“Esse é o momento de voltar ao ensino presencial”, avalia diretor médico do HCC e professor de Medicina na UFBA

Por - 10 de fevereiro de 2022

Segundo o Dr. Vinícius Rodrigues, o prejuízo para a educação já foi grande no início da pandemia e a população conhece os cuidados que devem ser tomados para prevenir a covid-19. Contudo, ressalta que não se pode deixar de observar o cenário epidemiológico.

Vinícius de Brito Rodrigues nasceu em Irecê, município localizado a 478 quilômetros de Salvador, em 22 de março de 1985. Após concluir o ensino fundamental em sua cidade de origem, ele deu sequência aos estudos na capital baiana até ser aprovado no vestibular. Em 2004, ingressou na 1ª turma de Medicina da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), em Vitória da Conquista. “Eu tive a oportunidade de construir o curso com os meus colegas e participei ativamente de decisões junto à Reitoria”, contou Brito.

No ano de 2010, finalizou a graduação na UESB e foi em busca de outros espaços para continuar sua formação. Dois anos depois, em 2012, retornou a Salvador para fazer residência médica em Ortopedia, no Hospital São Rafael. Curitiba foi o próximo destino ao qual a medicina levou Vinícius. Na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), ele se especializou em cirurgia do quadril.

De volta a Conquista em 2016, Vinícius nunca mais deixou a maior cidade do sudoeste baiano. Foi no município que ele conheceu a esposa Ana Paula, médica conquistense com quem tem uma filha de três anos. Já em 2018, o ortopedista deu início a sua trajetória como docente ao ser aprovado em um concurso da Universidade Federal da Bahia (UFBA), campus Anísio Teixeira. Tornou-se professor da instituição e, no ano seguinte, já assumiu a coordenação do curso de Medicina.

“Nós estamos formando, neste ano, a primeira turma de Medicina da UFBA. Isso, mais o fato de eu ter participado da construção do curso na UESB, também em uma primeira turma, me deixa muito orgulhoso. Fico feliz de fazer parte dessas histórias”, afirmou Vinícius, que também atua como liderança médica na Santa Casa de Misericórdia, em Itabuna, cidade situada no sul baiano.

Atualmente, o ortopedista está concluindo o mestrado em Saúde Coletiva no Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, em Salvador. Além disso, ocupa o cargo de diretor médico do Hospital de Clínicas de Conquista (HCC), onde também integra o grupo de sócios. O início da trajetória de Vinícius como gestor da instituição coincidiu com um dos momentos mais críticos da história do mundo, quando o assunto é saúde: a pandemia da covid-19, que teve o seu pico em março de 2020.

“É uma responsabilidade grande. É preciso ter uma visão muito humana do que está acontecendo, principalmente neste período de pandemia. Nós nos preocupamos muito, desde o início, em oferecer um atendimento humanizado”, explicou Vinícius. “Além disso, do ponto de vista de gestão, é bem complicado. Preços de EPIs por funcionários, a escassez dos materiais no mercado naquele momento, qualquer planejamento financeiro que existia, foi por água abaixo”, complementou. 

Em entrevista ao Conquista Repórter, o médico falou sobre o atual cenário epidemiológico da covid-19 no município, as recentes medidas de retorno às atividades presenciais anunciadas pela Prefeitura e Governo do Estado e os efeitos positivos da vacinação contra o novo coronavírus. Confira:

CR: Em janeiro deste ano, o senhor divulgou uma carta aberta direcionada à população do sudoeste da Bahia alertando sobre o aumento de casos da covid-19 em comparação aos dados do mesmo período de 2021. Após mais de dois anos desde o início da pandemia e com o avanço da vacinação, na sua opinião, a que se deve o crescimento do número de infecções e da taxa de ocupação dos leitos de UTI? O afrouxamento das medidas sanitárias a partir do segundo semestre do ano passado pode ter relação com o atual cenário epidemiológico?

Vinícius de Brito: Essa carta surgiu a partir de estudos que costumo acompanhar, pois estou sempre antenado em relação aos dados epidemiológicos do país e do mundo. E eu percebi uma subida de casos a nível internacional, que claramente se refletia no Brasil e na Bahia. Eu comecei a ver aqueles dados e pensei comigo mesmo: “não posso ficar com isso apenas para mim, eu tenho que divulgar”. Coincidentemente, na terça-feira (04/01/22), houve um aumento violento de casos. Na Bahia, foi como um rastro de pólvora. Então, eu escrevi aquela carta com base na ciência, em estatísticas, e ela foi bem recebida pelos gestores locais, inclusive. Sobre o crescimento do número de infecções, acredito que o principal fator que contribuiu para os dados atuais é biológico e está relacionado ao próprio vírus. Na medicina, nós não podemos dizer que apenas um fator A ou B é responsável por qualquer coisa, tudo é multifatorial. Do ponto de vista técnico científico, o vírus tem um poder de mutação muito alto, então, ele vai se adaptar para que possa sobreviver na natureza. A intenção da mutação, geralmente, é fazer com que o vírus perdure e, para isso acontecer, ele [o vírus] tem que contaminar muita gente. Essa questão biológica favorece o auto contágio. Já o afrouxamento das medidas restritivas se deu a nível mundial, na verdade, de acordo aos dados estatísticos de cada local e a observação da queda e estabilidade dos números. Apesar de muito debatido politicamente, o afrouxamento foi possível porque nós tínhamos números que nos davam base para isso. O gestor se utiliza das estatísticas para tomar as decisões, então acredito que esses dados de hoje são resultado mais da biologia do próprio vírus do que de decisões específicas de A ou B.

