Conselheira de Cultura renuncia após práticas machistas: “fui violentada por ter uma voz ativa”

Por - 16 de maio de 2024

A ex-secretária executiva do órgão relata violência psicológica e tentativas de silenciamento, especialmente de representantes do Executivo Municipal designados para compor a gestão 2023/2025.

“Fui violentada moralmente por ocupar uma das cadeiras deste conselho e, para a infelicidade de alguns, ter uma voz ativa e incisiva”, desabafa Lívia Cerqueira, artista de teatro e ex-secretária executiva do Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista. Durante reunião ordinária do órgão realizada no último dia 6 de maio, na Casa Memorial Régis Pacheco, a ativista cultural renunciou ao cargo após relatar ter sofrido violência de gênero no exercício da função, especialmente por parte de representantes do Executivo Municipal designados pela Prefeitura para compor a gestão 2023/2025 do conselho.

Em um espaço ocupado majoritariamente por homens, Lívia se viu diante de diversas tentativas de silenciamento. Não foi uma situação isolada, mas várias atitudes e palavras permeadas pelo machismo e misoginia que provocaram a sua saída do Conselho Municipal de Cultura. Como tantas outras mulheres que ousaram e ousam fazer suas vozes serem ouvidas, recebeu o selo de “autoritária”. Foi assim chamada pelo conselheiro Alecxandre Magno, durante reunião da entidade no dia 8 de abril de 2024.

Mas não foi só isso. Segundo ela, até suas roupas foram motivo para que homens tentassem deslegitimar suas colocações. “Essa roupa que você usa é de criança né!?”, ouviu de um outro conselheiro, Marley Vital, nas instalações da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Lazer (Sectel).

Para a ex-secretária do conselho, a pergunta em tom de “brincadeira” foi a gota d’água. Saiu daquele espaço e foi para casa se questionando por qual motivo as suas roupas tinham sido parte daquela conversa. Mas a resposta, na verdade, ela já sabia. Era uma tentativa clara de infantilizá-la e fazê-la se sentir inferior. Nas entrelinhas, o que estava sendo dito era que aquele não era o seu lugar.

As reuniões do Conselho de Cultura acontecem na 1ª segunda-feira de cada mês, na Casa Memorial Régis Pacheco. Foto: Secom/PMVC.

“Afirmar que minhas roupas são de criança é uma fala tão problemática, que circunda tantos problemas sociais e é de um patriarcado estrutural que me assusta”, explica a artista. “Me vi desrespeitada em vários momentos e como é de costume, alguma parte de mim construída a partir dessa falha social que está enraizada em nós, produtos do meio, me fez achar que eu realmente deveria ceder, que eu deveria falar mais baixo e ouvir mais as vozes de vários homens”, complementa Lívia.

Mas ao invés de se calar, ela decidiu que não iria mais se submeter à violência psicológica e ao ambiente opressor que havia se tornado o Conselho Municipal de Cultura. Não ocuparia aquela cadeira, reservada para membros da sociedade civil, às custas da sua saúde mental. Não permaneceria naquele lugar se não pudesse falar livremente e, assim, contribuir com a construção das políticas de cultura no município.

“Não preciso provar quem sou, não preciso mostrar para os homens e para ninguém a minha capacidade em absolutamente nada”, destaca. Diante das violências que lhe causaram crises de ansiedade e inseguranças, decidiu apresentar sua carta de demissão à mesa diretora da entidade, mas não sem antes deixar claro os motivos da sua renúncia. Fez isso diante dos membros do conselho que marcaram presença na Casa Memorial Régis Pacheco, no dia 6 de maio de 2024.

Renúncia

A carta de renúncia foi lida por Lívia em um ambiente que representa bem a ausência de mulheres nos espaços de decisão. Na Casa Memorial Régis Pacheco, localizada na Praça Tancredo Neves, há uma sala rodeada por quadros de ex-prefeitos. O detalhe que chama a atenção, ou que pelo menos deveria saltar aos olhos, é que todas as figuras são homens. Uma representação simbólica do quanto a presença feminina ainda é uma exceção dentro de instituições políticas.

