Editorial | Vitória da Conquista: uma cidade exemplo em (i)mobilidade urbana
Por Da Redação - 15 de setembro de 2025 - Política
Em publicação, Prefeitura afirma que mudanças e extinção de linhas de ônibus têm a intenção de diminuir o sedentarismo da população. Alterações afetam apenas a periferia.
Secom/PMVC
Na última sexta-feira, 12 de setembro, a Prefeitura Municipal anunciou mudanças no transporte coletivo de Vitória da Conquista, que envolvem fusão e extinção de linhas, e foram justificadas com argumentos relacionados à saúde da população. A ideia de que deslocamentos a pé por 500 metros ou mais seriam uma estratégia de combate ao sedentarismo aparece como parte da narrativa oficial. Contudo, a realidade mostra que tais mudanças atendem, sobretudo, a uma lógica de redução de custos em linhas consideradas pouco rentáveis, e não à promoção efetiva da mobilidade ou da qualidade de vida.
A ideia de que reduzir o atendimento de determinados trajetos estimularia hábitos mais saudáveis ignora a realidade conquistense. Não existem calçadas adequadas, ciclovias seguras ou espaços contínuos de caminhada nas periferias. Pelo contrário, ruas esburacadas, iluminação precária e insegurança desestimulam a permanência dos moradores nesses trajetos. O argumento do combate ao sedentarismo soa deslocado em uma cidade que sequer preserva equipamentos naturais e de lazer, como a Reserva do Poço Escuro, hoje em estado de abandono, mas que poderia, sim, ser um espaço de incentivo a trilhas e caminhadas.
Essa situação revela uma contradição profunda. Enquanto as periferias enfrentam a retirada de linhas de ônibus, a demora nos intervalos e a dificuldade ainda maior de se locomover em feriados e finais de semana, as ações públicas voltadas ao bem-estar e ao lazer se concentram, em grande medida, no bairro Candeias. Caminhadas, feiras, eventos culturais e esportivos encontram palco preferencial nessa região mais central e de maior poder aquisitivo, ao passo que as áreas periféricas ficam sem alternativas estruturadas de lazer, cultura ou esporte.
Ao privilegiar a rentabilidade econômica em detrimento da universalidade do serviço, as políticas de transporte acabam ampliando desigualdades. A justificativa de que essas mudanças estimulam hábitos mais saudáveis ignora que caminhar deve ser uma possibilidade garantida por condições adequadas, e não uma obrigação imposta pela redução de oferta de ônibus. O resultado é a sobreposição de exclusões, visto que quem mora longe dos centros econômicos já enfrenta barreiras históricas de mobilidade, agora agravadas pela reconfiguração das linhas; e, ao mesmo tempo, não encontra em seu território políticas públicas que promovam saúde, lazer e convivência comunitária.
Para que Vitória da Conquista avance, é necessário garantir transporte público regular e acessível também em finais de semana e feriados; assegurar manutenção e ampliação de equipamentos de lazer como o Poço Escuro, com uso contínuo e aberto à população; melhorar a infraestrutura de ruas e calçadas, de modo que caminhar seja seguro e viável; planejar o transporte considerando a população periférica e da Zona Rural como prioridade, e não como custo a ser reduzido.
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