Pessoas com diabetes enfrentam falta de equipe especializada e de insumos na rede municipal de saúde

Por - 26 de novembro de 2021

Em setembro e outubro de 2021, Farmácias da Família ficaram sem estoque de tiras e lancetas, materiais utilizados no aparelho que mede a glicemia. “Eu passo no médico hoje e só vou retornar daqui a seis ou sete meses”, afirmou Deusdete Oliveira.

“Desde a gestão do falecido prefeito [Herzem Gusmão], o atendimento aos diabéticos no município já vinha ‘caindo das pernas’, e no governo de Sheila piorou tudo”. Esse é o depoimento de Deusdete de Jesus Oliveira, representante da população negra no Conselho Municipal de Saúde (CMS), em Vitória da Conquista.

O conselheiro convive com a diabetes, doença causada pela falta ou má absorção de insulina no sangue. Por isso, ele necessita dos serviços oferecidos pela rede municipal de saúde. Para Deusdete, um dos momentos mais difíceis para os diabéticos de Conquista ocorreu quando, em setembro e outubro deste ano, Farmácias da Família ficaram sem estoque de tiras e lancetas, materiais utilizados no aparelho que mede a glicemia.

“Esses itens são de uso obrigatório para os diabéticos e a gente ficou sem a menor assistência. Eu comecei a reclamar dentro do Conselho porque ninguém tomava uma atitude”, explicou Oliveira. Segundo o munícipe, os diabéticos estão sem um representante oficial no CMS, desde a morte de dois presidentes da Associação Conquistense de Apoio ao Diabético (ACAD), cuja sede está presente no Morada dos Pássaros.

“Precisamos eleger alguém para ocupar esse lugar e ficar cobrando, porque a diabetes não é só a fitinha e a agulha (tiras e lancetas)”, disse Deusdete. Após as cobranças, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) publicou, ainda em setembro, uma nota de esclarecimento a respeito do desabastecimento das unidades da Farmácia da Família, localizadas no bairro Brasil e no Centro. 

Em setembro e outubro deste ano, Farmácias da Família ficaram sem estoque de tiras e lancetas, materiais utilizados no aparelho que mede a glicemia. Foto: Secom/PMVC.

De acordo com o órgão, através da Coordenação de Assistência Farmacêutica, a falta de materiais ocorreu por causa da finalização do processo de licitação de um novo sistema de controle que estava sendo implantado na cidade. Mas essa não foi a primeira vez que houve ausência de insumos para os diabéticos em Vitória da Conquista.

Em fevereiro deste ano, a Defensoria Pública do Estado da Bahia (DPE/BA) e a Defensoria Pública da União (DPU/BA) acionaram a Justiça para garantir a regularização do abastecimento de Insulina NPH no município. Por meio de nota, a SMS afirmou que, apesar de pedidos serem feitos mensalmente, os medicamentos não haviam sido entregues pelo Governo do Estado, que recebe os lotes do Ministério da Saúde.

“Se não for levado a sério, as pessoas acabam morrendo” 

Atualmente, 8.409 pacientes diabéticos estão cadastrados na rede de atenção básica do município. Segundo a SMS, nas Farmácias da Família, 2.300 pessoas fazem a retirada mensal ou bimestral de medicamentos e insumos para uso diário. O abastecimento voltou a acontecer. De acordo com a Secretaria, o último quantitativo de tiras adquirido foi de 500 mil, já o número de lancetas chegou a 22 mil. 

Mas para Deusdete, a falta dos itens para controle e acompanhamento da diabetes não é o único problema no atendimento da cidade. “A gente precisa de endocrinologista, nefrologista, cardiologista, nutricionista, toda uma equipe médica”. 

“Eu passo no médico hoje e só vou retornar daqui a seis ou sete meses. Não tem pessoal disponível para cuidar dos pacientes. E para quem tem uma diabete desregulada, é complicado”, ressaltou o conselheiro. Ele ainda completou: “se isso não for levado a sério, as pessoas acabam morrendo, que é o que vem acontecendo”.

Em nota ao Conquista Repórter, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que “quando há necessidade, os médicos das unidades encaminham a solicitação para consulta com especialistas dentro da rede municipal de saúde e o acompanhamento nutricional para os profissionais do Núcleo Ampliado de Saúde da Família (NASF-AB)”.

Oliveira também questionou a burocracia necessária para que os diabéticos tenham acesso aos insumos. “Eu cheguei na farmácia e agora tem que cadastrar, agendar um horário, não é só chegar com a receita e pegar, igual era antigamente. Mas a pessoa que vem de Cercadinho, Inhobim, Veredinha, José Gonçalves, Bate Pé, da zona rural, vai chegar lá e terá que agendar pra voltar de novo?”.

 Mutirão para o recadastramento dos pacientes diabéticos do Programa de Automonitoramento da Glicemia Capilar (PAMGC), realizado no Centro Cultural Glauber Rocha, em 3 de novembro. Foto: Secom/PMVC.

Sobre o processo de cadastramento, a SMS esclareceu que tem realizado uma “força tarefa”, desde o dia 3 de novembro, para recadastrar os pacientes e regularizar a dispensação de tiras e lancetas dos diabéticos que estavam em atraso. A atualização se fez necessária após a implantação do novo sistema de controle da diabetes no município.

Além disso, mutirões tem sido realizados pela SMS para fazer novos cadastros, recadastramentos e a troca dos medidores de glicose. Segundo o órgão, até a quinta-feira, 25, mais de mil pacientes haviam sido atendidos. 

“Neste sábado (27), haverá mais um mutirão nas Farmácias da Família visando atender ainda mais pacientes do programa e também fazer novos cadastros, tudo de forma agendada”, é o que disse a Secretaria em nota ao Conquista Repórter. Confira o comunicado na íntegra aqui.

Na próxima terça, 30, será realizada uma audiência pública, na Câmara de Vereadores de Conquista, para discutir, avaliar e propor melhorias na atenção básica do município. O evento será aberto a toda população e acontecerá às 9h.

Foto de capa: Secom/PMVC

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