CR: Diariamente, é divulgado o boletim epidemiológico da covid-19 através dos canais oficiais da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista, mas não há uma clareza se esses relatórios incluem os dados da rede privada de saúde. Como se dá o diálogo e o compartilhamento de informações acerca da pandemia entre a gestão e os hospitais particulares da cidade?

Vinícius de Brito: Apesar de sermos um hospital particular, a nossa UTI (Unidade de Terapia Intensiva) está dentro de um contexto de saúde pública. Houve um contrato estadual. Então, a gente envia dados diariamente ao Estado, duas vezes por dia, na verdade. Esses números são acessados pelos gestores municipal e estadual. Existe uma comunicação ampla entre as gestões para que, de fato, as medidas possam ser tomadas de acordo com as estatísticas. Como não estou na gestão pública, não sei dizer se os boletins emitidos diariamente carregam junto os dados das unidades particulares. Mas posso te apresentar os números de hoje (08/02/22) do HCC (Hospital de Clínicas de Conquista): nós temos 85% de ocupação dos leitos de UTI, enquanto o índice nos leitos clínicos é de 45%. Numericamente, no nosso município, a taxa de novos pacientes infectados vem caindo, a curva é descendente, então nós vamos viver, nas próximas semanas, melhores momentos.

CR: Na sua opinião, desde o início da pandemia, em março de 2020, até o momento, o que houve de acertos e de erros na gestão da pandemia a nível municipal e estadual?

Vinícius de Brito: Existe uma frase que eu uso muito, em discussões internas sobre políticas públicas de saúde: é muito fácil ser o cirurgião no dia seguinte. Ou seja, é muito fácil opinar sobre uma coisa que já foi feita e que você viu o resultado. Eu sempre faço o exercício de me colocar no lugar do gestor no momento de tomar a decisão. Por exemplo, vamos voltar para o início da pandemia, quando a gente não tinha horizonte de nada, não conhecíamos a doença, não sabíamos o que ia acontecer. Nós não tínhamos ideia de prognóstico, nem de como tratar a covid-19. Como e em que o gestor se baseou para tomar decisões? É difícil, né? Então, eu acredito que, dentro do que foi decidido a nível estadual, municipal e até federal, houve muito mais acertos do que erros. E falar em erros, para mim, é até leviano porque foi um momento muito atípico na história da saúde. Era uma doença nova afetando milhões de pessoas no mundo. Foi um momento muito difícil em que os secretários de saúde foram postos à prova. Então, eu só tenho a parabenizar todos os gestores de saúde que sobreviveram a esse tempo. 

CR: Ao mesmo tempo em que a Prefeitura manteve o adiamento das aulas na rede pública de ensino, já foi autorizada a retomada das atividades nas escolas particulares com a justificativa de que foram contratados 4 leitos clínicos e 1 de UTI para crianças, que estarão no Hospital São Vicente de Paulo, inicialmente, por 30 dias. Você acredita que essa ação é suficiente para garantir a segurança e a saúde das crianças e adolescentes que começaram a ser vacinados há poucos meses?

Vinícius de Brito: Acredito que a decisão foi extremamente acertada e traz segurança à população sobre a volta às aulas, haja vista que não é apenas a contratação dos leitos. O município vem, há muito tempo, se preocupando com as medidas de segurança em todos os locais, inclusive nas escolas. Existem regras estabelecidas, como o distanciamento, o uso de máscaras e álcool em gel. Eu vejo muito o secretário de Educação junto com a secretária de Saúde para discutir os casos, visitar as escolas. Então, não é uma decisão tomada de um dia para o outro, pensada por apenas uma pessoa. Foi uma ação que partiu de uma comissão técnica. E como eu já disse, não é fácil tomar uma decisão pensando em toda a população, mas a nossa gestora, Sheila Lemos, junto com as secretarias, tomou uma decisão super acertada sobre o retorno com a contratação dos leitos para oferecer mais segurança para os moradores de Vitória da Conquista.

CR: E quanto ao retorno das atividades em faculdades e universidades como a UESB e a UFBA, onde o senhor atua como professor, considerando que são ambientes que recebem estudantes, docentes e servidores de outros municípios. Na sua opinião, esse é o momento ideal para a retomada do ensino presencial? 

