Juliana Brito: “A cultura está viva, mas precisa de incentivo para ir mais à frente”

Por - 19 de junho de 2026 - Cultura

Desde 2020, ela coordena a Biblioteca Comunitária Donaraça, na zona rural de Conquista. Em entrevista ao CR, a historiadora defende a criação de um sistema municipal de bibliotecas e avalia a elaboração do Plano Municipal de Cultura.

Mulher sentada em uma poltrona clara, com óculos vermelhos, camiseta branca e colete cinza, olhando para a direita com expressão atenta. Ela está em um palco com fundo preto e iluminação em tons rosados. À esquerda, há uma planta verde de grande porte. Sobre a camiseta aparece o texto “Instituto Relicário”. No canto inferior direito, há uma garrafa de água. Acervo Pessoal

A historiadora Juliana Brito começou a sua trajetória profissional na sala de aula, mas os rumos da sua atuação mudaram depois que a Biblioteca Comunitária Donaraça tomou forma no distrito de Cabeceira do Jiboia, na zona rural de Vitória da Conquista. Hoje, além de coordenar o equipamento que foi reconhecido a nível estadual como Ponto de Cultura, ela participa ativamente dos espaços de debate e construção cultural da cidade.

Foi no sítio recém-adquirido no ano de 2020 que ela e o esposo Josué Brito, também professor, decidiram contar uma nova história, ampliando os horizontes da comunidade e do casal. À medida que a biblioteca foi se desenvolvendo, Juliana buscou cursos e oportunidades de se aprimorar, o que a levou à segunda graduação, dessa vez em Biblioteconomia.

Segundo ela, a partir de então, a sua mente se abriu para entender que uma biblioteca vai muito além dos livros, pois é um equipamento cultural que oferece, principalmente, o acesso à informação e à emancipação. Por isso, atualmente, na Donaraça, é possível encontrar ações educativas, de formação e de preservação da memória, além do fortalecimento dos laços comunitários.

Presença constante nas reuniões do Conselho de Cultura, a bibliotecária integra coletivos literários e o Movimenta Cultura Conquista. Ela acompanhou de perto a elaboração do Plano Municipal de Cultura, concluído em maio deste ano. O documento vai guiar os próximos dez anos do setor.

O Conquista Repórter conversou com Juliana sobre o processo de elaboração e os problemas em torno da aprovação do plano, que aconteceu sem que as ações e os prazos fossem publicizados com antecedência. Ela falou também sobre os desafios para a área de leitura e escrita, sem muito destaque no plano. Dentre eles, as condições da Biblioteca Municipal José de Sá Nunes, que esteve fechada neste primeiro semestre, por problemas estruturais. Confira a seguir:

CR: No mês de maio, Vitória da Conquista concluiu a elaboração do Plano Municipal de Cultura (PMC). Como se deu a conferência que definiu as metas prioritárias para o setor nos próximos 10 anos?

