Cultura

Sementes de Dona Pretinha: capoeira como legado da família Silva e a luta por dignidade no Jardim Valéria

Por Roberta Lima, Inara Silva e Victória Lôbo

16 de julho, 2026

Diante da falta de infraestrutura e do abandono do poder público, uma linhagem de capoeiristas e agricultores assumiu para si a missão de educar e acolher as crianças e jovens da comunidade.

Quem caminha pelas ruas do Jardim Valéria, loteamento situado no bairro Jatobá, na zona sul de Vitória da Conquista, sente a cultura e a ancestralidade que pulsam do território. Mas, ao mesmo tempo, percebe o abandono da localidade pelo poder público. É neste cenário de dualidades que o Conquista Repórter mergulha nas raízes da comunidade, encontrando na família Silva, moradores desde o final da década de 1980, a força de um povo que usa a terra e a ginga da capoeira para resistir às ausências.

Apelidada de Dona Pretinha, a matriarca é Maria Vera da Silva, falecida em 2024. Nos anos 1990, ela foi uma das fundadoras da Horta Comunitária do Jardim Valéria, espaço que ainda garante sobrevivência e sustento para os moradores. Além do cuidado com a terra, a mãe e avó cultivou as raízes africanas misturando o candomblé com a capoeira, herança que passou para os filhos, netos e bisnetos.

A cultura e o trabalho comunitário na horta são formas de resistência em meio ao abandono e descaso. Na unidade de saúde, os moradores enfrentam dificuldade para agendar procedimentos, principalmente pela falta de profissionais. “Eu botei o exame lá no posto e me deram o resultado errado”, afirma a agricultora Rosimary da Silva Santos, de 46 anos, filha de Dona Pretinha. Ela conta que há mais de um ano aguarda por uma tomografia do pulmão. “Eles tentam passar mel na boca das pessoas.”

Para Advanda Souza Santos, que vive na comunidade há mais de 30 anos, o Jardim Valéria está “jogado às traças”. Segundo ela, a situação é tão crítica que, dependendo do clima, as ruas sem asfalto são apenas lama ou poeira. A moradora Dona Neuza Viana, de 78 anos, ilustra a gravidade dessa negligência: “Na hora de sair de casa, vou pegando pelo muro para não cair. Só tem buraco.”

A infraestrutura precária é apenas uma das problemáticas no sistema de serviços básicos. No trânsito, a falta de sinalização e redutores de velocidade é um risco constante. A cuidadora Joseilma Portela, de 40 anos, relata o perigo que as crianças enfrentam a caminho da escola. “Os ônibus passam como se quisessem levar uma pessoa junto. Quando a gente vai atravessar, os carros não dão abertura. Tinha que ter um quebra-mola.”

No transporte público, a situação é igualmente precária. Ildete Rodrigues, de 61 anos, pontua que a comunidade depende de apenas duas linhas de ônibus (R14 e R14A) que circulam sempre superlotadas. Diagnosticada com fibromialgia, doença que causa dores severas pelo corpo, ela conta que teve a renovação de seu passe livre de ônibus negada pela perícia, o que impossibilita seu deslocamento para sessões de fisioterapia. “O pobre aqui é muito mal tratado. E o político, ele só aparece na sua porta quando é na época de eleição”, desabafa.

Grupo de pessoas adultas está de pé em um amplo corredor interno com teto translúcido, que ilumina o ambiente. Em primeiro plano, cinco pessoas estão posicionadas lado a lado, voltadas para a frente ou ligeiramente de perfil, com expressões sérias.
Família Silva e outros moradores do Jardim Valéria participaram de jogos de Teatro do Oprimido no encontro da ECRJ. Foto: Victória Lôbo.

