Keu Souza: “Eu tenho mil cento e quinze motivos para continuar na luta e no enfrentamento”

Por - 15 de maio de 2021

Educadora e feminista do coletivo Obá Elékó, em 2020, Keu foi a segunda mulher negra mais votada nas eleições municipais de Vitória da Conquista pelo PSOL

Keu Souza, 41 anos, é uma mulher preta, lésbica, mãe solo, periférica e do axé. Caçula de cinco irmãos, ela perdeu o pai aos oito anos e viu a sua mãe e avó se tornarem as principais responsáveis pelo sustento da família. Entretanto, a educadora e estudante de História só abriu os olhos para o movimento social quando começou a trabalhar em um orfanato e se deparou com as questões de gênero, raça e classe. 

Em março de 2015, ela participou da criação do coletivo de mulheres negras chamado Obá Elékó, onde estuda e discute o feminismo em sua interseccionalidade. Obá Elékó é uma palavra de origem iorubá, que significa sociedade secreta das mulheres. Foi participando das discussões coletivas que Keu se encontrou com a mulher que ela já era e, dentro do feminismo, se libertou, se emancipou e se empoderou. 

Ela se filiou ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em 2018 e, em 2020, concorreu ao pleito eleitoral em Vitória da Conquista, sendo a segunda mulher negra mais votada para ocupar uma das 21 cadeiras da Câmara Municipal. Em entrevista ao Conquista Repórter, Keu Souza contou como foi o processo eleitoral e as suas perspectivas para os próximos anos. Confira:

CR: Você pleiteou uma vaga na Câmara Municipal de Vitória da Conquista em 2020. O que a levou a se candidatar?

Keu Souza: Em 2018, eu me filiei ao PSOL. Eu já vinha acompanhando toda a conjuntura política e sei que vivemos um momento em que é impossível não se posicionar. Mas, até então, eu entendia que a minha contribuição seria ocupando um espaço de organização partidária, muito inspirada também no legado de Marielle Franco (PSOL-RJ). Uma mulher preta, parafraseando a ela mesma, cria da favela, que foi brutalmente assassinada, arrancada de nós pela sua luta. Uma mulher combativa que estava fazendo enfrentamentos muito sérios e extremamente urgentes no nosso tempo. O legado de Marielle me inspirou muito. Em 2020, eu entendi que a gente precisa ocupar os espaços de poder e de decisão. Eu tenho consciência das pautas que me compõem: da negritude, da comunidade LGBT, de gênero. Penso que a representatividade importa muito. Mas, fora isso, importa também a consciência do seu lugar social. Com tanta necessidade de políticas públicas e de ter uma voz que, de fato, faça ecoar as nossas urgências, não dava mais pra esperar que o outro falasse por mim. Investi meu tempo, coloquei meu nome, minha cara, minha disposição e fui encarar esse processo de disputa eleitoral, onde saí candidata a vereadora aqui no município de Vitória da Conquista. Foi um processo de muito aprendizado e de enfrentamento. Eu tinha consciência de que não seria fácil, mas também sabia que era necessário.

CR: Você foi a segunda mulher negra mais votada na eleição, atingiu 1.115 votos na primeira vez que concorreu a um cargo político. Você imaginava ter uma votação tão expressiva? E o que isso significa para o cenário político conquistense?

Keu Souza: Essa foi a primeira vez que saí candidata. Tenho consciência de que foram mil cento e quinze votos de confiança e de esperança. E, para o cenário conquistense, isso é ‘esperançar’. Então, para mim, foi um aprendizado muito grande. Não foi fácil, sofri múltiplas violências. A representatividade ainda é muito pequena, sobretudo aqui no nosso município, e eu assumi uma disputa, colocando um programa de governo onde todas as bandeiras que me compõem estavam presentes. Eu acho que consegui romper a bolha, alcançar outras vozes. Muitas pessoas héteros e não negras votaram em mim por uma compreensão de que a gente precisa travar uma luta coletiva. A esquerda precisa se unir, juntar forças para transformar uma conjuntura genocida que está nos matando todos os dias, um desgoverno que está garantindo o desmonte e a retirada de direitos. Não só na esfera federal e estadual, mas municipal também. Por isso, eu acho que a minha candidatura foi muito importante. Precisamos ter consciência política. A forma como as coisas são conduzidas ainda são muito primitivas, então a gente precisa fazer esse trabalho de formiguinha, que é realmente um trabalho pedagógico. As pessoas precisam entender o quanto é caro para nós o acesso democrático a direitos. Precisamos fazer o uso da democracia com muita consciência, mas, sobretudo, com consciência de classe, com uma postura anti-racista, anticapitalista, com a ideia de que precisamos de igualdade de gênero e com respeito à diversidade. Eu penso que a gente conseguiu provocar muita gente e romper a bolha. E, nesse sentido, eu tenho mil cento e quinze motivos para continuar na luta e no enfrentamento.