Juliana Brito: A cultura precisa funcionar como um sistema e a conferência é um local de diálogo e de deliberação. Eu avalio que houve um avanço nas escutas, porque era uma coisa que a gente já estava demandando desde a conferência anterior, sobre a necessidade de ouvir mais os agentes. A Prefeitura contratou uma consultoria, que foi organizando escutas tanto setoriais quanto nos distritos e bairros. Isso também foi uma demanda nossa e, de certa maneira, foi atendida, porém de uma forma difícil, porque às vezes pelo horário e o local, não dava para todos os agentes participarem como eles gostariam. Também foi aberta uma escuta virtual com um formulário, mas eu acredito que não tenha tido muita divulgação entre a população. Eu acho que ainda falta um mecanismo de educação, de explicar o que é o plano, que vai valer para 10 anos e é muito importante, para que a população possa realmente se envolver. Então, apesar do esforço tremendo, a própria conferência teve alguns problemas. Ela foi marcada em um dia da semana, e a gente precisa de instâncias para nos ouvir, mas que seja um horário que dê para as pessoas participarem, principalmente porque quem faz cultura geralmente não está vivendo de cultura, está trabalhando em outras áreas. Eu acho que foi um grande problema no sentido de garantir realmente a participação mais efetiva das pessoas. Tivemos apenas um dia para debater, além de um outro problema. Não tivemos acesso às propostas antes. Tinha ficado combinado que elas seriam divulgadas com antecedência para a gente ler e ver se estava dentro daquilo que colocamos nas escutas. No dia anterior, foi divulgado um link com as propostas mais gerais, mas já à noitinha e muita gente não teve acesso. Nós também fizemos a reclamação de uma coisa que parece um detalhe, mas não é: faltou uma estrutura maior de acolhimento. E, com isso, a gente vê a prioridade da cultura para o Poder Público. Imagine que pessoas vieram da zona rural e de bairros periféricos distantes e não tinha uma estrutura de almoço, lanche, água. Além disso, a gente só teve praticamente a tarde, porque de manhã houve toda a construção coletiva do estatuto da própria conferência, que é importante, mas a discussão mesmo acabou ficando para duas, três horas. Então, eu acho que isso foi um ponto que prejudicou muito o entendimento e uma avaliação mais criteriosa daquelas metas. Eu fiquei em um grupo, por exemplo, em que a gente tinha 27 metas para analisar rapidamente, porque teria que ir pro plenário. Foi uma conferência muito importante, mas ficou um sabor de angústia. Temos que comemorar porque ela é uma etapa importante, mas não foi realmente como a gente gostaria que fosse.

Homem de camisa polo vermelha e boné xadrez consulta documentos espalhados sobre uma mesa comprida, em um ambiente movimentado. Ao redor, várias pessoas estão em pé ou sentadas, lendo papéis, fazendo atendimentos e tirando dúvidas. A mesa está coberta por formulários, canetas e materiais impressos. Ao fundo, há um grupo de participantes conversando e circulando pelo espaço. Na parede branca aparece uma placa vermelha com o texto “Bilheteria”.
A Conferência Municipal de Cultura foi realizada no dia 5 de maio, no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Foto: Secom/PMVC.

CR: Qual a sua avaliação sobre o documento final aprovado na conferência?

Juliana Brito: Tudo que eu estou falando tem a ver com acesso à informação, um dos pilares da própria biblioteca, como um equipamento cultural. Isso me chamou atenção e prejudicou muito na hora da decisão. A gente está um pouco no escuro, porque nós aprovamos as metas, mas a gente não se debruçou sobre as ações, que seria o mais importante. É a ação que vai dizer em quantos meses, em quantos anos, quanto de tal coisa a gente vai correr atrás e vai conseguir. Mesmo com essas dificuldades, conseguimos pensar dentro daquelas propostas que estavam ali e trazer algumas prioridades. Contudo, como havia poucos agentes sociais e culturais para defender determinadas pautas, acho que faltou muita coisa. De alguma forma, tanto a Secretaria de Cultura, como o conselho e os agentes estavam todos empenhados em aprovar o plano, precisamos reconhecer também esse esforço. Nós conseguimos dar prioridade, por exemplo, aos equipamentos culturais, uma reivindicação antiga. Sobre a questão da reforma do Teatro Carlos Jehovah, a gente inclusive colocou um adendo para que sejam respeitadas as características daquele tipo de teatro, porque não faz sentido reformar e transformá-lo em outra coisa. Também colocamos a prioridade para a reforma e o uso da Casa Glauber, que continua fechada. Não consegui acompanhar muito os outros grupos e essa é uma das coisas que a gente acaba perdendo, essa visão do todo. Acredito que foi votado dentro do possível, mas ainda ressalto que a gente está um pouco no escuro e isso é um problema. É preciso aperfeiçoar os mecanismos de democratização. Uma das coisas que a gente também sempre reivindica e, inclusive, está nas ações, é a maior transparência das reuniões do Conselho de Cultura. Eu acho que é fundamental que essas reuniões sejam transmitidas online para quem está em bairros distantes, na zona rural. Os agentes culturais querem acompanhar, mas, às vezes, não podem porque são trabalhadores.

