“Toda vez que chove é essa mesma história”: moradores do Vila Elisa ficam ilhados após temporal

Por - 2 de março de 2026 - Cidade

Sem pavimentação, o bairro foi um dos mais afetados pelas chuvas. Em outros pontos de Conquista, foram registrados alagamentos, buracos e deslizamentos de encostas.

Alane Andrade

Em fevereiro de 2026, o volume de chuvas em Vitória da Conquista foi quase dez vezes maior do que o registrado no mesmo período de 2025, segundo a Defesa Civil. Na zona urbana, quem mais sente os efeitos dos temporais são os moradores de bairros sem pavimentação ou com asfaltamento precário. Esse é o caso de Maria Marta Calixto de Almeida, que há 15 anos vive no loteamento Vila Elisa, na Rua 4. “É muita água, não tem condição de sair. Nós somos esquecidos aqui”, desabafa.

Sem as ruas asfaltadas, o Vila Elisa se transforma em um lamaçal nos períodos de chuva, o que dificulta a locomoção de moradores para a realização de tarefas diárias. Diante do volume de água que caiu entre o domingo, 1º de março, e esta segunda, 2, a moradora da Rua C, Alane Andrade Santana, não conseguiu comparecer ao primeiro dia no trabalho novo. “Não aguentamos mais. A lama aqui já faz parte do nosso cotidiano. Tive que desmarcar porque não dá para sair.”

A situação afeta toda a família. Quando a água e a lama tomam conta do bairro, o filho de Alane, Jonathas, de 9 anos, não consegue ir à escola. A avó do pequeno, Dona Joanice, de 53 anos, sofreu uma queda e bateu a cabeça no chão ao sair de casa para ir ao mercado. Como consequência, teve um pico de pressão alta. Para quem vive no Vila Elisa, essa é a realidade ano após ano nos períodos chuvosos.

Rua 4, do Vila Elisa, na manhã da segunda-feira, 2 de março de 2026. Imagens: Maria Marta Calixto de Almeida.

“Toda vez que chove é essa mesma história e a prefeita não nos enxerga. Qualquer chuva já é um problema, mas dessa proporção que está tendo agora, é pior ainda. Isso afeta as nossas vidas, temos crianças, idosos. É horrível, a gente precisa ser visto e ouvido”, afirma Alane Andrade.

Moradora do bairro há cinco anos, Eliane Mendes dos Santos também sente que o Vila Elisa é esquecido pelo Poder Público. Ela e o filho vivem em uma casa na Rua 10. “Não podemos sair para o básico. Não temos acesso ao ponto de ônibus escolar ou coletivo, mercado, padaria, nada. Me sinto invalidada como ser humano e esquecida pela prefeita e vereadores”, destaca. 

Os problemas do Vila Elisa são estruturais, desde a falta de pavimentação asfáltica até a ausência de sistemas de esgoto e drenagem, mas as carências ficam ainda mais evidentes nos períodos de chuva. “O que a gente espera é uma mudança, é a prefeita lembrar da gente, lembrar que estamos aqui, que tem ser humano aqui”, finaliza Maria Marta.

O que diz a Prefeitura

Em nota ao Conquista Repórter, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) informou que uma equipe técnica visitou o Vila Elisa. Segundo a pasta, os pontos de alagamento e o desgaste do pavimento do bairro foram causados pelo grande volume de chuva.

Perguntada se existe previsão para obras de drenagem e pavimentação no local, a Prefeitura disse que “as intervenções de reparo e recuperação no Vila Elisa serão iniciadas assim que as condições climáticas permitirem a execução dos serviços”. Com a iminência de arrecadar mais R$400 milhões via empréstimo do Finisa, o governo não esclareceu, até o momento, quais obras serão feitas com os recursos.

Impactos em toda a cidade

A população do loteamento Vila Elisa é apenas um dos grupos que vêm sofrendo com os efeitos das fortes chuvas em Conquista. Imagens e relatos de moradores de diversas localidades circulam nas redes sociais mostrando pontos de alagamento, buracos, quedas de árvores e outros transtornos. 

Moradores do bairro Simão também ficaram ilhados nesta segunda, 2. Em outro extremo da cidade, o grande volume de água tomou conta das margens da BR-116, onde está localizado o bairro Lagoa das Flores, que espera solução para os alagamentos há pelo menos cinco anos, quando Vitória da Conquista esteve entre as regiões mais atingidas pelos temporais na Bahia, em dezembro de 2021

Lagoa das Flores na manhã da segunda-feira, 2 de março de 2026. Imagens: Evandro Santos Silva.

No bairro Recreio, os moradores reclamam de um buraco na rua Lourival Cairo que persiste há meses. Com o volume e a força das águas, uma cratera se expandiu por toda a rua, isolando o acesso às casas e chamando atenção para o tamanho do estrago. O trânsito no local foi bloqueado pelo Simtrans neste domingo, 1º. 

Também próximo dali, a Avenida Guanabara foi interditada por conta de um deslizamento na encosta da pista, por onde passa o Rio Verruga. Nesse ponto, em frente a um condomínio de luxo, as máquinas da Prefeitura já trabalhavam desde o domingo. 

Já nos arredores do Centro da cidade, imagens da Avenida Expedicionários mostram mais um buraco que já existia e está cada vez maior, com o passar do tempo e a intensidade das chuvas. O Centro é outro local conhecido pelo antigo problema do acúmulo de águas que descem dos pontos mais altos de Conquista sem encontrar um sistema de drenagem por onde a enxurrada possa escoar. 

Na zona rural, também foram registradas situações de risco. No distrito de Bate-Pé, parte de uma residência desabou e os moradores dos povoados da Matinha e Queimadas encontraram dificuldades para transitar pela estrada que liga as localidades à Vitória da Conquista. Muitas pessoas retornaram às suas comunidades, depois que um ônibus ficou atolado na via na manhã desta segunda. 

Diante da previsão de que as fortes chuvas continuam durante esta semana, a prefeita Sheila Lemos suspendeu as aulas das escolas da zona rural até a próxima quarta, 3, e publicou o Decreto 24.121/2026, que recomenda a suspensão e o adiamento de eventos realizados em espaços públicos abertos.

O que fazer em situações de risco?

Em meio a episódios cada vez mais frequentes de eventos climáticos extremos no país, o Governo Federal disponibilizou orientações sobre como agir durante chuvas intensas. Como Conquista recebeu o Alerta Vermelho para o Acumulado de Chuva do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), existe a possibilidade de um volume de chuva superior a 60 mm/h ou 100 mm/dia. 

Isso significa que há risco de alagamentos, transbordamentos de rios e deslizamentos de encostas. Portanto, acompanhe o nível de subida das águas, mesmo durante à noite, e reserve documentos e objetos de valor em local protegido e de fácil acesso para o caso de precisar sair de casa. 

Caso exista risco de deslizamentos na região, fique atento a qualquer sinal de rachaduras no terreno ou nas paredes. Além disso, evite o contato com a água de alagamentos, pois pode causar doenças, e não atravesse ruas alagadas, por conta da força das enxurradas, mesmo estando de carro, moto ou bicicleta.

Ao perceber risco de alagamento ou desabamento, busque locais seguros e acione imediatamente a Defesa Civil, pelos telefones (77) 3456-3229 e (77) 98856-5070, que também é WhatsApp. Para resgates, ligue para o Corpo de Bombeiros 193. 

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