Capoeira que atravessa gerações

A falta de opções de lazer, como praças e parques públicos, também é sentida pelos moradores do Jardim Valéria. Diante das ausências, é a própria comunidade que se movimenta para oferecer cultura e acolhimento para as crianças e adolescentes do território. Há cinco anos, Rosimary assumiu a responsabilidade de organizar o Dia das Crianças no loteamento. Sozinha e contando apenas com doações eventuais, ela chegou a distribuir presentes e lanches para mais de 400 crianças. “Eu que não tenho filho nenhum, adotei um bairro inteiro. É muito menino”, conta.

O irmão de Rosimary também tomou para si a função de acolher os mais jovens. Lucas Silva, de 34 anos, conhecido como Mestre Graúna, coordena o grupo de capoeira Pelourinho da Bahia. Ele iniciou no esporte aos 8 anos e atua voluntariamente com o objetivo de formar cidadãos e afastar os jovens da criminalidade. “A capoeira vem para educar. É um movimento que abraça todo tipo de pessoa”, afirma o mestre, que muitas vezes tira do próprio bolso para comprar camisas e viabilizar eventos para os alunos.

Os impactos desse abraço transformam realidades. Micaele Silva, sobrinha de Graúna, enfrentou violências no passado por ser mulher, mas encontrou no esporte a cura para seus próprios traumas. Hoje, ela treina ao lado do filho, Tharley Miguel, de 9 anos, bisneto de Dona Pretinha. O garoto começou na capoeira aos 8 anos para superar o medo, após sofrer agressões e bullying na escola. “Eu levei para as aulas para ele ter confiança nele mesmo”, relata a mãe.

Uma mulher negra e um menino negro estão abraçados no centro de uma quadra de esportes coberta. A mulher, à direita, sorri com a cabeça inclinada, veste camiseta branca com estampa circular de capoeira e calça de moletom azul-escura. O menino, à esquerda, sorri, veste blusa de manga longa listrada em vermelho, cinza e branco, e calça de moletom cinza. 
Mãe e filho, Micaele e Tharley, compartilham a paixão pela capoeira e treinam juntos. Foto: Afonso Ribas.

A capoeira atravessa gerações da família Silva. Luciano da Silva Santos, que também é irmão de Rosimary, atuou como professor e agora treina com o filho Bruno de Jesus Santos, 20 anos, que atualmente auxilia Graúna nas aulas. O bisneto de Dona Pretinha, Alexandre Henrique, de 15 anos, também já luta pela preservação do esporte no Jardim Valéria.

O jovem, que pratica a capoeira desde 2018, é apaixonado pelas acrobacias e pela história. “A capoeira só é mais reconhecida quando precisam, como no Dia da Consciência Negra”, destaca. Ele defende que a prática seja integrada ao currículo escolar com a contratação de mestres, ressaltando que o esporte engloba luta, dança, música e conhecimento.

O descaso com a cultura

Apesar da contribuição para a comunidade, o grupo Pelourinho da Bahia não possui um local fixo para treinar no Jardim Valéria, sendo forçado a praticar nas ruas ou na quadra poliesportiva que não tem luz nem banheiros. O único apoio que possuem é dos familiares dos alunos, da família Silva e de alguns vereadores.

As escolas do loteamento trancam seus portões à noite, impedindo o uso das quadras sob a justificativa de evitar vandalismo. “Alegam que a gente não vai ter cuidado, vai ser coisa de marginal. Mas é o oposto disso, a capoeira vem para educar”, rebate o Mestre Graúna. A quadra poliesportiva pública, que deveria servir à comunidade, virou cenário de total abandono, já que a estrutura está depredada.

Um homem negro de barba curta e expressão séria está de pé em um calçadão. Ele veste uma camiseta verde. Ao fundo, uma estrada asfaltada segue pela direita e uma área de grama com árvores fica à esquerda. Mais atrás, há residências e pequenos comércios.
 Lucas Silva atua voluntariamente como professor do grupo Pelourinho da Bahia no Jardim Valéria. Foto: Afonso Ribas.