CR: Como foi a experiência de participar do pleito eleitoral?

Keu Souza: Eu sou uma mulher carregada de muito afeto e sensibilidade. Por isso, acho que essa experiência de disputar a eleição em 2020 foi dolorosa para mim, porque esse é um processo violento, cheio de muito machismo e racismo. Foi difícil ver as pessoas me questionarem por eu ser uma mulher preta, se surpreenderem com a minha capacidade cognitiva, intelectual, acharem que eu não poderia estar bem vestida ou falar bem. Era triste ver as pessoas espantadas por eu demonstrar conhecimento sobre determinada pauta, porque se espera o meu silêncio e a minha ignorância. Esses são resquícios que o racismo deixa presente na mente das pessoas. Então, foi um espaço de muito racismo pra mim, mas também foi uma experiência de acolhimento. Eu não tive recurso financeiro o suficiente para trabalhar essa campanha da forma como eu gostaria, mas tive amigos sinceros que acreditaram e abraçaram a nossa candidatura. Tive pessoas comigo todos os dias, me ajudando a lidar com esse processo, que era extremamente novo para mim. Durante todo esse período, por algumas vezes, eu pensei que ia morrer no caminho e a vontade de desistir era real. O que não me permitiu desistir foi a certeza de que somos nós por nós e que não haverá nada sobre nós sem que seja construído por nós. Eu tenho consciência do meu lugar e preciso fazer com que a minha voz ecoe a voz de uma multidão que acredita em mim. Além disso, a gente teve esse processo pandêmico atravessando a eleição. Isso tornou tudo ainda mais difícil porque tivemos que explorar muito as redes sociais e essa é uma ferramenta que eu não domino. Mas, ainda assim, foi uma experiência positiva porque a gente teve a ajuda de muitas pessoas. Teve gente que fez o trabalho gráfico, as fotografias maravilhosas. O jingle foi muito lindo. A letra da música foi original e especial. Foi tudo coletivo e popular. E eu fico muito feliz com esse processo. Teve muita violência e aborrecimento. Por muitas vezes, eu me banhei em lágrimas, mas também teve contentamento, acolhimento, coragem, confiança e força. Tive muita certeza de que eu não estava sozinha. Foi um turbilhão de sentimentos que me invadiu, mas o tempo inteiro tive consciência de que é urgente ocupar esses espaços.

CR: A Câmara Municipal, atualmente, é composta por duas mulheres brancas e 19 homens. Como isso pode interferir nos direitos das mulheres nos próximos anos?