CR: Em relação à demanda de acesso e incentivo à leitura, como ela está sendo contemplada pelo plano?

Juliana Brito: Esperamos que realmente se tenha um olhar sensível para o setor das bibliotecas e da literatura. A gente entende a literatura como uma cadeia produtiva muito grande do livro: editoras, livreiros, mediadores, contadores de história e artistas da palavra, de forma geral. E nós temos muitos em Conquista. É um setor rico, mas menos prestigiado e com menos recursos. A gente tem coletivos literários de escritores e clubes de leitura na cidade. Nós também temos várias bibliotecas comunitárias que precisam ser olhadas com muita atenção, porque elas estão em locais onde o Poder Público não consegue estar. Esperamos que seja criado um sistema municipal de bibliotecas e já começamos a mobilizar pela criação de um plano municipal do livro e da leitura, que também é uma determinação federal. Por muito pouco, a gente aprovou também a prioridade para a Biblioteca Municipal. Logo em seguida, vivemos o drama da chuva em que ela fechou e tudo mais. Precisamos considerar que aquele não é um local adequado e a biblioteca precisa ser modernizada no sentido da informatização do acervo, do serviço, em tudo. O Plano Municipal de Cultura acabou abarcando uma reivindicação da categoria, a mudança de local, mas a gente ainda não sabe como será feito, por falta desse contato com as ações.

Grupo de crianças e adultos posa ao ar livre em frente a uma casa, reunido em torno de um banner colorido. As crianças ocupam a parte da frente e usam roupas de cores variadas, enquanto os adultos estão atrás, alguns vestindo camisetas com o logotipo do Instituto Relicário. No centro, o banner traz os textos “MERCOSUL AUDIOVISUAL” e “Mostra de curtas infantis”.
O casal Juliana e Josué mantém a Biblioteca Comunitária Donaraça, no distrito de Cabeceira do Jiboia, zona rural de Vitória da Conquista. Foto: Acervo Pessoal.

CR: Tendo em vista essa realidade, em que a Biblioteca Municipal José de Sá Nunes esteve fechada entre os meses de março e maio deste ano após danos na infraestrutura e no acervo, em sua opinião, como o município tem respondido aos anseios da área?

Juliana Brito: Essa realidade das bibliotecas, de uma forma geral, é nacional, um problema que a gente precisa encarar como sociedade. O que geralmente acontece, e também aqui no nosso município, é que a biblioteca não tem um orçamento próprio. Isso já está mapeado por federações internacionais e pelo Sistema Nacional de Bibliotecas. Então, existe uma série de documentos, de artigos, de pesquisas científicas que já mostram isso, como a Carta de Salvador, que eu entreguei em uma das escutas. Esse é um documento elaborado pelo Conselho Federal de Biblioteconomia, a partir de escutas sociais no Brasil inteiro, que diz o seguinte: se você não tem um orçamento, se a sociedade não encara aquele equipamento como algo fundamental na cidade, a biblioteca vai ser sempre invisibilizada. Nós também precisamos de um sistema, que pode ser liderado pela biblioteca municipal. O regimento do município diz que a gente tem uma gerência de bibliotecas que, na verdade, não existe. Então, uma das questões é essa, de que não existe um orçamento próprio para as bibliotecas. Além disso, precisamos pensar numa gestão mais profissional, ter mais bibliotecários. Se eu não me engano, a biblioteca municipal tem apenas um bibliotecário atuando, o que não é suficiente para as demandas. É preciso ter mais profissionais para dar conta e para formar essa rede. A Biblioteca José de Sá Nunes também precisa ter um catálogo informatizado, previsto no sistema de gestão de bibliotecas, porém lá só tem o computador do tratamento técnico, que fica com o profissional. Então, você não tem, por exemplo, um computador no balcão para consultar o catálogo. Conquista inclusive tem uma secretaria de inovação e a gente não tem um catálogo da biblioteca online para pesquisar. E isso não é uma coisa difícil, porque o nosso catálogo já está informatizado, ele só precisa ser colocado em rede e ter computadores para os profissionais de lá trabalharem. Muita coisa é feita manualmente, é um esforço grande. O pessoal cuida com carinho da biblioteca, mas sem orçamento não tem como. Temos outro problema que acaba interferindo e gerando mais consequências: a localização. A biblioteca está num local úmido da cidade, então o clima interfere e acaba prejudicando o acervo. Também não é um lugar acessível. Então, a gente quer uma biblioteca mais próxima dos trabalhadores, das trabalhadoras, dos estudantes, que funcione também em vários horários. Mais uma vez, eu volto para a democratização do acesso à informação. Biblioteca é cultura, mas também é informação. Se a gente tem essa biblioteca mais próxima do comércio, por exemplo, um comerciário vai rapidinho e pega seu livro no horário do almoço. A pessoa que está no médico esperando por uma consulta ou uma pessoa que vem de outra cidade pode ir à biblioteca, sentar, ler, fazer alguma coisa cultural lá dentro, até para desestressar, e voltar para o compromisso. Se a biblioteca é vista, a população começa a abraçar esse equipamento.

