Editorial | COP30 em Belém e a lama no Jurema: a justiça climática que o Brasil não vê

Por - 16 de novembro de 2025 - Meio Ambiente

Enquanto o país sedia a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, moradores de Vitória da Conquista sofrem as consequências do abandono pelo Poder Público.

Victória Lôbo

Enquanto o Brasil sedia a COP30 em Belém, discutindo o destino do planeta em termos diplomáticos, um morador do Jurema, em Vitória da Conquista, passa seu bebê de três meses por cima do telhado para salvá-lo do alagamento. Esta imagem é a definição de injustiça climática. Ela não é uma abstração. Ela não está a milhares de quilômetros. Ela está aqui, na Baixada do Jurema, e aconteceu, ironicamente, na semana em que se iniciou a COP30.

A tragédia recorrente do Jurema não é apenas um desastre natural. É um evento com data marcada, resultado de um descaso crônico. Dona Edite, há 51 anos no bairro, já teve a casa invadida pela água três vezes. Ela nos conta que tem os comprovantes de IPTU guardados. “Mesmo que eu fique sem nada, mas eu quero pagar”, diz.

Aqui reside o ponto central da injustiça. Cidadãos que cumprem seus deveres são abandonados pelo poder público. “Vem prefeita, autoridade e vereador no bairro, promete uma coisa e não cumpre”, resume Aldinei Moreira Silva, outro cidadão que teve sua casa invadida pelas águas e esgoto.

Enquanto o debate global se foca, corretamente, na Amazônia, os interiores do Nordeste são esquecidos. Somos vistos como terra da seca, mas morremos na chuva. E morremos porque a “adaptação climática” que a COP tanto discute é, aqui, uma piada cruel.

Como explica Amanda, o Jurema, bairro onde mora, é uma bacia para onde escoa as águas de outros bairros. A cidade cresce, cada vez mais é colocado cimento e asfalto, e o Poder Público não se pergunta para onde vai essas águas. A resposta é na casa de Dona Edite, Aldinei, Elaine e tantos outros moradores.

O debate sobre financiamento climático na COP30 parece distante quando ouvimos os moradores do Jurema. Eles relatam que, enquanto empréstimos milionários para a infraestrutura de Vitória da Conquista são aprovados pela Câmara de Vereadores, o Jurema não é incluído. “Como que a área que mais sofre dentro da cidade não é vista, não é incluída em um projeto?”, questiona Amanda.

Essa é a pergunta que fazemos, visto que a adaptação que o morador do Jurema conhece é a de ter que elevar os próprios móveis e estrutura das casas. É Dona Edite esperando o 13º salário “para fazer o passeizinho [a calçada], porque se eu tirar do do meu ordenado, eu fico sem comer”. É a comunidade ter que se mobilizar para “trazer engenheiros e arquitetos” e criar o projeto de drenagem que o Estado se recusa a fazer.

Longe dos holofotes e da supervisão da Justiça, as leis de uso do solo são descumpridas e o planejamento urbano serve a tudo, menos ao povo da periferia. O “fundo de perdas e danos” que o mundo discute não é abstrato. É a cristaleira de Dona Edite, a “feirinha do mês que a chuva levou” de sua vizinha e a dignidade de um pai passando um bebê por um telhado. A justiça climática começa quando o IPTU pago se reverte em drenagem e a vida de quem mora no Jurema vale mais que o asfalto que escoa água para dentro de sua casa.


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