Keu Souza: É lamentável que uma Câmara de Vereadores com uma representação de vinte e uma cadeiras tenha, nessa composição, apenas duas mulheres. A representatividade importa. Mas não basta apenas ser mulher, é preciso ter compromisso com as pautas das mulheres. Nós somos muitas e nós somos diversas. Somos o cruzamento de uma série de marcadores sociais. É preciso entender a mulher em toda a sua pluralidade e levar essa representatividade para dentro dos espaços de poder e de decisão, para que, de fato, nós sejamos representadas. Nós vivemos num país de uma estrutura machista e patriarcal, somos o quinto país com o maior número de feminicídios. E, nesse momento de pandemia, a violência contra a mulher se multiplicou. As mulheres ficaram isoladas com os seus agressores. Existe uma necessidade urgente de políticas públicas para o nosso país. A gente é a terceira nação com maiores índices de encarceramento e temos um número muito grande de mulheres em condição de cárcere, pagando por uma dupla penalidade, pelo delito e por ser mulher. Onde está a nossa subjetividade? É negada. Então, nós precisamos acessar direitos que teriam que ser básicos, mas ainda são precarizados e negados. A gente precisa de moradia digna, precisamos de segurança pública. Nós, mães, pretas, temos que ter a garantia de que nossos filhos vão sair para ir à escola, padaria, jogar numa quadra de futebol e voltar para casa em segurança sem ter o peso do estereótipo de bandido sobre o seu corpo. São muitos os direitos que nós precisamos acessar e que ainda são sonegados. A gente precisa falar sobre a saúde da mulher lésbica, precisamos ter campanhas que toquem em particularidades nossas e que são pautas de saúde pública, a exemplo do aborto. Precisamos avançar nesse debate. Nós estamos morrendo todos os dias e a gente não quer que o genocídio seja orquestrado. Para garantir minimamente uma vida decente, precisamos de políticas públicas. Nós, mulheres, somos 54% da população brasileira e o restante dessa população são nossos filhos. A gente perde muito quando nós não temos mulheres comprometidas dentro de espaços como a Câmara e, cabe a nós, sociedade civil, acompanhar, fiscalizar e cobrar para que projetos de lei sejam elaborados e aprovados. Vitória da Conquista tem um histórico muito grande de violência contra a mulher e a gente precisa ocupar esses espaços. Política é coisa de mulher, é uma palavra feminina. Então, lugar de mulher é na política, porque somos nós por nós. Somos nós que precisamos pensar em nossos corpos e garantir a representatividade dos nossos pares. Nesse sentido, eu acho que a gente perde muito com apenas duas mulheres na Câmara, mas seguimos na luta e no enfrentamento. 

CR: Você ampliou ainda mais a sua voz após as eleições, se tornando uma referência para o movimento feminista interseccional na cidade. Quais são os seus projetos para os próximos anos?

Keu Souza: Eu sigo fazendo o que sempre fiz na condição de militante do movimento social feminista. Sigo com as nossas atividades, embora em outro formato, porque a pandemia exige isso de nós. Continuamos com as nossas atividades de formação e de estudo, e isso acontece em uma rede de autocuidado. Eu digo isso porque é preciso ter a consciência de que sozinha a gente morre no processo. Não conseguimos fazer muito pelo outro se estivermos sozinhos. O trabalho é coletivo. Dialogamos com outras áreas, o direito, a psicologia, a assistência social. São muitas denúncias, pedidos de ajuda e a gente precisa construir essa rede de cuidado. Estou na composição do Conselho Municipal da Mulher. Eu acho que é muito importante ocupar esses espaços, porque o conselho tem um papel fiscalizador e a gente precisa acompanhar essas políticas que são tão caras para nós. Eu também sou formadora política dentro do partido que construo, que é o Partido Socialismo Liberdade, o PSOL. Eu estou dirigente nacional pela setorial nacional de mulheres, então, trabalho com formação política. Eu sigo nessas atividades, aqui no município, no estado e no país. A nossa luta é constante e a gente só vai conseguir mover essa estrutura se juntarmos forças. 

CR: Você pensa em se candidatar nas próximas eleições municipais?

Keu Souza: Eu estava conversando com os meus camaradas e falei para eles o seguinte: a política é um caminho sem volta. A gente entra nesse espaço e a única certeza que temos é que não existe lugar para a desistência e para o retrocesso. A conjuntura não nos permite isso. Não é porque eu não consegui fazer o mandato que não fui vitoriosa. Eu tenho um acúmulo de experiência política muito grande e isso me dá fôlego, me credencia para continuar na luta. Então, vou seguir no enfrentamento. Nas próximas eleições, eu estarei dentro desse cenário, espero que mais fortalecida. O processo de todo político culmina no mandato, mas não é apenas isso. Não entrei para retroceder. Eu sigo na luta com o nome Keu Souza. Não vou me retirar desse lugar em hipótese nenhuma. Não posso, eu tenho mil cento e quinze motivos para continuar.

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