Vinícius de Brito: Com certeza esse é o momento de voltar ao ensino presencial. O prejuízo para a educação já foi suficientemente grande no início da pandemia. A gente precisa recuperar esse tempo, voltar às aulas, retomar a formação de nossos profissionais. Nós estamos muito conscientes dos cuidados que devemos tomar para tentar prevenir uma nova infecção. A gente já amadureceu bastante o conhecimento sobre as formas de transmissão e sobre como tratar a covid-19. Nós podemos até ser surpreendidos no futuro com um pico atípico, mas, na verdade, isso é falar no futuro só por falar. O que precisamos fazer é retornar e observar os dados de perto. É claro que não podemos, de jeito nenhum, abandonar a atenção e a observação do cenário epidemiológico. Isso é fundamental. Além disso, em números, é perceptível que a vacinação teve um efeito muito positivo. Houve uma redução drástica do número de pacientes graves após a imunização. Com a ômicron, mesmo vacinadas, muitas pessoas pegaram a doença, mas de forma mais leve. É lógico que tivemos casos graves. Se você imaginar que tivemos três milhões de pessoas se infectando ao mesmo tempo, é claro que vamos ter um percentual de pessoas que terão casos mais graves. Mas quando você observa a proporção, o número de casos graves é muito menor agora do que tivemos no início da pandemia. Então, a vacinação tem que ser realizada porque foi e continua sendo fundamental para proteger as pessoas.

CR: Quando a prefeita, inicialmente, prorrogou o início das aulas da rede pública e privada de ensino, houveram muitas críticas sobre a decisão de adiar aulas, mas manter bares e restaurantes abertos, além de eventos com limite de público de até 3.000 pessoas. Considerando o atual quadro epidemiológico do município, é necessário pensar na possibilidade de estabelecer novamente medidas restritivas mais rígidas para conter o avanço da covid-19?

Vinícius de Brito: Quando o gestor toma a decisão de permitir o funcionamento de bares, restaurantes, comércios em geral, ele visa a sobrevivência da economia e das pessoas que dependem desses trabalhos para comprar comida, por exemplo. É só observar o número de locais que fecharam ou faliram. Até no hospital (HCC), nós pensamos em fechar as portas. Então, não é uma coisa simples. É uma decisão que tem que ser compartilhada com a população, que precisa aprender a se comportar nesses lugares, manter o distanciamento seguro, o uso da máscara, do álcool gel. Eu entendo que o gestor público toma uma decisão pensando no bem-estar geral da população, considerando todos os aspectos. Por isso, não é tão simples assim. É algo que tem que ser compartilhado com a população, que também precisa colaborar e respeitar as medidas de segurança necessárias.

CR: Apesar do aumento do número de casos da covid-19 entre o final de 2021 e o início de 2022, a vacinação tem surtido efeito e causado a diminuição de mortes diárias pela doença, segundo especialistas. Podemos dizer que está descartada a possibilidade de um pico de óbitos no Brasil como tivemos entre 2020 e 2021?

Vinícius de Brito: Na medicina, nós não podemos usar nem ‘nunca’ nem ‘sempre’. Não temos como descartar algo desse tipo. Se você imaginar que existem milhões de pessoas se contaminando, temos que pensar que o vírus continua tendo um poder de mutação. Então, pode aparecer alguma variante mais complicada. E se você observar no retrospecto da pandemia, todos os especialistas que tiveram a coragem de fazer uma previsão, erraram. Isso porque não é um momento típico. É impossível dizer que podemos descartar a possibilidade de, no futuro, haver um novo pico ou colapso do sistema de saúde. Mas a probabilidade é muito menor por conta da boa cobertura vacinal que tivemos e das medidas de cuidado e prevenção que, hoje, as pessoas já internalizaram. As pessoas andam com álcool em gel no bolso, o que ninguém fazia antes da pandemia. Hoje é hábito usar e trocar a máscara. O comportamento da população em relação à prevenção mudou bastante. Então, acredito que a probabilidade de um novo pico de mortes é bem menor, mas não podemos descartar totalmente. 

CR: Foi noticiado pela imprensa local que o senhor seria um dos nomes cotados para disputar o cargo de vice-prefeito ao lado da gestora Sheila Lemos, nas eleições de 2024. Esse é um plano que pode se concretizar daqui há alguns anos? O senhor tem a pretensão de assumir essa posição dentro do município?

Vinícius de Brito: Eu também fui pego de surpresa com essa notícia. No meu trabalho enquanto educador e profissional médico, penso sempre na questão humana do atendimento, no resultado do meu trabalho, dos colegas e dos alunos para a população. Então, o que eu quero é ajudar. A gente sabe que a política é um meio maior, a partir do qual você consegue ajudar mais pessoas ao mesmo tempo. Eu nunca tive planos de ingressar em uma carreira política, não tenho ninguém na família que faça parte desse cenário. Mas como minha vocação médica me faz querer lutar pelo melhor para as pessoas, se, eventualmente, eu receber um convite oficial, no futuro, vou pensar muito bem na possibilidade porque não sou de fugir à luta e nem do meu propósito. Sobre a matéria especificamente, eu fico lisonjeado, mas não houve um convite oficial até o momento.

Foto de capa: arquivo pessoal.

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