Guigga: “Me descobri cantor e artista de palco antes de me descobrir um artista com compromissos políticos”

Por - 12 de junho de 2021

Celebrando 20 anos de carreira, Guigga lança EP no qual revisita gravações de infância e prepara a estreia de um álbum visual; Em entrevista ao Conquista Repórter, ele explica como esse novo momento da sua trajetória reafirma sua identidade como músico preto e gay do interior da Bahia

Guigga tinha apenas 10 anos quando começou a cantar profissionalmente, em Maracás, pequena cidade onde nasceu, localizada no sudoeste baiano. À frente da banda Me Leva, fundada por seu pai, Sebastião, ele transitou, ainda na infância e adolescência, por grandes palcos do interior do Brasil. Alcançou sucesso regional, cantando forró em carnavais e festas juninas.

Entretanto, como uma criança preta, gay e artista do interior da Bahia, o preconceito e a homofobia acabou o afastando desses espaços. E foi no que chamou de “cena intelectual cult” que Guigga procurou abrigo para expressar sua identidade e talento através da música. Circulou em casas de shows e teatros com o Duo Caim e conquistou prêmios e festivais quando se intitulava Achiles Neto, nome com o qual ganhou projeção enquanto artista solo, lançando canções como “Corte e Costura” (2017).

Veio para Vitória da Conquista, onde permaneceu entre 2009 e 2015, para cursar Direito na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). Guigga considera a cidade sua “segunda residência”. Posteriormente, foi para o Rio de Janeiro fazer mestrado em Memória Social, que concluiu em 2017, quando então voltou para Maracás.

A ligação com o Direito e com a vida acadêmica, entretanto, não o afastou da música. Agora, completando 20 anos de carreira, ele revisitou gravações da sua infância e reuniu algumas delas no EP “Guigga e Banda Me Leva”, marcando um momento da sua trajetória no qual, ao mesmo tempo em que olha para o passado, reafirma a sua identidade como músico no presente e projeta novos caminhos para o futuro.

Conquista Repórter: Muitas pessoas ainda associam a sua imagem a Achiles, que foi o nome com o qual você ganhou projeção como artista solo na cena cultural baiana, em especial aqui no interior. O que te levou a mudar o seu nome artístico e o que essa mudança representa para você?

Guigga: Antes da pandemia, eu já estava amadurecendo a ideia de mudar de nome artístico, mas estava receoso com essa mudança e de como isso poderia impactar os trabalhos que eu construí como Achiles Neto e como Achiles. Já na pandemia, em meio a muitas transformações e mudanças que começaram a acontecer comigo e com a minha vida, o retorno ao convívio diário com minha família me reaproximou do meu apelido Guigga, que foi dado a mim pelo meu irmão Tim. Quando ele nasceu, não conseguia me chamar de Achiles e saiu o nome Guigga. Depois disso, toda minha família e amigos mais antigos começaram a me chamar de Guigga e até hoje chamam. Quando eu me atentei a esse apelido e de como ele me reconecta com características de minha personalidade que eu sempre guardei na intimidade, entendi que ele me representaria muito mais nesse novo momento e nesse caminho de mudanças pelas quais venho traçando nos últimos meses. E, surpreendentemente, quando comecei a aceitar a ideia de assumir Guigga, o apelido pareceu imprimir mudanças na minha forma de vestir, de falar, de me comportar, como se Guigga tivesse finalmente encontrado um espaço para se expressar publicamente, e não mais apenas dentro de casa e no convívio com os amigos. Costumo dizer que Guigga é o meu cavalo de Tróia.

CR: Como surgiu a ideia de revisitar gravações da sua infância e transformar isso em um novo trabalho artístico, que é o EP “Guigga e Banda Me Leva”? De que forma esse EP expressa o atual momento da sua carreira e reafirma a sua identidade como músico?