Na composição do Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista, são 20 conselheiros, divididos entre 10 titulares e 10 suplentes, que contemplam representantes da sociedade civil e dos poderes Executivo e Legislativo. Na gestão 2023-2025, apenas cinco membros são mulheres. Na mesa diretora do órgão, formada por presidente, vice-presidente e secretário(a) executivo(a), Lívia era a única mulher.

Construída na segunda década do século 20, a Casa Memorial Régis Pacheco é do estilo neoclássico. Foto: Secom/PMVC.

Meses após a posse dos conselheiros da sociedade civil, realizada em outubro de 2023, a única mulher a ocupar a mesa diretora renuncia ao cargo em razão da violência de gênero, definida como qualquer tipo de agressão física, psicológica, sexual ou simbólica contra alguém devido à sua identidade de gênero. Para Lívia, está claro que foi isso o que aconteceu com ela desde que assumiu a posição.

“Desde a primeira reunião, o que tem acontecido é uma violência psicológica, ataques manipulados, tentativa de me silenciar, fazendo com que eu fosse coagida a acreditar que estou de fato tendo posturas incoerentes, além de uma grande omissão daqueles que escutam e daqueles que deveriam presidir, como é o caso do nosso presidente, que por sinal é um homem”, relata a ex-secretária.

Mickelle Xavier, que representa o eixo da Literatura na atual gestão, percebe que de forma recorrente as mulheres, em especial, têm suas falas interrompidas. Ela mesma já passou por isso e chegou a ser defendida por Lívia quando o conselheiro Alecxandre Magno a interrompeu bruscamente. “Ela fez isso por mim e depois, quando pediu para sair, foi doído. Me senti mal por não ter feito nada. Eu travei numa sala repleta de homens. Me senti sufocada”, conta.

“A noite da vergonha”

Quem também estava presente na reunião em que a artista Lívia renunciou ao cargo foi Juliana Brito, coordenadora da Biblioteca Comunitária Donaraça. Na ocasião, foi uma das poucas pessoas que se manifestou logo após o relato da então secretária. Ela estava presente naquela noite, na Casa Memorial Régis Pacheco, como alguém que acompanha de perto as atividades do conselho.

“Fiquei muito constrangida, principalmente pelo silêncio. Diante de uma fala tão contundente, de tanto pesar e tanta dor, ninguém disse: ‘você não é descartável’. Eu acho que esse silêncio diz tudo. Eu, como mulher e representante da sociedade civil que tenho vindo às reuniões, me sinto envergonhada e triste por ter a sensação de que vão continuar muitas dessas práticas”, disse Juliana.

Por meio de carta aberta, a Biblioteca Comunitária Donaraça e o Instituto Relicário chamaram o episódio de “a noite da vergonha”. O texto destaca como a reunião daquele 6 de maio seguiu normalmente após o relato doloroso de Lívia, sem qualquer manifestação de repúdio por parte dos conselheiros. Além disso, o comunicado ressalta que há uma tentativa de aparelhamento do conselho pelo Executivo Municipal.

“Muitos de nós, que acompanhamos as plenárias, presenciamos inúmeras vezes a prática do interrompimento, sobretudo de mulheres, entre outras tantas atitudes, muitas vezes veladas e com verniz de polidez, que criam um clima extremamente tenso e não acolhedor em todas as reuniões do conselho. Sem falar nas constantes menções implícitas e explícitas de que a sociedade civil não deva se manifestar diretamente”, diz um trecho do texto publicado no Foro Literário Sertão da Ressaca.

Outro lado

Diante das denúncias da conselheira Lívia Cerqueira, o Conquista Repórter solicitou um posicionamento oficial do Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista, via e-mail. Nossa reportagem questionou quais serão as atitudes tomadas pela gestão para que a violência de gênero não continue a ser perpetuada no espaço da entidade. Mas até a publicação desta reportagem, não recebemos resposta.

A reportagem também procurou ouvir os representantes do Executivo Municipal apontados como os principais responsáveis pelas práticas machistas e misóginas, Alecxandre Magno e Marley Vital. Porém, ambos não se manifestaram. A composição completa do conselho, para a gestão 2023/2025, está disponível no Decreto 22.860/2023. Acesse aqui.

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