“Antigamente, nós tínhamos a escola Edivanda Maria Teixeira, só que com a mudança de diretoria, nós não conseguimos mais. Também porque não tem guarda aqui, para vigiar a escola. Então, fica muito mais difícil. E com isso tudo, nós não temos espaço. Nós já treinamos em uma quadra escura”, relata Micaele Silva. 

Os membros da família Silva contam que recorreram à Prefeitura inúmeras vezes por meio de ofícios, mas nem sempre obtiveram respostas. Durante um período, conseguiram usar a quadra de esportes localizada em frente à Escola Municipal Edivanda Maria Teixeira, mas, quando o espaço passou por reformas no primeiro semestre de 2026, o grupo perdeu o acesso. Depois, mudaram as aulas para a Quadra Poliesportiva do Jardim Valéria, onde os próprios capoeiristas compraram e instalaram a iluminação. Os fios, no entanto, foram roubados e o grupo ficou impossibilitado de usar o local. 

Sem energia pública, o monitor do grupo, Bruno Santos, relata que os próprios alunos precisam arcar com os custos de iluminação quando tentam usar o espaço. Muitas vezes, a solução é treinar no escuro, ou pior, na calçada. “Nós estávamos treinando no passeio, no meio da rua”, denuncia Micaele.

O Conquista Repórter solicitou posicionamento da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista sobre a liberação de uso e manutenção da quadra poliesportiva do bairro, mas não obtivemos respostas até o fechamento desta reportagem.

Resistir e sonhar

Sem estrutura adequada para treino no Jardim Valéria, os coordenadores do Pelourinho da Bahia colocam parte das crianças em bicicletas e pedalam à noite, do loteamento até a Praça Céu, no Centro de Artes e Esportes Unificados J. Murilo, no bairro Alto Maron. Outra parte da turma, que não possui o veículo, utiliza transporte por aplicativo custeado pelos professores.

Para o Mestre Graúna, a situação é reflexo da visão equivocada da sociedade sobre a capoeira. “É uma cultura que vem para educar, só que as escolas não abraçam isso, só nos chamam quando precisam da gente para datas comemorativas”, destaca. O jovem Alexandre compartilha desse sentimento e sonha que um dia o esporte seja valorizado.

“Minha proposta é que as escolas ofereçam aulas de capoeira. Tem muitos alunos em Vitória da Conquista, muitas crianças que querem fazer capoeira, só que não podem porque o pai não permite, por conta do horário, porque realmente o treino acaba um pouco tarde. Mas poderiam colocar uma carga horária de uma hora de treino para os alunos, contratar um professor, pensar na capoeira como uma cultura, não só como algo para ser lembrado no Dia da Consciência Negra”, ressalta Alexandre.

Um jovem negro de cabelo crespo curto está em pé, com as mãos apoiadas sobre um atabaque de madeira. Ele veste uma camiseta branca com detalhes em vermelho e preto, que traz a estampa "II FESTIVAL DE CAPOEIRA COQUINHO BAIANO" e a palavra "BAHIA". 
Bisneto de Dona Pretinha, Alexandre Henrique pratica capoeira desde 2018. Foto: Afonso Ribas.

No Jardim Valéria, onde o asfalto não chega a todos, o posto de saúde carece de melhorias e faltam praças públicas, são projetos como o Pelourinho da Bahia que cultivam esperança. O respiro está no som do atabaque de Alexandre, na persistência do Mestre Graúna e na memória ancestral plantada por Dona Pretinha. Mais do que apenas um esporte, a capoeira, para a família Silva, é a sobrevivência, a educação e a resistência de um povo que se recusa a ser esquecido.

*Esta reportagem é resultado do 1º ciclo de atividades da Escola Conquista Repórter de Jornalismo, que visitou quatro bairros periféricos de Vitória da Conquista, entre abril e maio de 2026: Vila Elisa, Cruzeiro, Jardim Valéria e Senhorinha Cairo.

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