Guigga: A ideia surgiu despretensiosamente, como parte do processo de pré-lançamento de Xylocaína. Após a gravação do clipe, comecei a pensar juntamente com Filipe Bezerra, meu amigo e diretor do clipe, como seria esse movimento até chegarmos no vídeo. E foi aí que entendemos a importância de apresentar para as pessoas as histórias de minha infância por meio das fotos e vídeos que minha mãe conseguiu registrar no passado. Quando comecei a fazer o roteiro das postagens e a entender a dinâmica desse material e o desfecho de sua apresentação, percebi que seria também importante reapresentar, em forma de EP, algumas músicas que gravei quando criança. Assim surgiu a ideia de lançar um disco com essas gravações. Esse EP é muito importante porque me fez entender que eu estou há mais de vinte anos me dedicando à música profissionalmente, gravando discos, fazendo shows, criando projetos, e isso me deu ferramentas para compreender, finalmente, o artista que sou e a obra que quero construir a partir daqui.

CR: Você já disse que a homofobia acabou lhe afastando dos espaços nos quais você costumava cantar e se apresentar na infância e na adolescência com a Banda Me Leva, a exemplos de festas juninas e carnavais. Você sente que houve alguma mudança nesse sentido daquela época para cá ou esses espaços continuam nutrindo a homofobia, especialmente em pequenas cidades do interior, como é o caso de Maracás?

Guigga: Quando disse que a homofobia me afastou desses espaços é porque eram esses os espaços nos quais eu convivia na minha adolescência. Ter me afastado dos palcos de São João e dos trios elétricos não me fez sofrer menos preconceito. Eu tenho de lidar com eles até hoje, em todos os espaços. Sempre recebi muito carinho de parte do público que me acompanhou na Banda Me Leva e muitas pessoas continuaram me acompanhando no Caim e no meu trabalho solo. Agora, nesse movimento de reapresentação desses trabalhos antigos e de retorno às origens, tenho recebido mensagens de muito amor e afeto dessas pessoas e me sinto acolhido, sendo quem eu sou. Reconheço que o aumento da visibilidade de pautas LGBTs nos últimos anos contribuiu para um maior acesso ao conhecimento sobre as nossas existências, inclusive nas cidades do interior. Artistas LGBTs conhecidos no país inteiro são uma demonstração disso. Acredito que, de alguma maneira, estamos ocupando espaços importantes e conquistando respeito, assim como entendo que essas conquistas são ainda muito restritas a uma parcela muito pequena da comunidade, que é atravessada por diferenças sociais, raciais, culturais, políticas e econômicas.

Guigga: “Reconheço que o aumento da visibilidade de pautas LGBTs nos últimos anos contribuiu para um maior acesso ao conhecimento sobre as nossas existências, inclusive nas cidades do interior”. Foto: Filipe Rocha.

CR: Você também disse que procurou abrigo contra a homofobia na música no que você chamou de “cena intelectual cult”. Por que exatamente essa classificação? E como essa vivência que você teve na música, seja como Achiles, seja no Duo Caim, te ajudou a se afirmar e se entender também como um artista negro e gay do interior Bahia?

Guigga: Eu chamei de “cena intelectual cult” uma rede cultural ampla que envolve artistas, intelectuais, mídia, pesquisadores, produtores, entre outros. Essa rede abrange desde artistas brasileiros reconhecidos e prestigiados por representarem aquilo que foi convencionado socialmente ao longo dos anos como “música brasileira autêntica” até artistas de gerações mais recentes que assumem ou são posicionados no lugar de herdeiros dessa celebrada elite cultural. Eu diria que essa cena, liderada pelos autores mais consagrados da música brasileira e suas respectivas obras, cria uma espécie de genealogia da canção, identificando autores e artistas que podem ou não ser enquadrados naquilo que a pesquisadora Rita Morelli chamou de “tradição autoral brasileira”. Ou seja, quanto mais próxima e afinada aos princípios autorais convencionados por essa tradição, mais as novas obras podem ser reconhecidas como representantes autênticos dessa cena. Eu criei despretensiosamente essa classificação pra situar o não lugar que ocupei musicalmente nos últimos anos. Eu me vi, de algum modo, sendo acolhido por essa cena a partir dos trabalhos que eu apresentei na época do Caim e do meu trabalho solo, o Divino e Ateu, ao mesmo tempo em que eu não conseguia, já naquela época, me sentir integralmente como parte dessa mesma cena, já que as minhas origens musicais vão diretamente no sentido oposto ao esperado e celebrado por essa tradição, que é a cultura popular das massas. As minhas vivências durante o período em que performei no Caim e no meu trabalho como Achiles foram muito importantes para o meu amadurecimento político enquanto artista, já que neles eu consegui expressar artisticamente minhas angústias e dores de pessoa LGBT do interior da Bahia. No entanto, a minha carreira começa na minha infância, nas festas populares, nas festas juninas, nos carnavais, junto às massas. Eu me descobri inicialmente cantor e artista de palco antes de me descobrir um artista com compromissos políticos. A minha obra, portanto, vai além desses compromissos, já que minha formação de base e o início de minha carreira está no entretenimento. Compreender esses movimentos foi fundamental para que eu conseguisse tomar posse agora dos meus lugares e não permitir mais que as expectativas de público e de cena falem por mim. Hoje não tenho mais vergonha das minhas origens e consigo compreender a importância de minha formação política para o entretenimento que posso promover.

