Editorial | O impasse do Unimec e o risco de colapso na Saúde em Conquista

Por - 9 de março de 2026 - Saúde

O encerramento do contrato entre a Prefeitura e o Hospital deixa ainda mais vulneráveis as pessoas que dependem do SUS, sobrecarregando um sistema no qual a superlotação das unidades de saúde já é um dos principais problemas.

Secom/PMVC

Há cerca de um mês, o Hospital Unimec anunciava o encerramento do contrato firmado com a Prefeitura de Vitória da Conquista, por meio do qual garantia atendimentos de urgência e emergência a pacientes do SUS, além de leitos clínicos e cirúrgicos. Passado esse período, a retomada do serviço, que ajudava a desafogar a alta demanda de atendimento em outras unidades de saúde do município, permanece incerta, mesmo após a Justiça determinar o restabelecimento imediato das atividades pelo período de 180 dias.

A decisão judicial foi proferida no dia 2 de março pela 2ª Vara da Fazenda Pública de Conquista, acatando uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA). No documento, o órgão alertou para a sobrecarga da rede municipal de saúde em razão da interrupção dos serviços. Em caso de descumprimento da medida, o Unimec terá que pagar multa diária no valor de R$5mil.

Em nota, o hospital reforçou o principal argumento utilizado para justificar a suspensão dos atendimentos desde que anunciou o encerramento do contrato: inviabilidade financeira. Afirmou ainda que a unidade sequer possui escala de profissionais para atendimento ao SUS na modalidade de pronto socorro, que só no último ano recebeu cerca de 28 mil pacientes, segundo apuração do Blog do Sena.

A pergunta que fica é: para onde vão as dezenas de milhares de conquistenses que procurariam os serviços de urgência e emergência do Unimec em 2026? Como e em que condições as demais unidades de saúde geridas pelo município e pelo estado irão absorver toda essa demanda numa conjuntura em que a superlotação já é um dos principais problemas enfrentados por quem depende do SUS?

Ex-secretária municipal de Saúde, a vereadora Viviane Sampaio foi enfática ao tratar do assunto no plenário da Câmara no dia 11 de fevereiro: “A UPA e o Hospital São Vicente já funcionam no limite. Essas unidades não vão suportar o volume de atendimentos, principalmente os de menor complexidade”, disse. Ela associou o rompimento do contrato ao corte de R$72 milhões no orçamento da pasta para 2026, aprovado na Lei Orçamentária Anual.

Ainda no dia 10 do mês passado, a Prefeitura informou que teria antecipado medidas para reestruturar os fluxos de atendimento hospitalar no município, a fim de absorver a demanda do Unimec. Mas foi só no dia 2 de março que a gestão municipal divulgou os detalhes do plano emergencial de contingência, que incluiu a ampliação das equipes de duas unidades de saúde da família e a oferta de atendimento a casos de menor complexidade no período noturno (17h às 22h) na Policlínica de Atenção Básica Dr. Admário Silva Santos e no Centro de Saúde Régis Pacheco, que já vinham atuando nesse formato.

Ao analisar o ofício por meio do qual o Unimec comunicou à Secretaria e ao Conselho de Saúde o encerramento da prestação de serviços para o município, fica evidente que, para além da inviabilidade financeira, a irresponsabilidade e má gestão administrativa da Prefeitura também contribuíram diretamente para o fim da parceria com o hospital. Segundo a direção da unidade, o contrato com a administração municipal estava no 6º aditivo e tinha se encerrado no dia 27 de dezembro de 2025, não sendo mais objeto de renovação.

Antes disso, o Unimec afirma ter informado diversas vezes, por meio de reuniões e ofícios, que não tinha interesse em dar continuidade ao serviço em decorrência da inviabilidade econômica do contrato, tendo em vista a insuficiência dos valores praticados e repassados pelo município para cobertura dos custos operacionais e manutenção da equipe assistencial. O documento cita ainda que o histórico de demora e atrasos nos repasses dos pagamentos agravaram ainda mais a situação, trazendo inclusive riscos ao funcionamento e existência da entidade.

Se nem mesmo o hospital confiou em manter o vínculo com a gestão municipal diante dessas condições, como a população pode confiar que não será deixada desassistida em um cenário que a própria administração provocou? A decisão judicial pode até impor uma solução provisória, mas não resolve o problema central. Sem planejamento, transparência e responsabilidade na condução da política de saúde, o risco é que a crise apenas mude de endereço, recaindo, mais uma vez, sobre quem depende exclusivamente do SUS para ser atendido.


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