CR: Mesmo não integrando o Conselho Municipal de Cultura, você é participante ativa nas reuniões, como representante da sociedade civil, além de integrar coletivos e espaços de debates sobre a cultura. Qual o impacto dessa atuação organizada e como tem sido o envolvimento dos moradores de Conquista nos diálogos culturais da cidade?

Juliana Brito: Eu queria destacar a atuação do Movimenta Conquista na conferência. Esse movimento está se articulando e promovendo diálogos com os agentes culturais, escutas independentes. Fizemos, inclusive, um abaixo-assinado entregue ao município com algumas reivindicações e que acabou repercutindo também na conferência. Uma coisa que falamos muito nas escutas é que a gente precisa ligar cultura, saúde, educação e outros segmentos. Não me lembro se teremos ações concretas sobre isso e até questionei, no dia que teve a escuta lá na Donaraça. Pedi para que participassem representantes das Secretarias de Educação e de Saúde, falei para o pessoal dos postos de saúde para ir na escuta social, porque assim vamos encontrar estratégias, principalmente para a saúde mental. Nós vivemos em uma cidade de muitos problemas e, infelizmente, tem uma juventude que está desassistida, pessoas idosas desassistidas. Por exemplo, temos um índice muito alarmante de suicídio, sobre o qual a gente não fala. É um. Mas como a gente pode enfrentar esses problemas? Como podemos melhorar a saúde das pessoas? Também através da cultura. As pessoas não entendem a cultura como esse elemento que nos liga socialmente. Quando anunciaram que, finalmente, a área do antigo aeroporto foi cedida pelo Governo Federal para se construir um teatro e um centro de convenções, que também é uma das nossas demandas aprovadas no Plano, foi impressionante o ódio nos comentários das pessoas. É impressionante o ódio que as pessoas têm, de alguma forma, com a cultura. Diziam que devia ser construído um hospital, perguntavam por que construir um teatro. “Ah, a gente tem um Centro de Cultura que ninguém usa para nada”. Só que o Centro de Cultura não para, todo dia tem atividade lá. Eu posso dizer que não é central, que o acesso acaba não acontecendo para as pessoas dos bairros mais distantes, periféricos. Eu posso dizer que é difícil conseguir uma pauta lá, porque tem muita coisa acontecendo e pouco espaço. Mas eu não posso dizer que o Centro de Cultura não está funcionando. Há um grande desconhecimento. As pessoas não entendem o potencial da cultura de gerar desenvolvimento, inclusive na economia, porque cultura também é economia. Vocês podem dar uma olhada na percepção do conquistense pelos comentários. Eu acho que falta o Poder Público, principalmente a Secretaria de Cultura, fazer campanhas e usar as redes sociais da Prefeitura, não para promover ações pontuais e eventos, mas para educar a população sobre o potencial da cultura.