CR: Você faz parte de uma das classes que foram mais afetadas pela pandemia da covid-19. Quais foram e quais tem sido ainda os principais desafios que você tem enfrentado como artista durante esse período e como você tem observado isso entre outros colegas artistas?

Guigga: Os principais desafios têm sido mesmo a falta de autonomia pra fazer com que a minha arte me dê condições para sobreviver a partir dela. Reconheço que sou um artista privilegiado, por ter uma família que tem me socorrido durante este período de pandemia e apostado nos meus sonhos junto comigo, e entendo que a minha realidade não é a mesma da maioria dos músicos que estão passando por muitas dificuldades nesta pandemia. Estou conseguindo ficar em casa, tenho o que comer, não estou tendo que me preocupar com as contas de luz e de água, e tudo isso pra mim já é um privilégio. Assim como muitos artistas, estou usufruindo dos recursos que a Lei Aldir Blanc disponibilizou, e posso afirmar que esses recursos emergenciais não foram suficientes para suprir nossa demanda. Tenho acompanhado de perto a realidade de muitos artistas do interior do Estado que sequer se reconhecem como artistas legitimados a captarem esses recursos. Isso demonstra as limitações do alcance dessas políticas públicas de cultura e de como ainda precisamos avançar na expansão dessas ferramentas para que a vida dos artistas do interior do Estado seja minimamente transformada.

CR: E como você avalia a atuação do poder público frente a esses problemas? Até que ponto, a seu ver, as ações que foram feitas a nível federal, municipal e estadual, como foi o caso da Lei Aldir Blanc, tem ajudado a classe artística?

Guigga: Como disse na resposta anterior, o alcance da lei foi muito diverso e fragmentado, porque as realidades do poder público a nível municipal no interior são muito distintas da realidade de cidades de grande e médio porte, geralmente com o sistema municipal de cultura melhor estruturado. Muitas cidades do interior do Estado não possuem um sistema municipal de cultura organizado, o que fez com que a administração desses recursos ficasse sob a responsabilidade de pessoas com pouco ou nenhum conhecimento sobre políticas culturais. Acredito que a execução da lei Aldir Blanc evidenciou a distância que ainda existe entre os promotores de políticas públicas de cultura e a diversidade de fazedores de cultura dos interiores.

CR: Para finalizar, quais são as perspectivas na música e principais novidades pós-lançamento do EP “Guigga e Banda Me Leva”?

Guigga: Acabei de lançar o EP “Guigga e Banda Me Leva” e já preparo o lançamento do meu próximo trabalho, que é o álbum visual “Ao Vivo na Casa da Borracha”. Esse trabalho será lançado no dia 23 de junho e é uma grande homenagem ao São João, à Banda Me Leva e aos músicos e compositores do interior do Estado. O show será disponibilizado integralmente no Youtube e depois lançaremos o disco ao vivo nas plataformas digitais! A meta é seguir vivo, ser vacinado e continuar fazendo música num país com mais oportunidades para todes, com mais respeito, mais trabalho e com um presidente que não seja este que aí está.

*Foto de capa: Filipe Rocha

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