumento da vazão de água do rio de forma temporária, podendo causar impactos, “como o risco de alagamento nas residências, atividades de trabalho e de recreação próximas às margens do Rio Pardo”.
Ainda segundo o texto, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural está realizando a manutenção da estrada que liga o povoado a Três Lagoas, na região de Inhobim, via alternativa de acesso com a ponte submersa.
O Conquista Repórter solicitou posicionamento do governo municipal sobre uma solução definitiva para a demanda histórica da comunidade, se existe algum projeto para a construção de uma ponte na região, mas não recebeu resposta até a publicação desta notícia.
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