Mulher de óculos segura um cartaz diante de uma estante de livros. O cartaz tem fundo branco com elementos em vermelho e azul e traz o texto: “Pontos de Cultura da Bahia”. Na parte inferior aparecem os logotipos e os textos “Bahia”, “Governo da Bahia”, “Ministério da Cultura”, “Governo Federal Brasil” e “União e Reconstrução”. Ao lado, há uma placa presa à estante com o logotipo do Instituto Relicário e o texto “Biblioteca Comunitária Donaraça”, “Literatura Estrangeira” e “Boa Leitura!”. Ao fundo, livros organizados em prateleiras.
A Biblioteca Donaraça é reconhecida como referência em iniciativas culturais, pelo Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura. Foto: Acervo Pessoal.

CR: As bibliotecas comunitárias acabam exercendo um pouco desse papel. Hoje, a Biblioteca Donaraça é um Ponto de Cultura e mais do que um espaço de leitura, a iniciativa também se desdobra em ações educativas, no fortalecimento dos laços comunitários e no apoio a atividades formativas voltadas para as mulheres. Qual a importância de mais espaços como esse na zona rural e nas periferias de Vitória da Conquista?

Juliana Brito: Acredito que essas iniciativas independentes, como são as bibliotecas comunitárias, estão respondendo a uma ausência do Estado. Ele não consegue chegar nessas áreas mais distantes e periféricas por uma série de motivos, sendo um deles as prioridades políticas. Então, as bibliotecas comunitárias trabalham na perspectiva do direito. É o direito de ter acesso à literatura, à cultura, ao audiovisual, porque a gente também promove esse tipo de atividade. Temos pelo menos quatro bibliotecas, que eu conheço, em Conquista: a Kilombeco, a biblioteca do Miro Cairo, a Tia Nita e a Donaraça, que fica na zona rural. São áreas de alta vulnerabilidade, onde a gente não tem nenhum equipamento cultural e tem a população que mais sofre com violência e falta de estrutura. Então, proporcionar acesso ao livro, à leitura e à informação faz toda a diferença, ajuda as pessoas a terem autonomia. E, com autonomia, a pessoa busca outros direitos e uma transformação social. Ou seja, nunca é só sobre livros. Você se reúne para resolver um problema e, através das ações, vai despertando o interesse do pessoal em estudar mais, buscar uma formação, uma educação por um emprego digno. Quando a pessoa vai buscar alguma coisa relacionada à saúde, está mais informada para acessar direitos. Trabalhando nessa perspectiva do direito, a biblioteca também está mostrando, de alguma forma, que as pessoas fazem cultura. A gente tem uma visão colonizadora da cultura, de levar a cultura que você não tem. Mas não é assim, devemos identificar qual é o potencial de cada comunidade e Conquista está rica, tem tanta coisa bacana acontecendo em todos os lugares. Tem gente que pensa que a cultura morreu na cidade. Não. A cultura está viva, mas precisa de incentivo para ir mais à frente. Vamos também fazer esse intercâmbio, como a gente pode contribuir? Cada biblioteca tem a característica de despertar os talentos da sua comunidade e de promover encontros em cada território. No nosso caso, temos o Terno de Reis, que é muito importante e representa a cultura oral. Por isso eu falo que as bibliotecas são esses equipamentos culturais que podem pensar a pessoa de uma forma integral, na saúde, na informação, nos direitos. E aqui, em Conquista, temos essas quatro bibliotecas agindo de forma tão potente. A biblioteca comunitária tem um papel tão importante que o Governo Federal a reconheceu dentro do sistema de bibliotecas públicas. Então, é preciso ter um olhar mais atento e cuidadoso de apoio a esse equipamento, inclusive das pessoas também para chegar junto desses projetos, ajudar e fazer acontecer. O objetivo da biblioteca comunitária não é que uma pessoa faça as coisas, mas que a comunidade se mobilize para fazer. E isso que é bonito.

Um cartaz fixado em uma prancheta de madeira diz: É PRECISO QUE A LEITURA SEJA UM ATO DE AMOR, Paulo Freire. No canto inferior direito do papel, há a logomarca do Instituto Relicário Donaraça. Ao fundo, ligeiramente desfocada à direita, está uma prateleira cinza repleta de livros coloridos.
Para Juliana, iniciativas independentes, como as bibliotecas comunitárias, respondem a uma ausência do Estado. Foto: Acervo Pessoal.

CR: Nos últimos anos, Conquista viu surgir essas bibliotecas comunitárias, iniciativas de coletivos, clubes de leitura e até uma feira literária. Você vislumbra um futuro mais leitor para a cidade?

Juliana Brito: Na penúltima conferência, a gente até escreveu um documento falando assim: “por uma comunidade leitora em Vitória da Conquista?”. Como participo de várias instâncias, de clubes literários com quem está lendo, de coletivos de escritores com quem está escrevendo, eu vejo muita coisa em curso. Mas essas coisas ainda estão guardadinhas. Elas precisam expandir. Temos inclusive autores reconhecidos nacionalmente, que escrevem muito bem, tanto escritores quanto escritoras. Essas pessoas são protagonistas, porque elas escrevem, elas mesmas correm atrás para publicar, são leitoras. Vejo muitos clubes atuando e, na própria experiência da biblioteca, a gente tem um projeto que é a Capanga Literária, que leva os livros até as casas das pessoas, elas leem, a gente vai buscar e deixa outros. Então, quando a pessoa tem acesso, ela gosta de ler e se envolve. A gente tem o caso de um pai que eu sempre cito porque é um leitor muito querido. Ele era um pedreiro e o filho dele recebia livros, aí ele me falou que também queria e a gente passou a oferecer livros também para ele. É assim, quando a pessoa tem acesso ao livro, ela lê. Principalmente as crianças. A gente precisa garantir esse acesso, mas é um acesso amoroso. Por que os jovens se afastam dos livros? As pesquisas dizem que as pessoas leem até a infância, mas, ao chegar no final da adolescência, deixam um pouquinho de ler e voltam depois mais tarde. Tem a ver com a questão de trabalho, de perspectiva social. Está tudo atrelado. Tem a ver com o poder aquisitivo. A maioria da nossa população, que é o público que atendemos na biblioteca, não tem possibilidade de comprar um livro. Isso é um ponto que precisamos dizer. Mas, na medida em que existe o acesso, as pessoas gostam de ler. E aí, as escolas também deveriam estar fazendo isso, o acesso amoroso, não uma leitura por obrigação. Assim como o estudo. Porém, em uma sociedade com o trabalho precarizado, qual é a percepção das pessoas? Não adianta estudar porque não tem emprego. Por isso, quando a gente luta por direito, por trabalho digno, pelo fim da escala 6×1, também estamos lutando pelo direito à leitura e vice-versa. Precisamos aprofundar o diálogo entre o Poder Público e a sociedade civil. O momento é de descrença coletiva e o esvaziamento da conferência reflete isso. Às vezes, pensamos que não adianta lutar porque a gente nunca consegue, mas olha aí a luta das bibliotecas comunitárias. Elas já são reconhecidas pelo Governo Federal. Agora mesmo, muitas bibliotecas no Brasil todo, inclusive nós, recebemos 600 livros de educação infantil do MEC e vamos receber mais. Por quê? Porque alguém lutou para a gente ser reconhecido. Precisamos entender que a luta coletiva é o caminho. E acreditar. A gente está num momento muito preocupante, inclusive com a nossa vida como mulheres e meninas em risco. Só vamos conseguir reverter isso se a gente estiver unido, informado e se puder imaginar. Sem a leitura e sem a cultura para imaginar um novo mundo, nada vai acontecer. É por isso que, mesmo com nossas dificuldades, precisamos acreditar e insistir.

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